Elayne a ajudou a se despir, e Nynaeve se deitou na cama estreita só de camisola, já bocejando. O dia fora longo, e era surpreendente como podia ser cansativo ficar parada com alguém que não enxergava arremessando facas nela. Fechou os olhos, pensamentos soltos passeando por sua mente. Elayne afirmara que estava só praticando quando bancara a boba com Thom. Não que “o pai afetuoso e a filhinha favorita” que bancavam agora fosse algo menos bobo. Talvez ela também pudesse praticar só um pouquinho com Valan. Ora, isso sim era uma tolice. Os olhos dos homens podiam até passear — melhor que os de Lan não o fizessem! —, mas ela sabia ser fiel. Não usaria aquele vestido. O decote era grande demais.
— Lembre-se de pedir a ela de novo. — Escutou Elayne dizer, ao longe.
O sono a envolveu.
Nynaeve estava no lado de fora do carroção, à noite. A lua estava alta, e nuvens lançavam sombras sobre o acampamento. Grilos cricrilavam, e pássaros noturnos cantavam. Os olhos dos leões brilhavam ao encará-la de dentro das jaulas. Os ursos de cara branca eram montanhas escuras dormindo por trás de barras de ferro. A corda para amarrar os cavalos estava vazia, os cães de Clarine não estavam nas correias ao lado do carroção que dividia com Petra, e a área onde os s’redit ficavam, no mundo desperto, estava vazia. Ela chegara à conclusão de que apenas animais selvagens tinham reflexos ali, mas, independentemente do que a Seanchan afirmasse, era difícil acreditar que aqueles imensos animais cinzentos haviam sido tão domesticados que já não eram mais selvagens.
De repente, Nynaeve percebeu que estava usando o vestido. De um vermelho abrasador, justo demais nos quadris para ser chamado de decente e com um decote quadrado tão acentuado que seu busto parecia prestes a escapar. Não imaginava mulher alguma usando-o, exceto Berelain. Para Lan, talvez ela usasse. Se estivessem sozinhos. Estivera pensando em Lan ao adormecer. Estava, não estava?
De qualquer modo, não ia deixar Birgitte vê-la com aquele troço. A mulher dizia ser um soldado, e, quanto mais tempo Nynaeve passava com ela, mais percebia que algumas de suas atitudes — e comentários — eram tão ruins quanto as de qualquer homem. Piores. Uma mistura de Berelain com um brigão de taverna. Os comentários não eram frequentes, mas sempre surgiam quando Nynaeve permitia que pensamentos aleatórios criassem qualquer coisa como aquele vestido. Ela o trocou por uma boa e espessa lã escura de Dois Rios, com um xale simples que nem era necessário, o cabelo de novo em uma trança decente, e abriu a boca para chamar Birgitte.
— Por que você se trocou? — perguntou a mulher, saindo das sombras e apoiando-se no arco de prata. A intricada trança dourada pendia sobre o ombro, e o luar reluzia em seu arco e suas flechas. — Lembro de ter usado um vestido muito parecido com esse, certa vez. Foi só para chamar atenção para que Gaidal pudesse passar despercebido, mas os olhos dos guardas se esbugalharam feito olhos de sapos, e foi divertido. Principalmente quando eu usei para dançar com Gaidal, depois. Ele sempre odeia dançar, mas estava tão decidido a não deixar que nenhum outro homem se aproximasse que dançou comigo todas as músicas. — Birgitte soltou uma gargalhada gostosa. — Ganhei cinquenta moedas de ouro dele naquela noite, porque ele me olhava tanto que nem prestava atenção nas cartas. Os homens são estranhos. Não era como se ele nunca tivesse me visto…
— Já entendi — cortou Nynaeve, incomodada, enrolando o xale com firmeza em torno dos ombros.
Antes que pudesse acrescentar uma pergunta, Birgitte disse:
— Eu a encontrei. — E toda a ideia de fazer a pergunta se dissipou.
— Onde? Ela viu você? Pode me levar até ela? Sem ela ver? — Seu estômago se contraía de medo, e Valan Luca diria um bocado sobre sua coragem, se pudesse vê-la naquele momento, mas ela tinha certeza de que o medo viraria raiva assim que visse Moghedien. — Se puder me levar mais… — Sua voz morreu assim que Birgitte levantou a mão.
