— Não mudou nada — grunhiu o homem com a cicatriz. — Principalmente, não mudou minha confiança em vocês. Eu vou fazer parte da união, ou o plano acaba aqui.
A mulher de cabelos dourados jogou a cabeça para trás e gargalhou.
— Pobre homem — zombou ela, balançando a mão cheia de anéis. — Você acha que ele não perceberia que você está unido? Ele tem um professor, lembre-se. Ruim, mas não um completo idiota. Daqui a pouco você vai pedir para incluirmos um bocado daquelas crianças da Ajah Negra para fazer o círculo passar de treze pessoas, de modo que você ou Rahvin tenham o controle.
— Se Rahvin confia o bastante na gente para se unir permitindo que uma de nós duas esteja no controle — ponderou a voz melodiosa —, você pode demonstrar a mesma confiança.
O homenzarrão encarava o cálice, e a mulher envolta em brumas abriu um ligeiro sorriso.
— Se não confia que não vamos atacá-lo — prosseguiu a mulher fora de vista —, então confie no fato de que estaremos nos vigiando de perto demais para atacar. Você concordou com tudo isso, Sammael. Por que está começando a criar caso?
Nynaeve se sobressaltou quando Birgitte tocou seu braço…
… e as duas estavam de volta em meio aos carroções, com a lua brilhando por entre as nuvens. Parecia quase normal, em comparação com onde haviam estado.
— Por quê…? — começou Nynaeve, e engoliu em seco. — Por que você nos trouxe de volta? — Seu coração pulou para a garganta. — Moghedien nos viu?
Ficara tão atenta aos outros Abandonados, em quanto eram peculiares e comuns ao mesmo tempo, que se esquecera de ficar de olho em Moghedien. Soltou um suspiro aliviado quando Birgitte balançou a cabeça.
— Não tirei os olhos dela em momento algum, e ela não moveu nem um músculo. Mas não gosto de ficar tão exposta. Se ela ou qualquer um dos outros tivesse olhado para cima…
Nynaeve enrolou o xale bem apertado em torno dos ombros, mas ainda assim estremeceu.
— Rahvin e Sammael. — Queria que sua voz não estivesse tão rouca. — Você reconheceu os outros? — Claro que Birgitte reconhecera. Era estranho dizer, mas ela parecia abalada.
— A que estava encoberta pela cadeira era Lanfear. A outra era Graendal. Não pense que ela é uma tola só porque estava sentada em uma cadeira que faria uma arrumadeira Senje enrubescer. Ela é dissimulada e usa seus bichinhos em ritos que fariam até o soldado mais rude que já conheci jurar celibato.
— Graendal é dissimulada — ecoou a voz de Moghedien —, mas não o bastante.
Birgitte girou, o arco de prata se erguendo e uma flecha prateada quase sendo atirada — então, abruptamente, foi lançada a trinta passadas de distância em meio ao luar, chocando-se com tanta força contra o carroção de Nynaeve que ricocheteou de volta cinco passadas e ficou caída, inerte.
Desesperada, Nynaeve tentou agarrar saidar. O medo perpassava sua raiva, mas havia raiva suficiente. Então colidiu com uma parede invisível entre ela e o brilho quente da Fonte Verdadeira. Quase uivou. Alguma coisa agarrou seus pés, arrastando-os para trás e para cima, tirando-os do chão. As mãos voaram para o alto e para trás até os pulsos encontrarem os tornozelos, acima da cabeça. As roupas se transformaram em um pó que deslizou por sua pele, e a trança puxou sua cabeça para trás até os cabelos baterem nas nádegas. Nynaeve tentou freneticamente sair do sonho. Nada aconteceu. Permaneceu pendurada no ar, contorcida feito um animal em uma teia, cada músculo tensionado até o limite. Tremores lhe atravessavam o corpo. Os dedos se contraíam debilmente, roçando seus pés. Pensou que, se tentasse mover qualquer outra parte do corpo, sua coluna quebraria.
Estranhamente, seu medo sumiu, agora que era tarde demais. Tinha certeza de que poderia ter sido rápida o bastante, não fosse o terror que a paralisara quando precisou agir. Tudo o que Nynaeve queria era uma chance de pôr as mãos no pescoço de Moghedien. Grande vantagem isso me dá agora! Cada respiração era fruto de um arfar tenso.
