Aquilo encerrou a questão para ela. Desvencilhando o braço antes que ele pudesse segurá-lo, ela apertou o passo em direção aos portões.
— Venha comigo, Uno, e não enrole. Se enrolar, vai ficar para trás.
O homem a alcançou, resmungando a respeito da teimosia das mulheres. Assim que compreendeu que ele estava falando sozinho e que, aparentemente, sua reclamação sobre os palavrões não valia para essas situações, Nynaeve parou de escutar.
39
Encontros em Samara
Os Mantos-brancos nos portões deram a Uno e Nynaeve a mesma importância que davam a qualquer outra pessoa naquele fluxo ininterrupto, o que significava um olhar frio, desconfiado e inquisitivo, ainda que rápido. O excesso de gente impossibilitava qualquer outra coisa mais demorada, e talvez os guardas com aquelas armaduras escamadas também ajudassem. Não que houvesse motivo para mais, a não ser na cabeça dela. Tanto o anel da Grande Serpente quanto o pesado anel de ouro de Lan estavam aninhados em sua bolsinha — por conta da gola baixa do vestido, não pôde usá-los no cordão —, mas ainda assim parte dela esperava que os Filhos da Luz identificassem instintivamente uma mulher treinada na Torre. Sentiu um alívio palpável quando aqueles olhos gelados e insensíveis se desviaram dela.
Os soldados também prestaram pouca atenção aos dois — assim que ela tornou a rearrumar o xale. A cara feia de Uno podia até ter ajudado a mandar os olhos dos homens de volta para os Mantos-brancos, mas o shienarano não tinha o direito de fazer cara feia, para começo de conversa. Aquilo ficava a cargo dela.
Nynaeve tornou a enrolar a lã cinza e amarrou as extremidades ao redor da cintura. O xale era mais justo no busto do que gostaria, e ainda expunha um pouco do decote, mas ainda era uma melhora considerável em comparação ao vestido. Pelo menos não teria que se preocupar com o xale escorregando. Só queria que aquele troço não fosse tão quente. O clima não deveria mesmo demorar a virar. Não estavam tão ao sul de Dois Rios.
Desta vez, Uno esperou pacientemente por Nynaeve. Ela não soube dizer se foi por mera gentileza — seu rosto marcado pela cicatriz parecia um tanto paciente demais —, mas os dois, por fim, chegaram juntos em Samara. E, juntos, adentraram o caos.
Era um grande burburinho, sem nenhum som particularmente discernível. As pessoas lotavam as rústicas ruas de pedra, das tavernas com telhado de ardósia aos estábulos com tetos de palha, das estalagens com placas simples onde se lia “O Touro Azul” ou “O Ganso Dançarino”, todas lotadas, às lojas com placas desenhadas, não escritas, com uma faca e uma tesoura aqui, uma peça de tecido ali, a balança de um ourives ou a lâmina de um barbeiro, um pote, uma lamparina ou uma bota. Nynaeve via rostos pálidos como os dos andorianos e escuros como os do Povo do Mar, alguns limpos, outros sujos, com casacos de golas altas, baixas, sem gola nenhuma, com cores opacas e brilhantes, comuns e bordados, surrados e novinhos em folha, de estilos estranhos e familiares em igual quantidade. Um sujeito com uma barba escura bifurcada usava correntes de prata atravessadas no peitoral do casaco azul, e dois outros, com tranças no cabelo — homens com tranças pretas até o ombro e cobrindo as orelhas! — tinham minúsculos sinos de latão costurados às mangas do casaco vermelho e nos canos das botas que subiam até a coxa. Qualquer que fosse a terra de onde vinham, aqueles dois não tinham nada de tolos. Seus olhos escuros eram penetrantes e inquisitivos como os de Uno, e ambos carregavam espadas curvas às costas. Um homem de peito nu trajando uma cinta amarela brilhante, a pele de um marrom mais escuro que madeira envelhecida e mãos com intricadas tatuagens, só podia ser do Povo do Mar, embora não usasse nem brincos nem anéis no nariz.