— Não acho que ela tenha me visto, ou duvido que eu estaria aqui agora. — Ela soou muito séria. Nynaeve achava mais fácil conviver com essa faceta da personalidade de soldado. — Posso levá-la até lá por um momento, caso você queira ir, mas ela não está sozinha. Ao menos… Você vai ver. Precisa ficar em silêncio e não deve fazer nada contra Moghedien. Há outros Abandonados. Pode até ser que você consiga destruí-la, mas conseguiria derrotar cinco de uma vez?
As palpitações no estômago de Nynaeve se espalharam para o peito. E para os joelhos. Cinco. Ela deveria só perguntar o que Birgitte vira ou escutara e deixar por isso mesmo. Então poderia voltar para a cama e… Mas Birgitte a estava encarando. Não estava questionando sua coragem, apenas observava. Pronta para ir em frente, caso ela pedisse.
— Vou ficar calada. E nem vou pensar em canalizar. — Não com cinco Abandonados juntos. Não que ela fosse capaz de canalizar sequer uma centelha naquele momento. Enrijeceu os joelhos para evitar que batessem um no outro. — Ao seu sinal.
Birgitte ergueu o arco e pôs a mão em seu braço…
… e Nynaeve perdeu o fôlego. Estavam no meio do nada, uma escuridão infinita envolvendo-as. Não havia cima ou baixo, seria uma queda infinita em qualquer direção. Tonta, ela se obrigou a olhar para onde Birgitte apontava.
Abaixo delas, Moghedien também estava na escuridão, trajando algo tão negro quanto tudo ao redor, curvada, ouvindo com atenção. Mais abaixo, à mesma distância, quatro enormes cadeiras com encostos altos, todas diferentes, repousavam em um piso de ladrilhos brancos e cintilantes que flutuava na escuridão. Estranhamente, Nynaeve conseguia escutar o que as pessoas nas cadeiras diziam, como se estivesse em meio a elas.
— … nunca foi covarde — afirmava uma mulher bela e robusta, de cabelos loiros —, então por que começar agora? — Vestida com o que parecia ser uma bruma cinza-prateada e pedras preciosas, estava refestelada em uma cadeira de marfim entalhada no formato de acrobatas nus. Quatro homens esculpidos seguravam o assento, e os braços dela descansavam sobre as costas de mulheres ajoelhadas. Dois homens e duas mulheres apoiavam uma almofada de seda branca atrás de sua cabeça enquanto, acima, outros mais se contorciam em formas que Nynaeve não acreditava que o corpo humano pudesse assumir. Ela ruborizou ao perceber que alguns estavam protagonizando mais do que meros números de acrobacia.
Um homem atarracado, de altura mediana, com uma cicatriz cortando o rosto e uma barba dourada e quadrada, se inclinou para a frente, parecendo furioso. Sua cadeira de madeira pesada era entalhada com fileiras de homens em armaduras e cavalos, além de um punho calçado com luva de aço segurando um raio, no topo do encosto. O casaco vermelho compensava a simplicidade da cadeira, pois fios de outro derramavam-se pelos ombros e braços.
— Ninguém me chama de covarde — advertiu ele, com severidade. — Mas, se continuarmos como estamos, ele virá direto no meu pescoço.
— O plano foi esse desde o início — respondeu uma melodiosa voz feminina. Nynaeve não via de quem era, com a dona escondida por trás do imenso encosto de uma cadeira que parecia ser toda de prata e de uma pedra branca como a neve.
O segundo homem era grande, de uma beleza sombria, com mechas brancas nas têmporas. Brincava com um ornamentado cálice dourado e estava reclinado em um trono. Era a única descrição possível para aquele assento incrustado de pedras preciosas. Discretos vestígios dourados apareciam aqui e ali, mas Nynaeve não duvidava de que houvesse ouro maciço por baixo de todo aquele cintilar de rubis, esmeraldas e pedras-da-lua. Era de tamanho monumental e parecia pesado.
— Ele vai se concentrar em você — afirmou o homenzarrão, com uma voz profunda. — Se for necessário, mataremos alguém próximo a ele, deixando claro que o ataque veio de você. E ele vai atrás de você. E, enquanto estiver concentrado nessa perseguição, nós três vamos nos unir para pegá-lo. Aconteceu alguma coisa para mudar o plano?