Por um instante, Liandrin estremeceu, os olhos de Moghedien preenchendo sua visão assim como a voz da mulher preenchia seus ouvidos e toda sua cabeça.
— Viver. — O instante passou, e o suor escorria do rosto de Liandrin enquanto a Escolhida sorria para ela. — A Compulsão tem muitos limites, mas comandar que alguém faça o que quer fazer, em seu âmago mais profundo, é algo que dura por toda uma vida. Você vai viver, por mais que pense desejar tirar a própria vida. E você vai pensar nisso. Vai passar muitas noites chorando, desejando a própria morte.
O fluxo que prendia a língua de Liandrin desapareceu, e ela mal fez uma pausa para engolir.
— Por favor, Grande Senhora, eu juro que não queria… — Sua cabeça zuniu, e pontos negros e prateados dançaram diante de seus olhos com o tapa desferido por Moghedien.
— Existem… atrativos… em fazer as coisas fisicamente — sussurrou a mulher. — Quer implorar mais?
— Por favor, Grande Senhora… — O segundo tapa fez seu cabelo balançar.
— Mais?
— Por favor… — Um terceiro tapa quase lhe desarticulou a mandíbula. A bochecha ardia.
— Se não consegue ser mais inventiva que isso, não vou nem dar ouvidos. É você quem vai me ouvir. Acho que meus planos para você deliciariam até a própria Semirhage. — O sorriso de Moghedien foi quase tão sombrio quanto o de Temaile. — Você vai viver, não estancada, mas sabendo que poderia voltar a canalizar, se encontrasse alguém para retirar a blindagem. Mas isso é só o começo. Evon ficará contente com uma nova serviçal, e tenho certeza de que aquela Arene vai querer ter longas conversas com você sobre o marido. Ora, eles vão desfrutar tanto da sua companhia que eu duvido que você chegue a sair desta casa durante os próximos anos. Longos anos para você ficar desejando que tivesse me servido fielmente.
Liandrin balançou a cabeça, articulando “não” e “por favor” com os lábios. Estava chorando demais para obrigar as palavras a saírem.
Moghedien se virou para Temaile.
— Prepare-a para eles. E diga que não é para a matarem ou mutilarem. Quero que ela sempre acredite que talvez consiga fugir. Qualquer esperança fútil a manterá viva para sofrer. — Ela se soltou do braço de Chesmal, e os fluxos que prendiam Liandrin à parede sumiram.
Suas pernas cederam feito palha, fazendo-a se contorcer no carpete. Só a blindagem permanecia. Liandrin investia contra ela, em vão, enquanto rastejava atrás de Moghedien, tentando agarrar a barra da camisola da mulher e soluçando:
— Por favor, Grande Senhora.
— Elas estão acompanhando um conjunto itinerante — informou Moghedien a Chesmal. — Você procurou tanto, e eu é que tive que encontrá-las. Um conjunto itinerante não deve ser muito difícil de localizar.
— Vou servir fielmente — choramingou Liandrin. O medo transformava seus membros em água. Não conseguia rastejar rápido o bastante para alcançá-la. As mulheres nem se viravam para olhá-la, arrastando-se pelo carpete logo atrás. — Me amarre, Grande Senhora. Qualquer coisa. Eu serei seu cão fiel!
— Há muitos conjuntos itinerantes viajando para o norte — comentou Chesmal, a voz cheia de ansiedade em negar sua falha. — Para Ghealdan, Grande Senhora.
— Então preciso ir a Ghealdan — respondeu Moghedien. — Você vai conseguir cavalos rápidos e seguir… — A porta do quarto se fechou, interrompendo suas palavras.
— Serei um cão fiel — soluçou Liandrin, encolhida no carpete. Ergueu a cabeça, piscou para que as lágrimas caíssem e viu Temaile encarando-a, esfregando os braços e sorrindo. — Poderíamos dominá-la, Temaile. Nós três juntas poderíamos…
— Nós três? — gargalhou Temaile. — Você não dominaria nem a gorda da Evon. — Seus olhos se estreitaram enquanto ela examinava a blindagem amarrada a Liandrin. — Daria no mesmo se você tivesse sido estancada.
— Escute. Por favor. — Liandrin engoliu em seco e tentou firmar a voz, mas ainda soou rouca, como se ardesse de urgência, tagarelando em uma velocidade frenética: — Já conversamos sobre as divergências que devem existir entre os Escolhidos. Se Moghedien se esconde assim, deve ser dos outros Escolhidos. Se a pegarmos e entregarmos a eles, pense nas posições que poderíamos conseguir. Poderíamos ser exaltadas acima de reis e rainhas. Poderíamos nos tornar Escolhidas!
