Elayne ergueu o queixo.
— Não vou obrigá-lo a ficar por causa de Rand al’Thor, Juilin. — Devolvê-la? Oras! — Você só fica se quiser. E eu não libero você, e nem você, Thom, da promessa que fizeram de agir conforme mandarmos. — Thom, que rira do comentário do caçador de ladrões, exibiu um olhar surpreso que foi bem recompensador. A garota voltou a encarar Juilin. — Você vai acompanhar a mim, e a Nynaeve, claro, sabendo perfeitamente bem quem são os inimigos que estamos enfrentando, ou pode empacotar suas coisas e ir embora com Sorrateiro para onde bem entender. Eu lhe dou o cavalo.
Juilin se sentou ereto feito um poste, o rosto negro ficando ainda mais escuro.
— Nunca abandonei uma mulher em perigo em toda a minha vida. — Ele apontou a piteira para ela como se fosse uma arma. — Se você me mandar embora, vou ficar nos seus calcanhares.
Não era exatamente o que ela queria, mas serviria.
— Muito bem, então. — Elayne se levantou, empertigada, a flecha de prata ao lado, e manteve a atitude um tanto fria. Achava que eles tinham finalmente percebido quem estava no comando. — A manhã já vem chegando. — Será que Rand tivera mesmo a audácia de dizer a Juilin para “devolvê-la”? Thom teria que sofrer junto com o outro homem por um tempo, o que era bem justo, depois daquele sorrisinho. — Tratem de apagar este fogo e ir dormir. Agora. Sem desculpas, Thom. Você vai estar imprestável amanhã, se não dormir.
Obedientes, os dois começaram a arrastar poeira para cima do fogo com as botas, mas, quando Elayne alcançou os simples degraus de madeira do carroção, ouviu Thom dizer:
— Às vezes ela fala igual à mãe.
— Então fico feliz de nunca ter conhecido a mulher — resmungou Juilin. — Cara ou Coroa para decidir a primeira guarda? — Thom murmurou em concordância.
Ela quase voltou lá, mas, em vez disso, se viu sorrindo da situação. Homens! Foi um pensamento carinhoso. Seu bom humor só durou até entrar.
Nynaeve estava sentada bem na beira da cama, se apoiando com as duas mãos, os olhos quase se fechando enquanto vigiavam Birgitte. Os pés ainda estavam sujos.
Elayne pôs a flecha de Birgitte em um dos armários, por trás de alguns sacos ásperos de ervilhas desidratadas. Por sorte, a amiga sequer chegou a olhar para ela. Elayne achava que a visão da flecha de prata não era o que Nynaeve precisava naquele exato momento. Mas do que ela precisava?
— Nynaeve, já passou da hora de você ir lavar os pés e dormir.
A mulher se inclinou na direção dela e piscou pesadamente.
— Pés? O quê? Eu tenho que vigiá-la.
Teria de ser um passo de cada vez.
— Os seus pés, Nynaeve. Estão sujos. Vá se lavar.
Com o cenho franzido, Nynaeve baixou o olhar para os pés empoeirados, então anuiu. Ela espirrou água ao virar o grande jarro branco sobre o lavatório, e ainda mais até terminar de se lavar e se enxugar com a toalha, mas então tornou a se sentar.
— Eu preciso vigiar. Caso… Caso… Ela gritou uma vez. Por Gaidal.
Elayne a empurrou, tentando fazê-la se deitar na cama.
— Você precisa dormir, Nynaeve. Não consegue nem manter os olhos abertos.
— Consigo — murmurou a outra mulher, tristonha, tentando se sentar, mesmo com a pressão de Elayne em seus ombros. — Eu preciso vigiá-la, Elayne. Preciso.
Nynaeve fazia os dois homens do lado de fora parecerem sensatos e obedientes. E, mesmo que Elayne quisesse, não havia como embebedá-la e encontrar um… um belo jovem para ela, que era o que a garota supunha que teria de ser. Com isso, só restava o chute. Compaixão e bom senso certamente não surtiram efeito.
— Já estou farta dessas lamúrias e desse seu chororô, Nynaeve — declarou, com firmeza. — Você vai dormir agora, e de manhã não vai dizer nenhuma palavra sobre como você é uma desgraçada infeliz. Se não consegue se comportar como a mulher lúcida que é, vou pedir para Cerandin lhe deixar com dois olhos roxos para compensar o hematoma que eu Curei. Você nem agradeceu por isso. Agora vá dormir!
