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— E se eu dissesse que quero que você baixe essa polegada? — rosnou ela, mostrando os dentes. — E se eu quisesse pintar seu rosto, para que Luca pudesse ter o bobo dele? E se eu arrancasse as suas roupas e lhe pintasse da cabeça aos pés? Que belo alvo você se tornaria. Todos os homens a menos de cinquenta milhas daqui viriam assistir.

Nynaeve moveu os lábios, mas, desta vez, nenhum som emergiu. Ela queria muito fechar os olhos. Talvez, quando os abrisse, nada daquilo estivesse acontecendo.

Com um meneio desgostoso de cabeça, Birgitte se sentou em uma das camas, cotovelo no joelho, e os olhos azuis penetrantes.

— Isso precisa parar. Quando eu olho na sua direção, você se encolhe. Fica me paparicando o tempo todo. Se olho de relance para um banquinho, você vai buscar um. Se passo a língua nos lábios, você põe um copo de vinho na minha mão antes que eu me dê conta de que estou com sede. Você lavaria as minhas costas e colocaria chinelos nos meus pés, se eu deixasse. Não sou nem um monstro, nem uma inválida, e nem uma criança, Nynaeve.

— Só estou tentando compensar o… — começou ela timidamente, dando um pulo quando a outra rugiu.

— Compensar? Você está tentando me diminuir!

— Não. Não é nada disso, de verdade. A culpa é minha por…

— Você se responsabiliza pelos meus atos — interrompeu Birgitte, com ferocidade. — Eu decidi falar com vocês em Tel’aran’rhiod. Eu decidi ajudar. Eu decidi rastrear Moghedien. E eu decidi levar você para falar com ela. Eu! Não foi você, Nynaeve, fui eu! Em nenhum momento fui sua marionete, seu cãozinho de caça, e não é agora que vou ser.

Nynaeve engoliu em seco e agarrou as saias com ainda mais força. Não tinha o direito de ficar com raiva daquela mulher. Nenhum direito. Mas Birgitte, sim.

— Você fez o que eu pedi. A culpa é minha por… por você estar aqui. A culpa é toda minha!

— E eu falei em culpa? Não vejo culpa nenhuma. Só homens e garotas idiotas assumem culpa onde ela não existe, e você não é nenhuma das duas coisas.

— Foi meu orgulho bobo que me fez pensar que eu poderia derrotar Moghedien de novo, e foi a minha covardia que fez com que ela… com que ela… Se eu não tivesse ficado com tanto medo que não conseguia nem cuspir, talvez pudesse ter feito algo a tempo.

— Covarde? — Os olhos de Birgitte se arregalaram, claramente incrédulos, e sua voz ganhou um quê de desdém. — Você? Achei que tivesse bom senso suficiente para não confundir medo com covardia. Você poderia ter fugido de Tel’aran’rhiod quando Moghedien a soltou, mas ficou lá para lutar. Não é responsabilidade ou culpa sua não ter conseguido. — Birgitte respirou fundo, esfregou a testa por um momento e voltou a se inclinar para a frente, séria. — Escute bem o que vou dizer, Nynaeve. Eu não me sinto culpada pelo que fizeram com você. Eu vi, mas não podia me mexer. Se Moghedien tivesse lhe amarrado feito um nó ou lhe descaroçado feito uma maçã, eu ainda não me responsabilizaria. Fiz o que pude, quando pude. E você fez o mesmo.

— Não foi igual. — Nynaeve tentou diminuir o fervor na voz. — A culpa de você estar lá foi minha. A culpa de você estar aqui é minha. Se você… — Ela tornou a parar para engolir. — Se você… errar… quando atirar em mim hoje, quero que saiba que eu vou entender.

— Eu não erro a mira — respondeu Birgitte, seca —, e não é em você que eu vou mirar.

Ela começou a retirar objetos de um dos armários e a colocá-los na mesinha. Flechas semiacabadas, hastes raspadas, pontas de aço para flechas, um pote de cola de sapateiro, fios bem finos e penas de ganso para a plumagem. Ela dissera que também faria o próprio arco, assim que possível. Chamara o arco de Luca de “galho torto arrancado de uma árvore morta por um idiota cego, e no meio da noite”.

— Eu gostava de você, Nynaeve — comentou enquanto depositava os objetos. — Com todos os defeitos e imperfeições. Mas, desse jeito de agora, já não gosto mais…

— Você não tem motivos para gostar de mim agora — respondeu Nynaeve, infeliz, mas Birgitte emendou, sem nem levantar a cabeça:

— … e não vou permitir que você me diminua, que diminua as minhas decisões, ao assumir responsabilidade por elas. Tive poucas amigas, mas a maioria era geniosa feito espectros de neve.

