— Há justiça na eternidade, quando voltarmos a nascer. Preocupar-se com as coisas deste mundo é inútil. Mas, muito bem, se você deseja a justiça precoce — os lábios dele se curvaram de maneira desdenhosa —, então que seja a seguinte: de agora em diante, qualquer homem que roubar terá a mão direita amputada; o homem que assediar uma mulher, insultar sua honra ou cometer um assassinato será enforcado; e uma mulher que roubar ou cometer um assassinato será açoitada. Se alguém fizer uma acusação e encontrar doze pessoas que a confirmem, será feito. Que assim seja.
— Como você disser, claro — murmurou a mulher. Manteve uma expressão altiva e elegante, mas soou abalada. Nynaeve não sabia como a lei de Ghealdan funcionava, mas achava que não era tão casual assim. A mulher respirou fundo. — Ainda há o problema da comida. Está ficando difícil alimentar tanta gente.
— Todos os homens, mulheres e crianças que vieram até o Lorde Dragão precisam ter a barriga cheia. É preciso que seja assim! Onde é possível encontrar ouro também é possível encontrar comida, e há ouro demais no mundo. Muita preocupação com o ouro. — Masema balançou a cabeça furiosamente. Não com raiva dela, mas de tudo. Parecia estar à procura daqueles que se preocupavam com riquezas para poder despejar a fúria em suas cabeças. — O Lorde Dragão renasceu. A Sombra paira sobre o mundo, e só o Lorde Dragão pode nos salvar. Só a crença no Lorde Dragão, a submissão e a obediência às palavras do Lorde Dragão. Todo o resto não serve para nada, mesmo onde não há blasfêmia.
— Abençoado na Luz seja o nome do Lorde Dragão. — A frase soou como uma resposta rotineira. — Não se trata mais de uma simples questão a respeito de ouro, Milorde Profeta. Encontrar e transportar comida suficiente…
— Eu não sou lorde — interrompeu ele outra vez, agora com raiva. Inclinou-se na direção da mulher, os lábios molhados de cuspe, e, embora o rosto dela não tenha se alterado, as mãos se contraíram como se quisessem apertar o vestido. — Não existe outro lorde além do Lorde Dragão, em quem a Luz habita, e eu não passo de uma humilde voz do Lorde Dragão. Não se esqueça disso! Altos ou baixos, blasfemadores só recebem flagelos!
— Perdoe-me — murmurou a mulher repleta de joias, espalhando as saias em uma reverência própria para a corte de uma rainha. — É como você diz, claro. Não há lorde além do Lorde Dragão, e eu não passo de uma humilde seguidora do Lorde Dragão, abençoado seja seu nome, que vem para ouvir a sabedoria e a orientação do Profeta.
Masema limpou a boca com o dorso da mão, ficando frio de repente.
— Você usa ouro demais. Não permita que posses mundanas lhe seduzam. O ouro é um entulho. O Lorde Dragão é tudo.
Imediatamente, ela começou a retirar os anéis dos dedos, e, antes que o segundo deles estivesse fora, o sujeito magricela apressou-se para perto dela, puxou uma bolsinha do casaco e segurou-a para que a mulher depositasse as joias lá dentro. O bracelete e o colar também foram.
Nynaeve olhou para Uno e ergueu uma sobrancelha.
— Todas as moedas vão para os pobres — disse ele em um tom de voz baixo que mal chegou aos ouvidos dela —, ou para alguém que precisa. Se uma mercadora qualquer não tivesse dado a ele a maldita casa, ele estaria em um maldito estábulo ou em uma daquelas cabanas fora da cidade.
— Até a comida dele é dada — completou Ragan, com a mesma tranquilidade. — Costumavam trazer pratos adequados para um rei, até descobrirem que ele distribuía tudo e só ficava com um pãozinho, uma sopa ou um ensopado. Ele mal bebe vinho, ultimamente.
