Caminhando junto do homem, Nynaeve o observava, admirada. Vira Uno pela última vez havia quase um ano, nunca falara mais de duas palavras com o sujeito, e ainda assim ele… Por que os homens sempre achavam que uma mulher precisava da ajuda deles? Eles não sabiam nem dar o laço nas próprias camisas sem ajuda de uma!
— Nós estamos muito bem, obrigada. A menos que você conheça algum comerciante com um barco que esteja para descer o rio.
— Nós? A mulher Azul está com você? Ou a Marrom? — Ele só podia estar falando de Moiraine e Verin. Estava sendo cauteloso, com certeza.
— Não. Você se lembra de Elayne? — Ele fez um meneio brusco, e Nynaeve resolveu provocá-lo. Nada parecia perturbar o homem, e era óbvio que ele pretendia assumir a responsabilidade pelo bem-estar dela. — Você acabou de vê-la. Disse que ela tinha… — Nynaeve fez uma voz mal-humorada para imitar a dele — … o rosto igual ao de uma maldita rainha.
Ficou satisfeita de ver o homem tropeçar e olhar ao redor com tanto ímpeto que até mesmo dois Mantos-brancos que passavam por ali decidiram contorná-lo, embora tenham tentado fingir que Uno não tinha nada a ver com aquilo, claro.
— Ela? — rosnou ele, incrédulo. — Mas o maldito cabelo estava negro feito um corvo… — O homem observou o cabelo de Nynaeve e, no instante seguinte, já estava andando novamente, resmungando meio que consigo mesmo. — Ela é filha de uma rainha, que a Luz me queime. De uma maldita rainha! Mostrando as pernas daquele jeito. — Nynaeve concordou. Até que ele prosseguiu: — Esses sulistas chamejados são um bando de esquisitos! Vocês não têm um pingo de decência! — Como se ele tivesse moral para falar! Os shienaranos podiam até se vestir de forma adequada, mas ela ainda ruborizava ao lembrar que, em Shienar, homens e mulheres tomavam banho juntos, e achavam isso tão normal quanto comer à mesma mesa.
— Sua mãe nunca lhe ensinou a falar com decência, homem?
O olho verdadeiro de Uno a encarou de modo quase tão sombrio quanto o pintado, e ele deu de ombros. Em Fal Dara, Uno e todos os demais haviam-na tratado como se fosse da nobreza, ou algo do tipo. Claro, era muito difícil se passar por uma lady naquele vestido, e com o cabelo em um tom que a natureza jamais criara. Nynaeve apertou mais o xale em torno do corpo e cruzou os braços para mantê-lo no lugar. A lã cinza era terrivelmente desconfortável naquele calor seco, e ela mesma estava escorrendo. Nunca ouvira falar de ninguém que tivesse morrido de tanto suar, mas pensou que poderia muito bem ser a primeira.
— O que está fazendo aqui, Uno?
O homem olhou em volta antes de responder. Não que tivesse necessidade. Havia pouco tráfego no caminho — uma carroça ou outra puxada por bois, algumas pessoas com roupas de camponeses ou ainda mais simples e, aqui e ali, um homem a cavalo — e ninguém parecia disposto a chegar mais perto dele do que precisava. Uno parecia capaz de cortar a garganta de alguém por puro capricho.
— A mulher Azul nos deu um nome em Jehannah e disse que deveríamos esperar lá até que ela mandasse instruções, mas a mulher em Jehannah estava morta e enterrada quando chegamos. Uma velha. Morreu dormindo, e nenhum dos parentes dela já tinha ouvido falar no nome da mulher Azul. Aí Masema começou a falar com as pessoas e… Bem, não havia razão para ficar lá esperando ordens que nunca ouviríamos, mesmo que viessem. Ficamos por perto de Masema porque ele nos repassa o suficiente para vivermos, embora ninguém, tirando Bartu e Nengar, dê ouvidos às baboseiras dele. — O coque grisalho sacudiu quando ele balançou a cabeça, irritado.
De repente, Nynaeve se deu conta de que não houvera nenhum xingamento naquelas frases. Ele parecia prestes a engolir a língua.
— Talvez você possa falar alguns palavrões. — Ela suspirou. — Que tal uma frase sim, outra não? — O homem sorriu para ela com tanta gratidão que a deixou exasperada. — Como é que pode Masema ter dinheiro e o restante de vocês não ter nenhum? — Ela se lembrava de Masema: um homem desagradável que não gostava de nada nem ninguém.
