— Mas acho que Egwene não sabe de todos os costumes masculinos, afinal de contas — continuou ele. — As mulheres não sabem tudo. Olha, já que fui eu que comecei, temos que nos casar. Essas permissões não importam nada.
— Você começou? — Aviendha bufou de um jeito bem significativo. Aiel, andorianas ou o que fossem, as mulheres usavam aqueles sons como varas para cutucar ou bater. — Seja como for, não importa, já que vamos seguir os costumes Aiel. Isso não vai se repetir, Rand al’Thor. — Ele ficou surpreso e contente pelo tom de pesar na voz dela. — Você pertence à quase-irmã da minha quase-irmã. Tenho toh com Elayne agora, mas isso não é da sua conta. Vai ficar deitado aí para sempre? Já ouvi dizer que os homens ficam preguiçosos depois dessas coisas, mas logo os clãs vão começar a marcha da manhã. Você precisa estar lá. — De repente, um olhar triste perpassou o rosto de Aviendha, e ela caiu de joelhos. — Isso se tivermos como voltar. Não sei se lembro o que fiz para abrir o buraco, Rand al’Thor. Você precisa encontrar o caminho de volta.
Rand contou que havia bloqueado o portal e que ainda o sentia aberto. Aviendha pareceu aliviada e até abriu um sorriso. Mas ficou cada vez mais claro, quando ela se sentou e arrumou as saias, que não pretendia virar de costas enquanto ele se vestia.
— O que é justo é justo — resmungou Rand, após um longo instante, saindo desajeitado de debaixo dos cobertores.
Tentou parecer tão indiferente quanto ela, mas não foi fácil. Sentia os olhos de Aviendha feito um toque, mesmo quando estava de costas. Ela não tinha o direito de falar que Rand tinha um traseiro bonito. Ele não dissera nada sobre quão lindo era o dela. Aviendha só fez isso para vê-lo enrubescer. Mulheres não olhavam para homens daquele jeito. E elas não pedem permissão para as mães para…? Rand concluiu que a vida com Aviendha não se tornara nem minimamente mais fácil.
32
Uma lança curta
Houve pouca discussão. Mesmo com a nevasca ainda feroz do lado de fora, dava para voltar ao portão usando os cobertores e tapetes como mantos. Aviendha começou a dividi-los enquanto Rand agarrava saidin, preenchendo-se com a vida e a morte, o fogo derretido e o gelo líquido.
— Divida por igual — instruiu ele. Rand sabia que sua voz soara fria e sem emoção. Asmodean dissera que isso não precisava acontecer, mas, até então, não fizera progresso.
Ela lhe lançou um olhar surpreso, mas tudo o que disse foi:
— Você tem mais para cobrir que eu. — E continuou o que estava fazendo.
Não adiantaria discutir. Por experiência própria, tanto de Campo de Emond quanto com as Donzelas, Rand sabia que, quando uma mulher queria fazer algo por alguém, a única maneira de impedi-la era amarrá-la, ainda mais quando a situação envolvia algum sacrifício por parte dela. A surpresa foi Aviendha não ter respondido de modo ácido, nem ter dito nada sobre ele ser um aguacento molenga. Talvez algo além de uma lembrança boa resultasse de tudo aquilo. Não é possível que ela realmente tenha querido dizer que nunca vai acontecer de novo. Mas suspeitava que fosse exatamente o que Aviendha quisera dizer.
Rand teceu um fluxo de Fogo fino como um dedo e fatiou o gelo para delinear uma porta em uma das paredes, alargando o espaço na parte superior. Espantosamente, luz do dia brilhou através da abertura. Ele largou saidin e trocou olhares surpresos com Aviendha. Sabia que havia perdido a noção de tempo — você perdeu até a noção dos anos —, mas não podiam ter se demorando tanto assim ali. Onde quer que estivessem, a distância até Cairhien era enorme.
Forçou o bloco de gelo, que só se moveu quando Rand apoiou as costas contra a superfície, firmou os pés e empurrou com toda a sua força. Quando pensou que provavelmente seria mais fácil fazer aquilo com o Poder, o bloco enfim tombou para fora, revelando a fria e pálida luz gélida do dia. Mas não tombou por completo: parou inclinado, escorado contra a neve que se acumulara em torno da cabana. Caído de costas, com apenas parte da cabeça para fora, Rand divisou outras elevações, alguns montículos lisos cercando esparsas árvores atrofiadas que não reconhecia, outros talvez encobrindo arbustos ou pedregulhos.
Abriu a boca, mas se esqueceu do que ia dizer assim que algo varreu o ar a não mais que cinquenta pés acima dele; um vulto coriáceo e cinzento, muito maior que um cavalo, as asas estendidas batendo devagar, uma tromba protuberante à frente, pés em forma de garras e uma cauda fina de lagarto serpenteando atrás do corpo. A cabeça de Rand girou involuntariamente para acompanhar o voo daquela coisa por sobre as árvores. Havia duas pessoas montadas às suas costas. Apesar de usarem o que pareciam mantos com capuz, era óbvio que estavam rastreando o terreno abaixo. Se mais do que sua cabeça estivesse à mostra, e se não estivesse diretamente abaixo da criatura, com certeza teria sido visto.
— Deixe os cobertores aí — disse ele ao mergulhar de volta para dentro. Contou a Aviendha o que vira. — Talvez eles sejam amigáveis, talvez não, mas eu prefiro não descobrir. — De qualquer maneira, não tinha certeza de que queria conhecer pessoas que andavam naquele tipo de criatura. Se é que eram pessoas. — Vamos voltar discretamente ao portão. O mais rápido que pudermos, mas escondidos.
Incrivelmente, Aviendha não discutiu. Quando expressou sua surpresa, enquanto a ajudava a escalar o bloco de gelo — o que também era incrível, já que ela aceitou sua mão sem hesitar —, Aviendha disse:
— Eu não discuto quando o que você diz faz sentido, Rand al’Thor.
Não era bem assim, na opinião dele.
O terreno ao redor era plano, coberto de neve, mas, a oeste, erguiam-se pontudas montanhas de cume branco, os picos envoltos por nuvens. Foi fácil perceber que ficavam a oeste, porque o sol estava nascendo. Menos da metade de aro dourado se erguia do oceano. Ele observou. A terra era inclinada o suficiente para que visse ondas estourando violentamente em um litoral rochoso e polvilhado de pedras a talvez uma milha. Um oceano a leste, estendendo-se sem fim até o horizonte e o sol. Se a neve já não bastasse, aquilo também indicava que estavam em terras desconhecidas.
Aviendha admirou, maravilhada, os vagalhões que rolavam e as ondas que arrebentavam e franziu o rosto para ele quando a água atingiu a costa. Talvez nunca tivesse visto um oceano, mas já vira mapas.
Por estar de saia, Aviendha se atrapalhava com a neve ainda mais do que Rand, e ele próprio já estava chafurdando, abrindo caminho tanto escavando quanto andando, às vezes afundado até a cintura. Ela arquejou quando ele a tomou nos braços e a carregou, os olhos verdes fuzilando-o.
— Precisamos ir mais rápido do que você consegue andar, com estas saias arrastando — explicou ele.
O olhar dela se atenuou, mas Aviendha não abraçou seu pescoço, como Rand meio que esperara. Em vez disso, cruzou os braços e fez uma expressão resignada. E um pouco teimosa. Ela não havia mudado tanto assim, não importavam os efeitos daquela noite. Rand não entendeu por que isso o deixava aliviado.