Elayne tomou a mulher mais alta nos braços e murmurou palavras reconfortantes que sabia serem inúteis. Como se sentiria se lhe tirassem Rand? Pensar naquilo quase bastou para fazê-la baixar a cabeça sobre a de Birgitte e chorar junto.
A garota não soube dizer quanto tempo levou para que Birgitte parasse de chorar, mas ela acabou afastando Elayne, se recompôs e limpou as bochechas.
— Nunca chorei assim, a não ser quando era uma criança. Nunca. — Ela virou o pescoço e franziu o rosto para Nynaeve, que ainda dormia na outra cama. — Moghedien a machucou muito? Eu não via ninguém retorcida daquele jeito desde que Tourag conquistou Mareesh. — Elayne deve ter parecido confusa, porque a mulher acrescentou: — Em outra Era. Ela está ferida?
— Não muito. De espírito, principalmente. O que você fez permitiu que ela escapasse, mas só depois que… — Elayne não conseguiu dizer. Muitas feridas, muito recentes. — Ela se culpa. Acha que… tudo… é culpa dela, por ter pedido sua ajuda.
— Se não tivesse pedido, Moghedien agora estaria ensinando Nynaeve a implorar. Ela é tão inconsequente quanto Gaidal. — O tom de voz seco de Birgitte contrastava com as bochechas molhadas. — Nynaeve não me arrastou para esta situação pelo cabelo. Se ela se diz responsável pelas consequências, então está assumindo a responsabilidade por atos meus. — Ela soou irritada. — Sou uma mulher livre e fiz minhas próprias escolhas. Ela não decidiu por mim.
— Devo admitir que você está encarando isso tudo melhor do que… eu encararia. — Elayne não conseguiu dizer “melhor do que Nynaeve”. Era verdade, mas o que disse também era.
— Eu sempre digo que, se for preciso subir no cadafalso, faça um gracejo para o público, dê uma moeda para o carrasco e caia com um sorriso nos lábios. — Birgitte abriu um sorriso sombrio. — Moghedien acionou a armadilha, mas meu pescoço ainda não quebrou. Talvez eu ainda a pegue de surpresa, antes de quebrar. — O sorriso desapareceu e foi se transformando em uma expressão tensa enquanto a mulher examinava Elayne. — Eu consigo… sentir você. Acho que seria capaz de fechar os olhos e ainda dizer onde você está, mesmo a uma milha de distância.
Elayne respirou bem fundo.
— Criei um elo para você ser minha Guardiã — contou, depressa. — Você estava morrendo, e a Cura não adiantou, e… — A mulher a encarava. Não parecia mais tensa, mas o olhar era desconcertantemente penetrante. — Não havia outra opção, Birgitte. De outra forma, você teria morrido.
— Guardiã — repetiu Birgitte devagar. — Acho que me lembro de ter ouvido uma história sobre uma Guardiã mulher, mas foi em uma vida tanto tempo atrás que não me recordo de mais que isso.
Elayne respirou fundo de novo e, desta vez, teve que se obrigar a falar.
— Tem uma coisa que você precisa saber. Mais cedo ou mais tarde, vai descobrir, e eu decidi não esconder nada das pessoas que têm direito de saber, a menos que seja absolutamente necessário. — Inspirou uma terceira vez. — Eu não sou Aes Sedai. Sou apenas uma Aceita.
Por um longo momento, a mulher de trança dourada encarou-a, depois balançou lentamente a cabeça.
— Uma Aceita. Nas Guerras dos Trollocs, conheci uma Aceita que criou um elo com um sujeito. Barashelle ia ser testada no dia seguinte para ser elevada a Aes Sedai, e era certo que receberia o xale, mas ela estava com medo de que uma mulher que faria o teste naquele mesmo dia tomasse o homem. Nas Guerras dos Trollocs, a Torre tentava elevar mulheres o mais rápido possível, por necessidade.
— O que aconteceu? — Elayne não conseguiu evitar a pergunta. Barashelle? Aquele nome soou familiar.
Entrelaçando os dedos sobre o lençol que lhe cobria o busto, Birgitte mexeu a cabeça no travesseiro e fez uma expressão complacente.