— Eu queria que você pudesse voltar a ser minha amiga. — O que, sob a Luz, era um espectro de neve? Alguma coisa de outra Era, sem dúvida. — Eu jamais tentaria diminuir você, Birgitte. Eu só…

Birgitte ignorou-a, mas levantou a voz. Toda a atenção da mulher parecia estar nas hastes das flechas.

— Eu queria voltar a gostar de você, sendo isso recíproco ou não, mas só vou conseguir se você voltar a ser quem era. Eu conseguiria aturá-la mesmo que você fosse uma bebê chorona irritante, se fosse mesmo o seu jeito. Aceito as pessoas como elas são, não como eu gostaria que fossem, ou então deixo para lá. Mas você não é assim, e eu não vou aceitar seus motivos para agir desse jeito. Enfim. Clarine me contou sobre sua briga com Cerandin. Agora já sei o que fazer na próxima vez em que você se apropriar das minhas decisões. — Ela fez o pedaço de um galho de freixo zunir vigorosamente. — Tenho certeza de que Latelle vai ficar feliz de providenciar a vara.

Nynaeve se forçou a relaxar a mandíbula e a suavizar o tom de voz o máximo possível.

— Você tem todo o direito de fazer o que bem entender comigo. — Junto às saias, seus punhos tremiam mais que a voz.

— Estou vendo um pouquinho do seu temperamento? Só a pontinha? — Birgitte sorriu para ela, bem-humorada e surpreendentemente ferina. — Quanto tempo até explodir? Estou disposta a gastar a quantidade de varas que for necessária. — O sorriso se dissipou, e ela ficou séria. — Ou consigo fazer você enxergar direito a situação, ou a quero longe de mim. Não tem outra saída. Eu não posso e não vou me afastar de Elayne. Esse elo me honra, e vou honrá-lo, e a ela. E não vou deixar você pensar que toma decisões por mim, ou que tomou. Eu sou eu mesma, não um apêndice seu. Agora vá embora. Preciso terminar estas flechas, caso queira ter algumas hastes que voem direito. Não pretendo matar você, e não vou deixar que aconteça por acidente. — Ela desarrolhou o pote de cola e se curvou sobre a mesa. — Quando for sair, não se esqueça de agir como uma boa garota e fazer uma reverência.

Nynaeve só conseguiu chegar aos degraus antes de bater o punho na coxa, furiosa. Como ela ousava? Será que pensava que podia simplesmente…? Achava que Nynaeve ia aturar…? Pensei que ela pudesse fazer o que quisesse com você, uma vozinha sussurrou em sua mente. Eu disse que ela podia me matar, rosnou de volta, não me humilhar! Dali a bem pouco tempo, todo mundo a estaria ameaçando com aquela maldita Seanchan!

Os carroções estavam abandonados, exceto por alguns tratadores de cavalos usando casacos grosseiros que montavam guarda perto da alta cerca de tela que fora erguida para abrigar o espetáculo de Luca. Daquele grande prado de grama marrom, a meia milha de Samara, as muralhas de pedra cinza da cidade eram claramente visíveis, com as torres atarracadas nos portões e alguns dos edifícios mais altos despontando os telhados de palha ou de telha. Fora das muralhas, aldeias de choupanas toscas e cabanas brotavam feito cogumelos em todas as direções, repletas dos seguidores do Profeta, que tinham arrancado todas as árvores que existiam por milhas e milhas para fazer construções ou ter lenha para fogueiras.

Os clientes entravam no espetáculo pelo outro lado, mas dois dos tratadores de cavalos, munidos de porretes robustos, ficavam por ali para desencorajar qualquer pessoa que não quisesse pagar e resolvesse usar a entrada dos artistas. Nynaeve estava se aproximando, andando rápido e resmungando sozinha, furiosa, quando os sorrisos idiotas dos dois homens fizeram com que ela se desse conta de que o xale ainda estava enrolado nos ombros. O olhar que ela lhes lançou fez desaparecer os risinhos bestas. Foi só então que, bem devagar, Nynaeve se cobriu de maneira adequada. Não queria que aqueles dois estúpidos pensassem que podiam fazê-la ofegar e pular. O magrelo, dono de um nariz que ocupava metade do rosto, segurou a aba da tela para o lado, e ela se agachou e adentrou o pandemônio.