Elayne segurou Nynaeve pelos ombros para sacudi-la — se aquilo não funcionasse, gelaria o jarro d’água na mesa ou bateria no rosto dela até cansar —, mas então os olhos de Nynaeve se arregalaram.
A mulher imediatamente começou a chorar alto, o som mais desesperador que Elayne já ouvira.
— Ela morreu! Ai, Elayne. Ela morreu por culpa minha, por causa do meu orgulho bobo, pensando que eu poderia… — As palavras foram sumindo em meio aos soluços.
— Quem morreu? — Não podia ser Moghedien. A morte da Abandonada certamente não causaria todo aquele pesar. Elayne estava a ponto de abraçar Nynaeve para consolá-la quando ouviu uma batida na porta.
— Mande embora — resmungou Nynaeve, encolhendo-se até se transformar em uma bola trêmula no meio da cama.
Suspirando, Elayne foi até a porta e a abriu, mas, antes que pudesse dizer qualquer palavra, Thom passou por ela, a camisa escapando das calças, carregando um corpo envolto no próprio manto de condutor. A única coisa à mostra era um pé feminino descalço.
— Ela simplesmente apareceu — explicou Juilin, logo atrás dele, como se não acreditasse nas palavras que saíam da própria boca. Os dois estavam descalços, e Juilin, seminu, tinha o peito musculoso à mostra. — Acordei um instante e, de repente, ela estava lá de pé, nua como veio ao mundo, desabando feito uma rede cortada.
— Ela está viva — avisou Thom enquanto deitava a figura envolta no manto na cama de Elayne —, mas por um fio. Mal consegui ouvir o coração.
Elayne franziu o cenho, puxou o capuz do manto… e se viu encarando o rosto de Birgitte, pálido e desfalecido.
Nynaeve cambaleou da outra cama para se ajoelhar ao lado da mulher inconsciente. O rosto ainda estava molhado de lágrimas, mas o choro cessara.
— Ela está viva — murmurou, ofegante. — Ela está viva. — De repente, pareceu perceber que estava só de camisola diante dos homens, mas mal olhou para eles ao dizer : — Tire-os daqui, Elayne. Não posso fazer nada com eles assim, pasmos feito duas ovelhas.
Thom e Juilin reviraram os olhos um para o outro quando Elayne fez um gesto para que saíssem, e balançaram levemente a cabeça, mas recuaram até a porta sem reclamar.
— Ela é… uma amiga — explicou Elayne. Parecia em um sonho, flutuando, sem sentir nada. Como podia ser? — Vamos cuidar dela. — Como aquilo poderia ter acontecido? — Mas não digam nenhuma palavra a ninguém.
Os olhares que os dois lhe lançaram enquanto fechava a porta quase a fizeram enrubescer. Claro que eles sabiam que era melhor não falar nada. Mas homens às vezes precisavam ser lembrados até das coisas mais simples, Thom inclusive.
— Nynaeve, como, sob a Luz…? — começou, virando-se, e se interrompeu quando o brilho de saidar circundou a mulher ajoelhada.
— Que a queime! — rosnou Nynaeve, canalizando ferozmente. — Que a queime para sempre por ter feito isso!
Elayne reconheceu os fluxos sendo urdidos para Curar, mas reconhecer foi o máximo que conseguiu.
— Eu vou encontrá-la, Birgitte — murmurou Nynaeve.
Os fluxos de Espírito predominavam, mas havia Água, Ar e até Terra e Fogo. Parecia tão complicado quanto bordar um vestido com cada mão e outros dois com os pés. Vendada.
— Vou fazê-la pagar por isso. — O brilho reluzindo em torno de Nynaeve só fazia crescer, até sobrepujar as lamparinas, até que doesse encará-la sem estreitar os olhos. — Eu juro! Pela Luz e pela minha esperança na salvação e no renascimento, eu juro! — A raiva em sua voz mudou, tornando-se ainda mais profunda. — Não está funcionando. Não há nada de errado nela que possa ser Curado. Birgitte está em perfeito estado. Mas está morrendo. Ah, Luz, eu sinto ela indo embora. Que a Luz a queime, Moghedien! E me queime junto!
Nynaeve, no entanto, não desistiu. A urdidura continuava, fluxos complexos tecendo-se ao redor de Birgitte. E a mulher ali, a trança dourada pendendo da lateral da cama, o subir e descer do peito diminuindo.
— Posso fazer algo que talvez ajude — sugeriu Elayne, hesitante.
Supostamente era preciso ter permissão, mas nem sempre fora assim. No passado, fazia-se quase tanto sem quanto com permissão. Não havia motivos para que não funcionasse em uma mulher. Só que ela nunca tinha ouvido falar de aquilo ser feito em ninguém que não fosse homem.
— Unir? — Nynaeve não tirou os olhos da mulher deitada na cama, nem interrompeu seus esforços com o Poder. — Sim. Você vai ter que fazer, porque eu não sei como, mas me deixe guiar. Não sei nem metade do que estou fazendo neste minuto, mas sei que consigo. Você não conseguiria Curar nem um machucado.
Elayne comprimiu os lábios, mas deixou o comentário para lá.
— Unir, não.
A quantidade de saidar que Nynaeve agarrara era incrível. Se não podia Curar Birgitte com aquilo, qualquer colaboração de Elayne não faria a menor diferença. Juntas, seriam mais fortes do que cada uma por si, mas não tão fortes quanto se suas forças fossem simplesmente somadas. Além disso, Elayne não tinha certeza de que conseguiria se unir a alguém. Só estivera unida uma vez, e uma Aes Sedai fizera a união, mais para mostrar o que era do que como fazer.
— Pare, Nynaeve. Você mesma disse que não está funcionando. Pare e me deixe tentar. Se não der certo, você pode… — Poderia o quê? Se Curar funcionasse, já teria funcionado. Se não… Não havia motivo para tentar de novo.
— Tentar o quê? — explodiu Nynaeve, mas se afastou meio sem jeito, permitindo que Elayne se aproximasse. A urdidura da Cura sumiu, mas o halo reluzente, não.
Em vez de responder, Elayne pousou uma das mãos na testa de Birgitte. O contato físico era tão necessário para aquilo quanto para Curar. Nas duas vezes em que tinha visto o procedimento ser feito na Torre, a Aes Sedai havia tocado a testa do homem. Os fluxos de Espírito que urdiu foram complexos, talvez tão intricados quanto os que Nynaeve urdira, momentos antes. Elayne mal compreendia o que estava fazendo, e tinha partes do processo das quais não entendia nada, mas prestara muita atenção à forma que o fluxo adquiria, quando observara escondida. Prestara muita atenção porque tinha criado muitas histórias na cabeça, inventado romances tolos onde raramente havia qualquer romance. Após um momento, sentou-se na outra cama e deixou saidar se esvair.
Nynaeve franziu o cenho e se curvou para examinar Birgitte. A palidez da mulher desmaiada talvez tivesse se amenizado, a respiração talvez estivesse um tanto mais forte.
— O que você fez, Elayne? — Nynaeve não tirou os olhos de Birgitte, mas o brilho que a envolvia foi sumindo devagar. — Não foi uma Cura. Acho que eu também conseguiria fazer, agora que vi, mas não foi uma Cura.
— Ela vai sobreviver? — perguntou Elayne, com a voz fraca.
Não se via nenhum elo entre ela e Birgitte, nenhum fluxo, mas a garota sentia a fraqueza da mulher. Uma fraqueza terrível. Saberia na hora se Birgitte morresse, mesmo que estivesse dormindo ou a centenas de milhas de distância.