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As ruas ficaram ainda mais estreitas, e, apesar de os prédios de pedra alinhados por ali não terem ficado menores, ela notou que aquelas ruelas davam para os fundos dos edifícios, para muros cinzentos que escondiam pequenos jardins. Os três finalmente chegaram a uma viela cuja largura mal permitia que caminhassem lado a lado. No extremo oposto, uma carruagem laqueada e dourada estava cercada por homens de armaduras escamadas. Um pouco mais perto, a meio caminho entre Nynaeve e o veículo, alguns sujeitos rondavam os dois lados da viela. Em uma miscelânea de casacos, a maior parte deles segurava clavas, lanças ou espadas tão variadas quanto as vestimentas. Podiam ser uma gangue, mas, como nenhum dos shienaranos diminuiu o passo, ela também não se deteve.

— A rua ali da frente vai estar cheia de tolos malditos torcendo para conseguir ver Masema em uma maldita janela — murmurou Uno, apenas para o ouvido de Nynaeve. — O único jeito de entrar é por trás. — Ele ficou em silêncio quando os três se aproximaram o suficiente para que os homens que aguardavam conseguissem escutar.

Dois desses homens eram soldados com elmos de aço com abas e túnicas escamadas, espadas na cintura e lanças na mão, mas foram os outros que examinaram os três recém-chegados e tocaram as armas. Tinham olhos perturbadores, excessivamente determinados, quase febris. Pela primeira vez, ela teria ficado feliz de receber um bom olhar lascivo. Aqueles homens não davam a mínima se ela era uma mulher ou um cavalo.

Sem dizer uma palavra, Uno e Ragan desafivelaram as espadas embainhadas das costas e as entregaram, junto com as adagas, para um homem de rosto rechonchudo que, pelo aspecto das calças e do casaco de lã azul que usava, devia ter sido comerciante. Aquelas roupas já haviam sido boas. Estavam limpas, mas bastante usadas, além de amarrotadas, como se tivesse dormido com elas por um mês. Ele claramente reconheceu os shienaranos, e, embora tenha franzido o rosto para ela por um momento, em especial para a faca que trazia na cintura, assentiu em silêncio para um estreito portão de madeira na parede de pedra. Aquele talvez tenha sido o fato mais perturbador de todos: nenhum deles emitiu um som sequer.

Do outro lado da parede havia um pequeno pátio onde ervas daninhas brotavam entre os paralelepípedos. A alta casa de pedra — três amplos andares cinza-claros, com janelas largas e calhas e cumeeiras ornamentadas, além do teto de telhas vermelho-escuras — devia ter sido uma das melhores de Samara. Assim que o portão se fechou atrás deles, Ragan sussurrou:

— Houve tentativas de assassinar o Profeta.

Nynaeve levou um momento para se dar conta de que ele estava explicando por que as armas haviam sido entregues.

— Mas vocês são amigos dele — protestou ela. — Todos vocês seguiram Rand até Falme juntos. — Não ia começar a chamá-lo de Lorde Dragão.

— É por isso que a gente ainda pode entrar — retrucou Uno, seco. — Eu falei que nós não vemos as coisas como… o Profeta vê. — A hesitação e a olhadela rápida para o portão logo atrás, para ver se alguém estava ouvindo, foram extremamente reveladoras. Antes, ele o chamara de Masema. E estava claro que Uno era um homem cujo linguajar não era amenizado com facilidade.

— Preste atenção no que diz ao menos uma vez — aconselhou Ragan —, e é provável que receba a ajuda que deseja.

Nynaeve assentiu da maneira mais agradável que qualquer pessoa poderia esperar — reconhecia bom senso sempre que o escutava, ainda que o homem não tivesse o direito de oferecê-lo —, e Ragan e Uno trocaram olhares cheios de suspeitas. Nynaeve ia enfiar aqueles dois em uma saca junto com Thom e Juilin e bater neles com a primeira coisa que visse.