Os olhos de Nynaeve se esbugalharam de um jeito indignado — ao menos ela não parecia a ponto de chorar —, mas Elayne os fechou com os dedos. As pálpebras se cerraram com facilidade e, apesar de alguns protestos murmurados, a respiração lenta e profunda do sono chegou depressa.
Elayne deu um tapinha no ombro de Nynaeve, antes de se empertigar. Torcia para que fosse um sono tranquilo e com sonhos sobre Lan, mas qualquer tipo de sono era melhor para ela, naquele momento, do que não dormir nada. Lutando contra um bocejo, curvou-se para checar Birgitte. Não sabia se a cor ou a respiração da mulher apresentavam alguma melhora. Não havia nada a fazer além de esperar e torcer.
As lamparinas não pareciam estar incomodando nenhuma das outras duas, então Elayne as deixou acesas e se sentou no chão entre as duas camas. As luzes deviam ajudar a mantê-la acordada. Não que soubesse realmente por que deveria ficar acordada. Fizera todo o possível, assim como Nynaeve. Involuntariamente, inclinou-se contra a parede da frente, e seu queixo foi afundando devagar no peito.
O sonho que teve foi agradável, ainda que estranho. Rand se ajoelhava diante dela, e Elayne tocava sua cabeça e criava um elo com o homem, tornando-o seu Guardião. Um de seus Guardiões. Agora, com Birgitte, teria que optar pela Verde. Havia outras mulheres presentes, os rostos mudando a cada vez que ela olhava. Nynaeve, Min, Moiraine, Aviendha, Berelain, Amathera, Liandrin e outras que ela não conhecia. Quem quer que fossem, Elayne sabia que teria que dividir Rand com elas, porque, no sonho, tinha certeza de que aquilo era o que Min previra. Não sabia bem como se sentia a respeito — alguns daqueles rostos ela desejava retalhar à unha —, mas, se era assim que o Padrão determinava, assim teria que ser. Porém, teria uma coisa dele que nenhuma das outras jamais poderia ter: o elo entre Guardião e Aes Sedai.
— Que lugar é este? — indagou Berelain, com cabelos cor de corvo e tão bela que Elayne queria rosnar para ela. A mulher trajava o vestido vermelho e decotado que Luca queria que Nynaeve usasse. Ela sempre se vestia com roupas provocantes. — Acorde. Aqui não é Tel’aran’rhiod.
Elayne acordou em um susto e encontrou Birgitte virada para ela, apertando seu braço sem muita força. Seu rosto estava muito pálido e úmido de suor, como se ela estivesse com febre, mas os olhos azuis penetrantes estavam fixos no rosto de Elayne.
— Aqui não é Tel’aran’rhiod. — Não era uma pergunta, mas Elayne assentiu, e Birgitte relaxou com um longo suspiro. — Eu me lembro de tudo — sussurrou. — Estou aqui do jeito que estou, e me lembro. Está tudo diferente. Gaidal está aí fora em algum lugar, criancinha, ou até mesmo um jovem garoto. Mas, mesmo que eu o encontre, o que ele vai pensar de uma mulher com idade mais do que suficiente para ser mãe dele? — Ela esfregou os olhos com raiva, resmungando: — Eu não choro. Nunca choro. Eu me lembro disso, que a Luz me ajude. Eu nunca choro.
Elayne ficou de joelhos ao lado da cama da mulher.
— Você vai encontrá-lo, Birgitte. — Manteve a voz baixa. Nynaeve ainda parecia dormir profundamente, um ronco tímido e áspero ecoando com regularidade. E ela precisava dormir, não voltar a enfrentar aquilo tudo. — De algum jeito, você vai. E ele vai amar você. Eu sei que vai.
— Você acha que é isso que importa? Eu aguentaria não ter o amor dele. — Seus olhos reluzentes denunciaram a mentira. — Ele vai precisar de mim, Elayne, e eu não vou estar lá. Ele sempre tem mais coragem que o recomendável. Eu sempre preciso passar alguma cautela para ele. Pior, ele vai ficar perambulando, me procurando, mas sem saber o que procura, sem saber por que se sente incompleto. Nós sempre estamos juntos, Elayne. Duas metades do mesmo todo. — As lágrimas se derramaram e escorreram por seu rosto. — Moghedien disse que me faria chorar para sempre, e ela… — De repente, suas feições se contorceram, e soluços baixos e irregulares emergiram como se tivessem sido arrancados da garganta.