Выбрать главу

Ele podia derreter um caminho na neve, como fizera durante a tempestade, mas, se outra criatura como aquela aparecesse, o caminho aberto levaria diretamente a eles. Uma raposa passou trotando pela neve bem à direita, a pelagem branca imaculada, exceto por uma ponta preta na cauda espessa, lançando olhares cautelosos ocasionais para ele e Aviendha. Rastros de coelhos marcavam a neve aqui e ali, borrados nos pontos em que os animais tinham saltado, e Rand chegou até a ver pegadas de um felino que deveria ser do tamanho de um leopardo. Talvez houvessem animais ainda maiores, talvez algum parente sem asas daquela criatura coriácea. Não era algo que ele gostaria de encontrar, mas sempre havia a chance de que os… seres voadores… entendessem os sulcos arados que ele estava deixando como o rastro de algum animal.

Rand ainda seguia de árvore em árvore, desejando que houvesse mais delas e que estivessem mais próximas. Claro que, se fosse assim, talvez não tivesse encontrado Aviendha na tempestade — ela grunhiu, franzindo o rosto para ele, e Rand afrouxou o aperto —, mas, naquela situação, certamente teria ajudado. Embora fosse justamente por estar se esgueirando que conseguiu avistar os outros primeiro.

A menos de cinquenta passadas, entre ele e o portão — colados ao portão, pelo que sentia de sua tessitura resistindo —, havia quatro pessoas a cavalo e mais de vinte a pé. As pessoas montadas eram mulheres envoltas em longos e espessos mantos revestidos de pele. Duas delas usavam um bracelete prateado no punho esquerdo, conectado por uma longa corrente feita do mesmo material cintilante a uma coleira reluzente em torno do pescoço de uma mulher vestida de cinza, sem manto, que estava de pé na neve. Os demais, todos a pé, eram homens trajando couro escuro, uma armadura pintada de dourado e verde e chapas sobrepostas descendo pelo peitoral, pelas laterais dos braços e pela parte frontal das coxas. As lanças exibiam borlas verdes e douradas, os longos escudos pintados das mesmas cores, e os elmos pareciam cabeças de imensos insetos, os rostos dos homens espiando através das mandíbulas. Um deles era claramente oficial, sem a lança ou o escudo, mas com uma espada curva de duas mãos às costas. Os contornos das chapas da armadura laqueada eram de prata, e finas plumas verdes incrementavam o elmo pintado, feito antenas. Agora Rand sabia onde ele e Aviendha estavam. Já tinha visto uma armadura como aquela. E mulheres com aquelas coleiras.

Escondendo-se atrás do que parecia um pinheiro retorcido pelo vento, exceto pelo tronco ser liso e cinza com listras pretas, Rand apontou, e Aviendha aquiesceu em silêncio.

— As duas mulheres encolaradas são capazes de canalizar — sussurrou Rand. — Você consegue blindá-las? — E acrescentou, depressa: — Não abrace a Fonte ainda. Elas são prisioneiras, mas podem alertar as demais e, mesmo que não alertem, as mulheres com os braceletes talvez consigam perceber que elas sentiram você.

Aviendha o encarou com curiosidade, mas não perdeu tempo com perguntas tolas, do tipo “como você sabe?”. Rand sabia que ela o questionaria depois.

— As mulheres com os braceletes também são capazes de canalizar — respondeu ela, também sussurrando. — Mas a sensação é bem estranha. Fraca. Como se elas nunca tivessem praticado. Não entendo como isso é possível.

Rand entendia. Eram as damane que deviam ser capazes de canalizar. Se duas mulheres, de alguma forma, tivessem escapado da peneira Seanchan e se tornado sul’dam — e, pelo pouco que sabia sobre aquele povo, isso não seria fácil, já que os Seanchan testavam todas as mulheres na idade em que começavam a apresentar sinais da canalização —, certamente jamais ousariam trair a si mesmas.

— Você consegue blindar as quatro?

Ela lhe lançou um olhar presunçoso.

