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Eles não comeram a sós, claro. Luca tratou disso ao trazer o próprio banquinho e posicioná-lo bem ao lado do de Nynaeve, a capa vermelha esparramada para causar o melhor efeito possível, e as pernas compridas esticadas para que as panturrilhas ficassem à mostra, logo acima das botas. O homem aparecia quase toda noite. Estranhamente, só não ia quando Nynaeve cozinhava.

Era até interessante atrair os olhos dele quando havia uma mulher tão bonita quanto Elayne por perto, mas Luca tinha lá seus motivos. Ele se sentava grudado nela — naquela noite, Nynaeve afastou o próprio banco três vezes, mas ele a acompanhou prontamente, como se nem percebesse — e se alternava entre compará-la a várias flores, que sempre saíam perdendo, ignorando o olho roxo que só um cego não veria, e divagar a respeito de como Nynaeve ficaria bonita naquele vestido vermelho, com elogios à sua coragem como adendo. Por duas vezes, deixou escapar sugestões de que fossem caminhar ao luar, convites tão velados que ela não tinha certeza do que eram, até parar para pensar.

— Aquele vestido vai ser a moldura perfeita para a sua coragem — murmurou ele no ouvido dela —, ainda que você a exiba com quatro vezes mais beleza, já que até os lírios-dara chorariam de inveja ao vê-la caminhar às margens da água iluminada pelo luar, assim como eu choraria e me tornaria um bardo, só para lhe cantar elogios sob esta mesmíssima lua.

Ela apenas piscou, tentando assimilar aquilo tudo. Luca pareceu considerar que fosse um flerte. Nynaeve acotovelou sem querer suas costelas antes que ele conseguisse lhe mordiscar a orelha. Ao menos pareceu ser essa a intenção, ainda que ele tenha começado a tossir logo depois, afirmando que se engasgara com farelo de bolo. O homem com certeza era bonito — Pare com isso! — e de fato possuía panturrilhas bem torneadas — O que você está fazendo, olhando para as pernas dele? —, mas deveria achar que ela era uma desmiolada. Tudo para ajudar a melhorar seu maldito espetáculo.

Nynaeve tornou a afastar o banco enquanto ele tentava recuperar o fôlego. Não podia se afastar muito sem deixar claro que estava fugindo, embora estivesse com o garfo a postos para o caso de Luca voltar a segui-la. Thom examinou o prato como se ainda restasse mais do que apenas molho na louça branca. Juilin assobiava desafinado, bem baixinho, espiando com falso interesse o fogo que se apagava. Elayne olhou para ela e balançou a cabeça.

— Foi muito simpático da sua parte ter se juntado a nós — disse Nynaeve, levantando-se. Luca se levantou com ela, os olhos cheios de esperança brilhando à luz do fogo. Ela pôs seu prato em cima do que estava na mão dele. — Thom e Juilin vão ficar agradecidos por sua ajuda com os pratos, tenho certeza. — Antes que a boca do homem terminasse de se abrir, Nynaeve se virou para Elayne. — Já está tarde, e imagino que vamos cruzar o rio bem cedo.

— Claro — murmurou Elayne, com a sombra de um sorriso. A garota também deixou o prato com Luca antes de acompanhá-la para dentro do carroção. Nynaeve quis abraçá-la. Até que a garota disse: — Você não deveria dar corda para ele. — Lamparinas presas em suportes de parede se acenderam.

Nynaeve plantou as mãos na cintura.

Dar corda?! O único jeito de dar menos corda seria enfiando uma faca naquele homem! — Ela bufou para enfatizar e olhou feio para as lamparinas. — Na próxima vez, use um dos malabares de fogo de Aludra. Os bastões. Algum dia você vai acabar se esquecendo e canalizando onde não deveria, e aí o que vamos fazer? Fugir da morte com cem Mantos-brancos atrás de nós.

Teimosa como era, Elayne não aceitou a mudança de assunto.