A casa era bonita, mas a cozinha estava empoeirada e vazia, exceto por uma mulher magrela e grisalha com um vestido cinza sem graça e um avental branco que eram os únicos itens limpos à vista, quando os três cruzaram o local. Chupando os dentes, a velha mal tirou os olhos da chaleirinha de sopa que vinha mexendo sobre uma minúscula chama em uma das lareiras de pedra. Duas panelas bem surradas estavam penduradas em ganchos que podiam abrigar vinte delas, e uma tigela de cerâmica rachada em uma bandeja de laca azul repousava na mesa ampla.

Passando a cozinha, tapeçarias de qualidade razoável decoravam as paredes. Nynaeve desenvolvera certo conhecimento no ano anterior, e aquelas cenas de banquetes e caçadas de veados, ursos e javalis eram só boas, não excelentes. Cadeiras, mesas e baús se enfileiravam nos corredores, artigos de laca escura com camadas de vermelho e madrepérolas incrustadas. As tapeçarias e a mobília também estavam empoeiradas, e o piso com ladrilhos vermelhos e brancos só vira uma passada indiferente de vassoura. Teias de aranha ornavam os cantos e cornijas do teto alto de gesso.

Não encontraram outros serviçais — ou mais ninguém — até alcançarem um sujeito magricela sentado no chão ao lado de uma porta aberta, o casaco vermelho de seda encardido grande demais para ele, além de destoar da camisa imunda e da calça de lã surrada. Uma das botas rachadas tinha um buraco bem grande na sola, e um dedo surgia através de outro buraco na outra bota. O homem levantou a mão e sussurrou:

— Que a Luz brilhe sobre vocês, e que louve o nome do Lorde Dragão? — Ele fez soar como uma pergunta, o rosto estreito e tão sujo quanto a camisa contorcido em uma careta irritada, mas então deu o mesmo tom para todo o resto: — O Profeta não pode ser perturbado agora? Está ocupado? Vocês vão ter que esperar um pouco? — Uno aquiesceu, pacientemente, e Ragan se inclinou contra a parede. Já haviam passado por aquilo antes.

Nynaeve não sabia o que esperara do Profeta, nem agora que já estava ciente de quem ele era, mas com certeza não fora sujeira. Aquela sopa tinha cheiro de repolho e batatas, bem longe do cardápio adequado para um homem que tinha uma cidade inteira a seus pés. E só dois serviçais, ambos podendo muito bem ter vindo das cabanas mais rústicas da parte externa da cidade.

O guarda esquelético, se é que era mesmo um guarda — não tinha arma, e talvez também não fosse de confiança —, não fez objeção quando Nynaeve foi até um ponto de onde conseguia enxergar porta adentro. O homem e a mulher no cômodo não podiam ser mais diferentes. Masema raspara até o coque, e seu casaco era de lã marrom bem simples, bastante amarrotado, mas limpo, ainda que as botas até os joelhos estivessem gastas. Olhos fundos transformavam sua expressão dura em uma carranca constante, e uma cicatriz formava um pálido triângulo em sua bochecha escura, quase igual à cicatriz de Ragan, apenas mais tênue por conta da idade e um fiapo mais próxima do olho. A mulher, vestida de modo elegante com seda azul bordada em ouro, estava chegando na meia-idade e era bem bonita, apesar do nariz comprido demais. Uma touca simples de redinha azul prendia o cabelo escuro que ia até a cintura, mas ela usava um enorme colar de ouro e gotas de fogo com um bracelete combinando, e anéis com gemas decoravam quase todos os dedos. Enquanto Masema parecia pronto para entrar em ação, os dentes à mostra, ela demonstrava enfado com graciosidade e discrição majestosas.

— … tantos o seguem aonde quer que você vá — ela estava dizendo —, que qualquer sinal de ordem sai voando pelos ares quando você chega. As pessoas não estão seguras sozinhas ou em suas propriedades…

— O Lorde Dragão quebrou todos os elos da lei, todos os elos feitos por homens e mulheres mortais. — A voz de Masema era acalorada, mas de intensidade, não de raiva. — As Profecias dizem que o Lorde Dragão quebrará todas as correntes que prendem, e assim é. O brilho do Lorde Dragão nos protegerá contra a Sombra.

— Não é a Sombra a ameaça aqui, e sim ladrões, oportunistas e esmagadores de cabeças. Alguns dos que seguem você, muitos deles acham que podem pegar o que bem entenderem de quem quer que seja sem pagar ou pedir licença.