— Ora, ele é o maldito Profeta que todos vieram ouvir. Quer conhecê-lo? — Ele parecia estar contando as frases. Nynaeve respirou fundo. O homem levaria ao pé da letra o que quer que ela dissesse. — Ele poderia encontrar um maldito barco para você, caso você queira um. Em Ghealdan, o que o Profeta quer, o Profeta costuma conseguir. Não, ele sempre acaba conseguindo de um jeito ou de outro, aquele chamejado. O homem foi um bom soldado, mas quem poderia imaginar que se transformaria nisso? — O olhar de Uno percorreu os barracos toscos e o povo da cidade, incluindo os espetáculos e a cidade à frente.
Nynaeve hesitou. O temido Profeta, que incitava multidões e revoltas, era Masema? Mas ele realmente pregava a vinda do Dragão Renascido. Estavam agora quase no portão da cidade, e ainda tinha algum tempo antes que precisasse deixar Birgitte lhe atirar flechas. Luca ficara mais do que desapontado por a mulher ter insistido em ser chamada de Maerion. Se Masema conseguisse encontrar um barco que fosse descer o rio… Naquele mesmo dia, talvez. Por outro lado, havia as revoltas. Se os boatos tivessem aumentado tudo dez vezes, então apenas algumas centenas haviam morrido nas cidades e vilarejos mais ao norte. Apenas algumas centenas.
— Só não vá lembrá-lo de que você tem alguma coisa a ver com aquela maldita ilha — prosseguiu Uno, encarando-a com cautela. Então Nynaeve se deu conta de que era ele provavelmente não sabia qual era a verdadeira ligação dela com Tar Valon. Se tornar Aes Sedai não era o único motivo para uma Mulher ir até lá, afinal de contas, também podiam estar buscando ajuda ou respostas. Uno sabia que ela tinha algum tipo de envolvimento, mas não mais que isso. — Ele gosta tanto das mulheres de lá quanto os Mantos-brancos. Se você mantiver a boca bem caladinha sobre esse maldito assunto, é provável que ele ignore. Para alguém que é do mesmo vilarejo que o Lorde Dragão, Masema pode mandar até construírem um barco.
Havia mais gente junto aos portões da cidade, flanqueados por atarracadas torres cinzas, com homens e mulheres entrando e saindo, a pé e em montarias, trajando todo tipo de vestimenta, desde farrapos até vestidos e casacos de seda bordados. Os próprios portões, espessos e revestidos de ferro, estavam abertos sob a guarda de uma dúzia de lanceiros em túnicas escamadas e elmos redondos de ferro com abas achatadas. Na realidade, os guardas prestavam mais atenção na meia dúzia de Mantos-brancos ali perto do que em qualquer outra coisa. Eram os homens em mantos cor de neve e armaduras brilhosas que observavam o ir e vir das pessoas.
— Os Mantos-brancos criam muitos problemas? — indagou ela, calma.
Uno moveu a boca como se fosse cuspir, olhou para ela, e não cuspiu.
— E onde é que esses chamejados não criam? Tinha uma mulher em um desses espetáculos itinerantes que fazia truques de mágica. Quatro dias atrás, uns cabeças de ovelha destruíram todo o espetáculo. — Valan Luca com certeza nunca mencionara aquilo! — Paz! O que eles queriam era a mulher. Diziam que ela era… — ele olhou fixamente para o povo que passava apressado e baixou a voz — … Aes Sedai. E Amiga das Trevas. Quebraram o maldito pescoço dela só para colocá-lo na corda, ouvi dizer, mas enforcaram o cadáver da mulher mesmo assim. Masema mandou decapitar os chefes da quadrilha, mas foram os Mantos-brancos que incitaram a gentalha. — A careta do homem combinou com o olho vermelho pintado no tapa-olho. — Tem havido muitos desses enforcamentos e decapitações, se você quer saber o que este infeliz aqui pensa. O desgraçado do Masema é tão cruel quanto os malditos Mantos-brancos quando o assunto é encontrar um Amigo das Trevas debaixo de cada maldita pedra.
— Uma frase sim, outra não — murmurou Nynaeve, e o homem chegou até a ruborizar.
— Não sei onde eu estou com a cabeça — resmungou, parando de andar. — Não posso levar você até lá. É metade festival, metade confusão, com um ladrão a cada três passos, e mulher nenhuma fica em segurança depois que escurece. — Ele soou mais escandalizado com a última informação do que com o resto. Em Shienar, as mulheres estavam sempre seguras em qualquer lugar, exceto de Trollocs e de Myrddraal, claro, e qualquer homem faria de tudo para garantir isso. — Não é seguro. Vou levar você de volta. Quando eu descobrir uma solução, venho te buscar.