Por um momento — um momento maravilhoso e abençoado —, a mulher de rosto infantil hesitou. Então, balançou a cabeça.
— Você sempre foi ambiciosa demais. “Quem tenta alcançar o Sol acaba queimado”. Não, acho que não vou tentar chegar tão alto para me queimar. Acho que vou fazer conforme me mandaram, e amaciar você para Evon. — Então ela sorriu, exibindo dentes que acentuavam seus traços de raposa. — Ele vai ficar tão surpreso quando você rastejar para beijar seus pés…
Antes mesmo de Temaile começar, Liandrin já estava gritando.
35
Arrancada
Aos bocejos, Elayne observava Nynaeve de sua cama, a cabeça apoiada no cotovelo, os cabelos negros caídos sobre o braço. Era mesmo ridícula aquela insistência de que a pessoa fora de Tel’aran’rhiod tivesse que permanecer acordada. Não sabia quanto tempo Nynaeve vivenciara no Mundo dos Sonhos, mas Elayne estava deitada ali havia umas duas longas horas, sem nenhum livro para ler, nenhuma costura para fazer, nem nada para ocupá-la a não ser olhar para a outra mulher esparramada na própria cama estreita. Não adiantava examinar o a’dam. Achava que já descobrira tudo o que podia dele. Tentara até um pouco de Cura na mulher adormecida, talvez toda a Cura que sabia. Nynaeve jamais consentiria, se estivesse acordada — não confiava muito nas habilidades de Elayne para aquilo —, ou talvez consentisse, naquele caso, mas de qualquer jeito o olho roxo sumira. Na verdade, aquela foi a Cura mais complicada que Elayne já fizera, e o processo esgotou suas habilidades. Nada para fazer. Se tivesse um pouco de prata, talvez tentasse fazer um a’dam. A prata não era o único metal, mas precisaria derreter moedas para ter o suficiente. Nynaeve ficaria menos contente com essa ideia do que com encontrar um segundo a’dam. Se ela estivesse disposta a contar para Thom e Juilin sobre as viagens ao Mundo dos Sonhos, pelo menos Elayne poderia ter convidado Thom para entrar e conversar.
Os dois de fato tinham conversas muito agradáveis. Como um pai passando os conhecimentos para a filha. Elayne nunca se dera conta de que o Jogo das Casas era tão profundamente enraizado em Andor, ainda que, por sorte, não tanto quanto em outras terras. De acordo com Thom, só as Terras da Fronteira ficavam realmente de fora. Com a Praga logo ao norte e as investidas cotidianas de Trollocs, ninguém ali tinha tempo para tramas e conchavos. Ela e Thom tinham conversas maravilhosas, agora que o menestrel sabia que ela não tentaria se aconchegar em seu colo. O rosto de Elayne corou com a lembrança. Realmente pensara naquilo uma ou duas vezes e, ainda bem, não chegara a pôr a ideia em prática.
— “Até rainhas dão topadas, mas uma sábia presta atenção ao caminho” — recitou baixinho.
Lini era sábia. Elayne não achava que voltaria a cometer aquele erro. Sabia que cometia muitos, mas dificilmente o mesmo erro duas vezes. Um dia, talvez, errasse suficientemente pouco para ser merecedora de suceder a mãe no trono.
Ela se sentou de repente. Lágrimas brotavam dos olhos fechados de Nynaeve, escorrendo pelas laterais do rosto. O que Elayne pensara ser um ronco discreto — e a mulher roncava mesmo, apesar de não admitir — era um soluço baixo e lamurioso vindo do fundo da garganta. Não podia ser. Se ela tivesse se machucado, a ferida teria aparecido, embora Nynaeve só fosse senti-la ao acordar.
Talvez seja melhor acordá-la. Mas Elayne hesitou, a mão já estendida. Despertar alguém de Tel’aran’rhiod não era fácil — sacudir e até jogar água gelada no rosto nem sempre bastava —, e Nynaeve não gostaria de ser acordada aos murros depois da surra de Cerandin. Eu me pergunto o que de fato aconteceu. Vou ter que perguntar a Cerandin. Independentemente do que estivesse acontecendo, Nynaeve deveria conseguir sair do sonho quando quisesse. A não ser que… Egwene dissera que as Sábias eram capazes de prender pessoas em Tel’aran’rhiod contra a vontade, embora não tivesse passado o truque adiante, caso tivesse aprendido. Se alguém estivesse prendendo Nynaeve lá, naquele momento, machucando-a, não podia ser Birgitte ou as Sábias. Bem, até podiam ser as Sábias, caso tivessem surpreendido Nynaeve perambulando por onde achassem que não deveria. Mas, se não fossem as Sábias, só sobrava…