Havia gente aglomerada por toda parte, em amontoados barulhentos de homens, mulheres e crianças, em torrentes que tagarelavam enquanto fluíam de uma atração à outra. Tirando os s’redit, todos se apresentavam em palcos de madeira que Luca mandara construir. Os cavalos-javali de Cerandin atraíam o maior público; os imensos animais cinzentos, incluindo o bebê, se equilibravam nas patas dianteiras, as trombas compridas curvadas sinuosamente para cima. Já os cães de Clarine, mesmo dando cambalhotas para trás e saltando por cima uns dos outros, atraíam o menor. Uma boa quantidade de pessoas parava para encarar os leões e os peludos capars, que pareciam javalis; o veado de chifres estranhos de Arafel, Saldaea e Arad Doman; e os reluzentes pássaros de só a Luz sabia onde, além de algumas criaturas de pelagem marrom e cheias de ginga, com olhos grandes e orelhas redondas, que ficavam sentadas placidamente comendo folhas dos galhos que apanhavam com as patas da frente. A história que Luca contava sobre o local de onde aqueles animais vinham variava — Nynaeve supunha que ele não sabia —, e ainda não encontrara um nome que o satisfizesse. Uma enorme serpente dos pântanos de Illian, quatro vezes maior que um homem, arrancava tantos arquejos quanto os s’redit, embora só ficasse ali parada, aparentemente dormindo. Mas Nynaeve ficou contente ao ver que os ursos de Latelle, naquele momento de pé, rolando em cima de imensas bolas vermelhas de madeira, atraíam pouco mais público que os cães. Aquela gente podia avistar ursos nas próprias florestas, ainda que os da comitiva tivessem a cara branca.
Com suas lantejoulas pretas, Latelle cintilava sob o sol vespertino. De azul, Cerandin brilhava quase o mesmo tanto, assim como Clarine, de verde, embora nenhuma das duas usasse tantos paetês quanto Latelle. E todos os vestidos tinham a gola bem alta, sob o queixo. Claro que Petra e os Chavanas se apresentavam usando apenas reluzentes calças azuis, mas era apenas para exibir os músculos. Bem compreensível. Os acrobatas estavam um sobre os ombros do outro, em colunas de quatro. Não muito longe, o culturista erguia uma barra comprida com uma grande bola de ferro em cada ponta — foram necessários dois homens para entregar aquele troço para ele — e, de imediato, começou a girá-la nas mãos maciças, chegando até a rodopiar a barra em volta do pescoço e das costas.
Thom fazia malabares com fogo, que também engolia. Oito bastões em chamas formavam um círculo perfeito. Então, de repente, ele tinha quatro em cada mão, um dos objetos despontando de cada aglomerado. Enfiando na boca com destreza cada uma das extremidades em chamas, o homem parecia engolir, depois as tirava da boca já apagadas, dando a impressão de ter acabado de comer algo saboroso. Nynaeve não entendia como ele não esturricava o bigode, muito menos como não queimava a garganta. Bastava ele girar os pulsos para os bastões apagados se dobrarem sobre os acesos feito ventarolas. No momento seguinte, já estavam formando dois círculos interligados acima da cabeça dele. Thom usava o mesmo casaco marrom de sempre, embora Luca tivesse dado um vermelho com paetês providenciado. Pelo modo como as sobrancelhas espessas dele se ergueram quando ela passou, Thom não entendeu por que Nynaeve o fuzilou com os olhos. Usando o próprio casaco!
Ela seguiu às pressas em direção à multidão apertada, alvoroçada e impaciente que cercava os dois altos postes com uma corda firmemente estendida entre eles. Nynaeve teve de usar os cotovelos para chegar à fileira da frente, apesar de duas mulheres a terem encarado e arrancado os maridos de seu caminho quando o xale escorregou. Se não estivesse tão ocupada enrubescendo e se cobrindo, teria devolvido o olhar. Luca estava lá, parecendo ansioso como um marido do lado de fora do quarto de parto, junto de um sujeito robusto com a cabeça toda raspada, exceto por um coque grisalho. Nynaeve se esgueirou para o outro lado de Luca. O homem da cabeça raspada tinha uma aparência perversa. Uma longa cicatriz cortava a bochecha esquerda, e usava um tapa-olho naquele mesmo lado com um olho ameaçador pintado em vermelho. Poucos homens que vira ali estavam armados com mais do que uma adaga, mas aquele usava uma espada presa às costas, o punho comprido se erguendo acima do ombro direito. Por algum motivo, parecia vagamente familiar, mas o pensamento de Nynaeve estava todo voltado para a corda bamba. Luca franziu o cenho ao ver o xale, sorriu para ela e tentou passar o braço em torno de sua cintura.