— Desnecessário dizer que, assim que descobriram, não permitiram que ela fizesse os testes. A necessidade não pesou mais que tamanha ofensa. Fizeram a mulher passar o elo com o pobre coitado para outra, e, para ensiná-la a ter paciência, puseram-na nas cozinhas junto com as serviçais e as moças dos espetos. Ouvi falar que ela passou três anos lá e, quando por fim recebeu o xale, o próprio Trono de Amyrlin escolheu o Guardião dela, um homem de rosto seco e teimoso feito uma pedra chamado Anselan. Vi os dois alguns anos depois e não soube dizer qual deles dava as ordens. Acho que Barashelle também não tinha certeza.
— Nada bom — murmurou Elayne. Três anos nas… Espere aí. Barashelle e Anselan? Não podia ser a mesma dupla. Aquela história não dizia nada sobre Barashelle ser Aes Sedai. Mas ela já lera duas versões e ouvira Thom contar mais uma, e todas falavam de Barashelle trabalhando longa e arduamente para conquistar o amor de Anselan. Dois mil anos podiam mudar bastante uma história.
— Nada bom — concordou Birgitte, cujos olhos, subitamente, ficaram bem maiores e mais inocentes no rosto pálido. — Como você quer que eu mantenha o seu segredo terrível, suponho que não vá me perturbar tanto quanto algumas Aes Sedai perturbam seus Guardiões. Não seria bom me forçar a contar só para escapar de você.
O queixo de Elayne se ergueu instintivamente.
— Isso me soa muito como uma ameaça. Não encaro bem nenhum tipo de ameaça, suas ou de quem for. Se acha que…
A mulher deitada segurou seu braço e a interrompeu, arrependida. O aperto estava nitidamente mais forte.
— Por favor. Minha intenção não foi essa. Gaidal diz que meu senso de humor é como uma pedra lançada em um círculo shoja. — Uma nuvem perpassou seu rosto, ao mencionar Gaidal, então sumiu. — Você salvou a minha vida, Elayne. Vou manter seu segredo e lhe servir como Guardiã. E serei sua amiga, caso me aceite.
— Será um orgulho ter você como amiga. — Círculo shoja? Perguntaria o que era em outro momento. Birgitte podia estar mais forte, mas precisava de descanso, não de perguntas. — E como Guardiã.
Pelo visto, ia mesmo escolher a Ajah Verde. Além de tudo, era a única maneira de poder também criar um elo com Rand. O sonho ainda estava claro em sua mente, e ela pretendia convencê-lo a aceitar, de um jeito ou de outro.
— Talvez você pudesse tentar… moderar… seu senso de humor?
— Vou tentar. — Birgitte soou como se estivesse dizendo que tentaria erguer uma montanha. — Mas, se serei sua Guardiã, mesmo em segredo, serei sua Guardiã de verdade. Você mal consegue manter seus olhos abertos. É hora de dormir. — As sobrancelhas e o queixo de Elayne se ergueram ao mesmo tempo, mas a mulher não lhe deu chance de falar. — Entre muitas outras coisas, é função de um Guardião informar à Aes Sedai dele, ou dela, quando ela passa da conta. E também oferecer uma dose de cautela quando ela achar que é capaz de encarar o Poço da Perdição. E mantê-la viva para que possa cumprir seu dever. Vou fazer tudo isso por você. Você sempre estará protegida quando eu estiver por perto, Elayne.
Elayne supunha que realmente precisasse dormir, mas Birgitte precisava mais. Diminuiu as luzes e fez a mulher se aquietar e adormecer, mas não antes de Birgitte vê-la pôr um travesseiro e lençóis no chão, entre as camas, para si. Houve uma pequena discussão sobre quem dormiria no chão, mas Birgitte estava tão fraca que Elayne não teve problemas para convencê-la a ficar na cama. Bem, não muito problema, pelo menos. Ainda bem que o ronco suave de Nynaeve não se interrompeu.
Elayne não se ajeitou para dormir de imediato, apesar do que disse a Birgitte. A mulher não poderia colocar o nariz para fora do carroção até ter algo para vestir, e ela era mais alta do que Elayne ou Nynaeve. Sentada entre as camas, começou a alongar a barra de seu vestido de montaria de seda cinza-escura. Pela manhã, mal haveria tempo para mais do que um ajuste rápido e alguns pontos na bainha nova. O sono se apossou dela ainda na metade da costura.