A clareira onde eles — ou Thom, ao menos, e que ele e Luca se queimassem! — tinham andado praticando não ficava longe do acampamento montado ao lado da estrada para o norte. Estava claro que Luca não queria perturbar os animais, caso Thom atravessasse o coração dela com alguma de suas facas. Era provável que o homem usasse o cadáver de Nynaeve para alimentar os leões. A única razão para ele querer que ela trajasse aquele vestido era poder cobiçar o que ela não tinha a intenção de mostrar a ninguém, exceto Lan, e que este também queimasse por ser tão tolo e teimoso. Queria que Lan estivesse ali para que pudesse dizer isso na cara dele. Queria que Lan estivesse ali para ter certeza de que ele estava em segurança. Nynaeve arrancou uma macela morta e usou o talo marrom e macio como um chicote para decepar as pontas das ervas daninhas que surgiam entre as folhas caídas no chão.
Na noite anterior, segundo Elayne, Egwene relatara conflitos em Cairhien, escaramuças com bandidos, com cairhienos que viam qualquer Aiel como inimigo, e com soldados andorianos que tentavam tomar o Trono do Sol para Morgase. Lan estivera envolvido. Sempre que Moiraine o deixava ficar longe de seus olhos, o homem parecia dar um jeito de participar de conflitos, como se fosse capaz de pressentir onde eles irromperiam. Nynaeve nunca pensara que fosse desejar que aquela Aes Sedai mantivesse Lan em rédea curta ao lado dela.
Naquela manhã, Elayne ainda estava incomodada com o fato de os soldados da mãe estarem em Cairhien lutando contra os Aiel de Rand, mas o que preocupava Nynaeve eram os bandidos. De acordo com Egwene, se alguém identificasse bens roubados na posse de um bandido ou se jurasse tê-lo visto matar uma pessoa ou incendiar sequer um celeiro, Rand o mandava para a forca. Ele não pendurava a corda, mas dava no mesmo, e Egwene tinha dito que ele assistia a cada execução com o rosto tão frio e duro quanto as montanhas. Aquilo não era do feitio dele. Rand fora um garoto gentil. Qualquer mudança sofrida no Deserto havia sido para bem pior.
Mas Rand estava muito longe, e os problemas dela — dela e de Elayne — não estavam nem perto de serem resolvidos. O rio Eldar ficava a menos de uma milha ao norte, atravessado por uma única ponte de pedra alta, erigida entre compridos pilares de metal que cintilavam sem o menor sinal de ferrugem. Remanescentes de tempos antigos, decerto, talvez até de outra Era. Ela subira na ponte no meio do dia, assim que eles chegaram, mas não havia nenhum barco no rio que merecesse a denominação. Barcos a remo, pequenas embarcações pesqueiras trabalhando ao longo das margens com suas fileiras de juncos, algumas coisinhas estreitas e estranhas que zanzavam pela água, propulsionadas por homens ajoelhados que usavam remos, e até uma barcaça atarracada que parecia presa à lama — parecia haver muita lama nas duas margens, uma parte já dura, seca e rachada, ainda que isso não fosse surpresa, por conta do calor que teimava em se manter, mesmo tão fora de época —, mas nada que pudesse transportá-los depressa rio abaixo, como Nynaeve desejava. Não que ela soubesse para onde a embarcação deveria levá-los.
Mesmo forçando o cérebro ao máximo, não se lembrava do nome da cidadezinha onde as irmãs Azuis supostamente estavam. Golpeou com violência um dente-de-leão, que se desfez em pluminhas brancas que flutuaram até o solo. Provavelmente não estariam mais lá, de qualquer modo, se é que chegaram a estar. Mas era a única pista que tinham de um lugar seguro, além de Tear. Se ao menos conseguisse lembrar…
A única parte boa de toda a jornada para o norte foi que Elayne parara de flertar com Thom. Não acontecera mais desde que se juntaram à trupe. Mas teria sido bom se Elayne não tivesse decidido fingir que nada acontecera. No dia anterior, Nynaeve parabenizara a garota por ter recuperado o juízo, no que Elayne retrucara, muito calma: Está tentando descobrir se eu vou me meter entre você e Thom, Nynaeve? Ele é bem velho para você, e eu achei que já estivesse interessada em outro, mas você já tem idade suficiente para tomar as próprias decisões. Eu gosto de Thom, e acho que ele gosta de mim. Eu o vejo como um segundo pai. Se quiser flertar com ele, tem minha permissão. Mas realmente pensei que você fosse menos volúvel.