Nynaeve balançou a cabeça. Era uma forma de conseguir dinheiro para os pobres… Roubar alguém que não fosse pobre. Claro que, no fim das contas, aquilo faria com que todos fossem pobres, mas talvez desse certo por um tempo. Ela se perguntou se Uno e Ragan sabiam mesmo o que aconteceria com as joias. Pessoas que afirmavam estar coletando dinheiro para ajudar os outros costumavam ter um jeito de deixar boa parte nos próprios bolsos, ou então apreciavam o poder que distribuí-lo por aí lhes conferia, e apreciavam em excesso. Nynaeve via com melhores olhos um homem que dava espontaneamente uma moeda do próprio bolso do que o sujeito que arrancava uma coroa de ouro do bolso de outra pessoa. E gostava menos ainda de tolos que abandonavam suas fazendas e lojas para seguir este… este Profeta, e sem ter nenhuma ideia de onde viria a próxima refeição.
Dentro do aposento, a mulher dirigiu a Masema uma reverência ainda mais respeitosa que a anterior, espalhando as saias e curvando a cabeça.
— Até que eu tenha a honra de ouvir de novo as palavras e o aconselhamento do Profeta. Que o nome do Lorde Dragão seja abençoado na Luz.
Masema acenou para ela de modo ausente, já distraído. Havia visto os três no corredor e estava olhando para eles com o máximo de prazer que seu rosto austero permitia. Não era grande coisa. A mulher foi embora sem parecer notar Nynaeve ou os dois homens. Nynaeve fungou quando o sujeito magricela de casaco vermelho acenou ansiosamente para que eles entrassem. Para alguém que acabara de ser obrigada a abrir mão de suas joias, a mulher conseguia exibir um belo ar majestoso.
O homem magrelo voltou à toda para seu lugar junto da porta enquanto os outros três homens apertavam as mãos à moda das Terras da Fronteira, segurando os antebraços.
— Que a paz favoreça a sua espada — saudou Uno, seguido por Ragan.
— Que a paz favoreça o Lorde Dragão — respondeu o homem —, e que a Luz dele nos ilumine a todos. — Nynaeve arquejou. Não havia dúvida do significado daquilo: o Lorde Dragão era a fonte da Luz. E ele tinha coragem de falar da blasfêmia dos outros! — Decidiram finalmente vir à Luz?
— Nós andamos na Luz — retrucou Ragan, cauteloso. — Como sempre. — Uno se manteve calado, o rosto inexpressivo.
Um ar de paciência desgastada dava um aspecto estranho às feições amargas de Masema.
— Não há outro caminho para a Luz que não através do Lorde Dragão. No fim, vocês vão ver o caminho e a verdade, pois já viram o Lorde Dragão, e só aqueles cujas almas estão engolidas pela Sombra é que podem ver e não acreditar. Vocês não são desse tipo. Vão acreditar.
Apesar do calor e do xale de lã, os braços de Nynaeve ficaram arrepiados. O homem falava com plena convicção, e, assim de perto, ela enxergava naqueles olhos negros um lampejo que beirava a loucura. Ele a varreu com os olhos, e seus joelhos se enrijeceram. O homem fazia o Manto-branco mais raivoso que já vira parecer meigo. Aqueles sujeitos na viela não passavam de uma débil imitação do mestre.
— Você, mulher. Está pronta para vir para a Luz do Lorde Dragão e abandonar o pecado e a carne?
— Eu caminho na Luz o melhor que posso. — Nynaeve se irritou ao se ver falando com tanta cautela quanto Ragan. Pecado? Quem ele pensava que era?
— Você está preocupada demais com a carne. — O olhar de Masema era fulminante ao percorrer o vestido vermelho e o xale enrolado bem apertado em torno do corpo.
— E o que você quer dizer com isso? — Os olhos de Uno se arregalaram de surpresa, e Ragan gesticulou discretamente para ela se calar, mas a chance de Nynaeve parar era a mesma de sair voando. — Acha que tem direito de dizer como eu devo me vestir? — Antes que se desse conta do que estava fazendo, já havia desamarrado o xale e o enrolado nos cotovelos. Estava calor demais, de qualquer jeito. — Homem nenhum tem esse direito, nem sobre mim e nem sobre qualquer outra mulher! Se eu decidisse sair nua, isso não seria da sua conta!
Masema contemplou o busto de Nynaeve por um momento — nenhum quê de admiração se acendeu em seus olhos profundos, apenas um desdém ácido —, e então levantou o olhar para o rosto. O olho verdadeiro e o olho pintado de Uno estavam combinando à perfeição, uma careta reprovadora, e Ragan se encolheu, por certo resmungando sozinho em seus pensamentos.