— É claro. Egwene me ensinou a manejar vários fluxos ao mesmo tempo. Consigo blindá-las, amarrar esses fluxos e prendê-las com fluxos de Ar antes que elas se deem conta do que está acontecendo. — O sorrisinho confiante desapareceu. — Sou rápida o bastante para dar conta delas e dos cavalos, mas isso deixa todo o resto para você até eu conseguir trazer ajuda. Se algum deles escapar… Eles com certeza conseguem arremessar aquelas lanças até aqui, e se uma delas prender você… — Ela resmungou baixinho, como se estivesse com raiva de não conseguir completar a frase. Por fim, o encarou com um olhar de fúria que Rand jamais vira nela. — Egwene me falou sobre a Cura, mas ela sabe pouco, e eu, menos ainda.

Do que ela poderia estar com raiva? Mais fácil tentar entender o sol do que uma mulher, pensou, sarcasticamente. Thom Merrilin lhe dissera aquilo, e era uma verdade absoluta.

— Cuide daquelas mulheres. Eu cuido do resto. Mas só quando eu tocar seu braço.

Rand percebeu que Aviendha achava que ele estava sendo presunçoso, mas não precisaria dividir fluxos, só tecer um intrincado fluxo de Ar para prender os braços e as pernas dos homens, bem como as patas dos cavalos. Respirou fundo, agarrou saidin, tocou o braço dela e canalizou.

Gritos assustados irromperam entre os Seanchan. Rand também deveria ter pensado em amordaçá-los, mas cruzariam o portão antes que atraíssem outras pessoas. Agarrando-se à Fonte, segurou o braço de Aviendha e praticamente arrastou-a pela neve, ignorando enquanto ela resmungava que sabia andar. Pelo menos daquele jeito ele abria uma trilha para ela, e precisavam se apressar.

Os Seanchan se aquietaram e ficaram observando enquanto ele e Aviendha surgiam diante deles. As duas mulheres que não eram sul’dam haviam tirado o capuz e lutavam contra a tessitura. Em vez de amarrar o fluxo, ele ficou segurando. De qualquer forma, precisaria soltá-lo quando fosse embora, porque não deixaria nem mesmo os Seanchan amarrados na neve. Se não morressem congelados, havia o grande felino cujas pegadas avistara. Onde havia um, devia haver mais.

O portão estava lá, mas, em vez de dar para o quarto dele em Eianrod, dava para um vazio cinza. Também parecia mais estreito do que ele se recordava. Pior, Rand enxergava a tessitura daquele cinza. Fora tecida com saidin. Um pensamento furioso deslizou pelo Vazio. Não sabia qual era a finalidade daquilo, mas podia muito bem ser uma armadilha para qualquer pessoa que atravessasse, urdida por um dos Abandonados. O mais provável era que tivesse sido Asmodean. Entregando-o aos outros Abandonados, o homem talvez pudesse recuperar seu lugar entre eles. Ainda assim, ficar ali estava fora de questão. Se Aviendha ao menos se lembrasse de como havia urdido o portão, poderia abrir outro, mas agora teriam de usar aquele mesmo, armadilha ou não.

Uma das mulheres a cavalo, com a frente do manto exibindo um corvo negro diante de uma torre simples, tinha um rosto severo e olhos escuros que pareciam querer perfurar o crânio de Rand. A outra, mais jovem, mais pálida e mais baixa, ainda que mais majestosa, trajava um manto verde ostentando a cabeça de um veado prateado. Os dedos mínimos das luvas de cavalgada eram compridos demais. Por causa das laterais raspadas da cabeça da mulher, Rand sabia que aqueles longos dedos encobriam unhas compridas e pintadas, sinais de nobreza Seanchan. Os soldados tinham rostos sérios e costas eretas, mas os olhos azuis do oficial cintilavam por detrás da mandíbula do elmo com aparência de inseto, e os dedos enluvados se retorciam enquanto ele se esforçava, em vão, para alcançar a espada.

Rand não se importava muito com eles, mas não queria deixar as damane para trás. Podia ao menos lhes dar uma chance de fugir. Mesmo que as mulheres o encarassem como encarariam um animal selvagem com os caninos à mostra, elas não haviam escolhido ser prisioneiras, tratadas apenas um pouco melhor do que animais domésticos. Tocou a coleira da que estava mais próxima e sentiu um choque que quase entorpeceu seu braço. Por um instante, o Vazio se modificou e saidin lhe atravessou violentamente o corpo, mil vezes mais forte que a tempestade de neve. O cabelo loiro curto da damane se agitou quando a mulher tremeu e gritou ao toque dele, e a sul’dam conectada a ela arquejou, o rosto empalidecendo. Se não estivessem presas a fluxos de Ar, ambas teriam caído.