Luca pretendia cruzar o rio pela manhã, e Samara, a cidadezinha na margem oposta, em Ghealdan, não era um bom lugar para ficar. Ele passara a maior parte do dia por lá, desde que haviam chegado, assegurando um local para montar o espetáculo. Sua única preocupação era que várias outras trupes haviam chegado ali primeiro, e a dele não era a única que tinha mais do que animais. Por isso estava tão insistente a respeito do “número” de Thom e Nynaeve com as facas. Teve sorte de Luca não querer que aquilo fosse feito lá nas alturas, junto com Elayne. O homem parecia achar que a coisa mais importante do mundo era que seu espetáculo fosse maior e melhor que qualquer outro. Para ela, a questão preocupante era que o Profeta estava em Samara, seus seguidores atulhando a cidade e se esparramando em tendas, cabanas e choupanas por todo o entorno, formando outra cidade que sobrepujava o tamanho nada desprezível da própria Samara — a cidade possuía uma muralha alta de pedra, e a maioria das edificações também era de seixos, muitas com três andares, e havia mais telhados de ardósia e telha do que de palha.
Aquela margem do Eldar não era melhor. Durante a viagem, tinham passado por três acampamentos de Mantos-brancos, centenas de tendas brancas em fileiras organizadas, e devia haver muitas mais que não avistaram. Mantos-brancos naquela margem do rio, o Profeta e talvez algum tumulto esperando para irromper na outra, e ela não fazia ideia de para onde ir e nem de como chegar lá, a não ser em um pesado carroção que se movia mais devagar do que ela caminhava. Nynaeve queria nunca ter deixado Elayne convencê-la a abandonar a carruagem. Sem enxergar nenhuma outra erva para ser arrancada ao alcance, partiu a macela ao meio, então de novo, até os pedaços ficarem menores que sua mão, e os jogou no chão. Desejou poder fazer o mesmo com Luca. E com Galad Damodred, por obriga-los a fugir. E com al’Lan Mandragoran, por não estar ali. Não que precisasse dele, claro. Mas sua presença teria sido… reconfortante.
O acampamento estava calmo, as refeições noturnas sendo preparadas em pequenas fogueiras ao lado dos carroções. Petra alimentava o leão de juba negra, jogando enormes pedaços de carne com uma vara por entre as barras. As leoas já estavam aninhadas amigavelmente umas às outras, deixando escapar um rosnado ocasional caso alguém se aproximasse demais da jaula. Nynaeve parou perto do carroção de Aludra. A Iluminadora estava trabalhando com um pilão e um almofariz de madeira em uma mesa que saía da lateral de seu carroção, resmungando sozinha acerca de qualquer que fosse a mistura que estivesse fazendo. Três dos Chavanas lançaram sorrisos sedutores para Nynaeve, convidando-a para se juntar a eles. Não Brugh, que ainda parecia irritado com o lábio, apesar de ela ter lhe dado um unguento para diminuir o inchaço. Se batesse com a mesma força nos outros irmãos, talvez eles dessem ouvidos a Luca — e, mais importante, a ela! — e percebessem que Nynaeve não queria seus sorrisos. Que pena que Mestre Valan Luca não obedecia às próprias instruções. Latelle se virou da jaula do urso e sorriu timidamente para ela. Foi mais um sorrisinho afetado, na verdade. Mas Nynaeve observava principalmente Cerandin, serrando as grosseiras unhas da pata de um dos imensos s’redit cinzas utilizando o que parecia ser uma ferramenta mais apropriada para metais.
— Aquela ali — disse Aludra — usa as mãos e os pés com uma habilidade notável, não? Não me olhe assim, Nana — acrescentou, esfregando as mãos. — Não sou sua inimiga. Tome. Você tem que experimentar estes novos malabares de fogo.
Nynaeve apanhou cautelosamente a caixa de madeira da mulher de cabelos escuros. Era um cubo que ela poderia ter manuseado facilmente só com uma das mãos, mas usou as duas.