Moghedien se moveu para um ponto onde Nynaeve conseguia vê-la, entre o triângulo trêmulo formado por seus braços. O brilho de saidar circundava a mulher zombeteiramente.
— Um detalhe da cadeira de Graendal — disse a Abandonada. Seu vestido era feito de bruma, como o de Graendal, passando da neblina escura para algo quase transparente, depois voltando a brilhar como prata. O tecido mudava praticamente o tempo todo. Nynaeve já a vira usando-o antes, em Tanchico. — Não é algo em que eu teria pensado sozinha, mas Graendal pode ter… boas ideias. — Nynaeve a fuzilou com os olhos, mas Moghedien pareceu não perceber. — Não acredito que você realmente veio me caçar. Pensou mesmo que, por ter tido a sorte de me pegar desprevenida uma vez, é páreo para mim? — A risada da mulher foi cortante. — Se soubesse o trabalho que tive tentando encontrá-la… E aí você veio até mim. — Ela olhou para os carroções, examinando os leões e ursos por um instante, até voltar a encarar Nynaeve. — Um conjunto itinerante? Ficaria bem fácil encontrar você. Se eu ainda precisasse, não é?
— Faça o pior que puder, que a Luz a queime! — rosnou Nynaeve, da melhor forma que pôde.
Curvada como estava, precisava forçar as palavras uma a uma. Não ousava olhar diretamente para Birgitte — não que fosse conseguir virar a cabeça o bastante para isso —, mas revirando os olhos como estava, oscilando entre a fúria e o medo, teve um vislumbre. Seu estômago ficou oco, mesmo esticado feito pele de ovelha secando. Birgitte estava caída no chão, as flechas de prata se derramando da aljava à cintura, o arco a uma braça da mão inerte.
— Você acha que eu venci da outra vez por sorte? Se não tivesse me pegado de surpresa, eu teria lhe dado uma surra até ver você gemendo. Teria torcido o seu pescoço como se fosse uma galinha. — Se Birgitte estivesse morta, ela só tinha uma chance, e sombria: deixar Moghedien com tanta raiva que, em um rompante, a mulher a matasse rápido. Se ao menos houvesse algum jeito de alertar Elayne… Sua morte teria de ser o bastante. — Lembra que você disse que me usaria como banquinho de montaria? E depois, quando eu disse que faria o mesmo com você? Isso foi quando eu já tinha vencido. Quando você estava choramingando e suplicando pela sua vida. Me oferecendo qualquer coisa. Você é uma covarde! Um excremento de bacurau! Seu monte de…! — Alguma coisa espessa rastejou até a boca de Nynaeve, achatando sua língua e forçando suas mandíbulas.
— Você é tão simplória — murmurou Moghedien. — Acredite, eu já estou com raiva suficiente de você. Não acho que eu vá usá-la como banquinho de montaria. — O sorriso da Abandonada fez a pele de Nynaeve se arrepiar. — Acho que vou transformar você em um cavalo. Aqui, isso é bem possível. Um cavalo, um rato, um sapo… — Ela fez uma pausa, escutando. — … um grilo. E, toda vez que você vier a Tel’aran’rhiod, vai ser um cavalo, até que eu decida mudar. Ou alguma outra pessoa que saiba como fazer isso. — Ela fez outra pausa, parecendo quase complacente. — Não, não quero lhe dar falsas esperanças. Restam apenas nove pessoas capazes de fazer essa tessitura, e você não vai querer estar na mão de qualquer um dos outros. Você vai ser um cavalo toda vez que eu a trouxer aqui. Vai ter a própria sela e a própria rédea. Vou até fazer uma trança na sua crina. — Nynaeve sentiu um puxão na trança que quase a escalpelou. — Claro que, mesmo assim, você ainda vai se lembrar de quem é. Acho que vou gostar da montaria, embora você talvez não goste. — Moghedien respirou fundo, e seu vestido escureceu até parecer reluzir naquela luz tênue. Nynaeve não tinha certeza, mas achava que talvez fosse da cor de sangue vivo. — Você me deixa igual a Semirhage. Vai ser bom me livrar de você para que eu possa concentrar toda a minha atenção em questões relevantes. A sirigaitazinha de cabelo amarelo está com você nesse conjunto?