Enquanto ele ainda tentava recuperar o fôlego por conta da cotovelada desferida por Nynaeve, e ela ainda reposicionava o xale em um lugar decente, Juilin surgiu vacilante em meio à multidão do lado oposto, o chapéu cônico vermelho inclinado de um jeito malandro, o sobretudo caindo de um dos ombros, e uma caneca de madeira transbordando na mão. Com passos excessivamente cautelosos de um homem cuja cabeça contém mais vinho que miolos, ele se aproximou da escada de corda que levava até o topo de uma das altas plataformas e olhou para cima.
— Suba! — gritou alguém. — Quebre esse pescoço tolo!
— Espere, amigo — clamou Luca, avançando com sorrisos e floreios da capa. — Aqui não é lugar para um homem com a barriga cheia de…
Juilin pousou a caneca no chão e disparou escada acima, chegando cambaleante na plataforma. Nynaeve prendeu a respiração. O homem era bom com lugares altos, o que não era de se estranhar, após uma vida inteira perseguindo ladrões nos telhados de Tear, mas, ainda assim…
Juilin se virou como se estivesse perdido. Parecia bêbado demais para ver ou se lembrar da escada. Os olhos se fixaram na corda. Hesitante, ele pôs um dos pés na corda estreita, então o recolheu. Empurrando o chapéu para trás para coçar a cabeça, examinou a corda retesada e, de repente, ficou visivelmente animado. Abaixou-se devagar até se apoiar nas mãos e nos joelhos e engatinhou, oscilante, até a corda. Luca gritou para que ele descesse, e a multidão gargalhou.
Na metade da travessia, Juilin parou, balançando desajeitadamente, e deu uma espiada para trás, os olhos se fixando na caneca que deixara no chão. Estava claramente conjecturando como voltar para apanhá-la. Devagar, com muito cuidado, o homem se levantou na direção do caminho que já percorrera, vacilando para um lado e para o outro. Um arquejo irrompeu da multidão quando seu pé escorregou e ele caiu, conseguindo se agarrar de algum modo com uma mão e um joelho enganchados na corda. Luca apanhou o chapéu taraboniano quando ele pousou no chão e gritou para todos que aquele homem era maluco e que não era responsável pelo que acontecesse. Nynaeve apertou o estômago com força. Imaginava-se lá em cima, e só isso era o bastante para deixá-la enjoada. O homem era um idiota. O mais perfeito e completo idiota!
Demonstrando dificuldade, Juilin deu um jeito de agarrar a corda com a outra mão e foi se movendo ao longo de sua extensão. Até a plataforma mais distante. Cambaleante, ele limpou o sobretudo, tentou puxar para endireitá-lo, conseguindo apenas mudar o ombro em que a roupa estava caída, e identificou a caneca no chão, junto ao outro poste. Apontando para ela de um jeito animado, tornou a pisar na corda.
Desta vez, pelo menos metade dos espectadores gritou para que o homem voltasse, que havia uma escada atrás dele. Os demais só fizeram soltar gargalhadas rotundas, sem dúvida torcendo para que quebrasse o pescoço. O homem atravessou a corda bamba tranquilamente, deslizou pela escada com as mãos e os pés nas laterais e apanhou a caneca de madeira para dar uma enorme golada. Foi só quando Luca estalou o chapéu vermelho na cabeça de Juilin e ambos se curvaram — Luca fazendo floreios com a capa que metade das vezes cobriam Juilin —, que os espectadores perceberam que tudo havia sido parte da apresentação. Houve um momento de silêncio, então todos explodiram em aplausos, vivas e gargalhadas. Chegara a passar pela cabeça de Nynaeve que as coisas fossem ficar feias depois de a plateia ter sido ludibriada. O sujeito de coque tinha um ar vil mesmo quando ria.