Também havia mulheres de todos os tipos, cabelos que iam do preto de um corvo ao loiro quase branco, trançados, presos ou soltos, bem curtos, na altura dos ombros, na cintura, com vestidos de lã surrada, de puro linho ou de sedas reluzentes, com golas rendadas ou bordadas até o queixo, e decotes tão profundos quanto o que ela escondia. Nynaeve chegou até a avistar uma domanesa de pele acobreada trajando um vestido vermelho quase transparente que a cobria até o pescoço, mas que não escondia praticamente nada! Ficou se perguntando se a mulher estaria em segurança quando escurecesse. Ou até mesmo em plena luz do dia.
Os Mantos-brancos e soldados que surgiam ocasionalmente em meio àquela massa de gente pareciam sufocados, penando tanto quanto os demais para se locomover. Carroças de boi ou carroções puxados por cavalos se emparelhavam ao longo das ruas que se entrecortavam de modo aleatório. Carregadores transportavam liteiras pelo meio da confusão, e, de vez em quando, uma carruagem laqueada com parelhas de quatro ou cinco animais emplumados seguia seu penoso caminho, lacaios fardados e guardas com elmos de aço tentando, em vão, abrir passagem. Músicos com flautas, cítaras ou sabiolas tocavam em todas as esquinas onde não havia um malabarista ou um acrobata — nada que fosse deixar Thom ou os Chavanas preocupados —, sempre com um outro homem ou mulher segurando um chapéu para coletar moedas. Mendigos maltrapilhos ziguezagueavam pela multidão, puxando mangas e estendendo mãos encardidas, e mascates andavam apressados com bandejas que continham de tudo, de alfinetes a fitas e peras, seus gritos se perdendo naquela balbúrdia.
Nynaeve já estava tonta quando Uno a puxou para uma rua mais estreita na qual a multidão parecia menor, em comparação. Antes de segui-lo, ela parou para endireitar as roupas, que haviam se desarrumado na confusão. Ali também estava ligeiramente mais tranquilo. Nada de artistas de rua e bem menos mascates e mendigos. Estes se mantinham longe de Uno, mesmo depois de o homem ter jogado algumas moedas de cobre para um ressabiado grupo de moleques, pelo que Nynaeve não os censurava. Uno simplesmente não parecia… caridoso.
Apesar de terem apenas dois ou três andares, as edificações da cidade se avultavam sobre aquelas vias estreitas, sombreando-as. Mas o céu estava claro, faltavam algumas horas até o crepúsculo. Tempo de sobra para voltar para o espetáculo. Se tivesse de voltar. Com sorte, ao pôr do sol, todos poderiam estar tomando seus lugares em uma embarcação.
Nynaeve levou um susto quando outro shienarano se juntou a eles de repente, espada às costas e cabeça toda raspada, a não ser pelo coque. Era um homem de cabelo escuro só um pouco mais velho que ela. Sem diminuir o passo, Uno fez apresentações e explicações breves.
— Que a paz a favoreça, Nynaeve — cumprimentou Ragan, a pele escura da bochecha fazendo uma covinha em torno de uma cicatriz triangular branca. Mesmo sorrindo, ele tinha o rosto duro. Nynaeve nunca conhecera um shienarano delicado. Homens delicados não sobreviviam na Praga. Tampouco mulheres delicadas. — Eu me lembro de você. Seu cabelo era diferente, não era? Não importa. Não tema. Nós vamos levá-la em segurança até Masema e onde quer que vá depois. Só tenha o cuidado de não mencionar Tar Valon a ele. — Ninguém olhava para o trio duas vezes, mas, mesmo assim, o homem baixou a voz: — Masema acha que a Torre vai tentar controlar o Lorde Dragão.
Nynaeve balançou a cabeça. Mais um tolo para tomar conta dela. Pelo menos ele não tentou ficar puxando conversa. Com o humor que estava, Nynaeve teria rosnado mesmo para um mero comentário sobre o calor. Sentia o rosto úmido, o que não era surpresa, dado o xale que precisava usar mesmo naquele clima. De repente, lembrou-se do que o caolho dissera a respeito da opinião de Ragan sobre sua língua. Nynaeve não fez mais que olhar de soslaio para ele, mas o shienarano passou para o outro lado de Uno, como se quisesse se proteger, e encarou-a com cautela. Homens!