— Posso ser mais nova, mas, às vezes, acho que entendo mais de homens do que você jamais vai entender. Para alguém como Valan Luca, esse seu jeito de sair correndo, hoje à noite, foi como um pedido para ele continuar a perseguição. Se você quebrasse o nariz dele, como fez no primeiro dia, talvez Luca desistisse. Você não o manda parar, nem pede! Fica sorrindo para ele, Nynaeve. Quer que o homem pense o quê? Fazia dias que você não sorria para ninguém!

— Estou tentando controlar meu temperamento — resmungou Nynaeve. Todos reclamavam do gênio dela, e agora que estava tentando controlá-lo, Elayne achava ruim! Não era tola a ponto de se deixar levar pelos elogios de Luca. Claro que não era tão idiota. Elayne gargalhou, e Nynaeve franziu o cenho.

— Ah, Nynaeve, “não se pode impedir o sol de nascer”. É o que Lini diria.

Nynaeve se esforçou para abrandar a expressão. Também controlou seu gênio. Não acabei de provar isso lá fora? Ela estendeu a mão.

— Me dê o anel. Ele vai querer cruzar o rio amanhã cedo, e quero pelo menos dormir de verdade depois que eu terminar.

— Pensei que eu iria hoje à noite. — Havia preocupação na voz de Elayne. — Nynaeve, você tem ido a Tel’aran’rhiod praticamente todas as noites, exceto nos encontros com Egwene. Aquela Bair tem uma questão para discutir com você, aliás. Precisei contar a elas por que você não foi, da outra vez, e ela afirma que você não deveria estar precisando de descanso, não importa o quanto visite o Mundo dos Sonhos, a menos que esteja fazendo algo errado. — A preocupação se transformou em firmeza, e foi a vez dela de plantar as mãos na cintura. — Tive que ouvir uma reprimenda que era para você, e não foi nada agradável, com Egwene lá parada concordando com cada palavra. Então, eu realmente acho que hoje à noite eu deveria…

— Por favor, Elayne. — Nynaeve não recolheu a mão. — Tenho perguntas para Birgitte, e as respostas podem me fazer ter mais perguntas. — Era verdade, em parte. Ela sempre tinha perguntas para Birgitte. Não tinha nada a ver com evitar Egwene ou as Sábias. Se visitava Tel’aran’rhiod com tanta frequência que Elayne sempre acabava indo para os encontros com Egwene, era simplesmente porque calhava de ser assim.

Elayne suspirou, mas pescou o anel de pedra retorcida de dentro da gola do vestido.

— Peça a ela de novo, Nynaeve. É muito difícil encarar Egwene com esse segredo. Ela viu Birgitte. Não diz nada, mas fica me olhando. Quando nos encontramos de novo, depois de as Sábias irem embora, é ainda pior. Ela pode perguntar, nessas ocasiões, mas não pergunta, o que piora tudo. — Ela franziu a testa enquanto Nynaeve transferia o pequeno ter’angreal para o cordão de couro em torno do próprio pescoço, junto com o pesado anel de Lan e o da Grande Serpente. — Por que você acha que nenhuma das Sábias volta com ela? Não descobrimos muita coisa no gabinete de Elaida, mas é de se imaginar que as Sábias fossem ao menos querer ver a Torre. Egwene não quer nem tocar no assunto na presença delas. Se eu chego perto desse tema, ela me olha de um jeito que parece que quer me bater.

— Acho que elas querem evitar a Torre o máximo possível. — E elas eram mesmo sábias em fazer isso. Se não fosse pela Cura, ela mesma evitaria a Torre, e até as Aes Sedai. Não estava treinando para ser uma Aes Sedai. Só esperava aprender mais sobre a Cura. E ajudar Rand, claro. — Elas são mulheres livres, Elayne. Mesmo que a Torre não estivesse a confusão que está, não iam querer Aes Sedai passeando pelo Deserto, recolhendo garotas para levar a Tar Valon.

— Suponho que seja isso. — O tom de voz de Elayne, no entanto, indicava que não entendia. Ela achava a Torre incrível e não via por que alguma mulher iria querer fugir das Aes Sedai. Presa para sempre à Torre Branca, diziam elas, ao colocar aquele anel no dedo de alguém. E falavam sério. Ainda assim, aquela tola não via o ônus disso.