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Nynaeve engoliu em seco. Não prestou muita atenção no que disse, afinal. Talvez, pela primeira vez na vida, estava realmente arrependida por ter falado sem pensar. Se aquele homem era capaz de ordenar que mãos fossem amputadas e pessoas, enforcadas, e só com um julgamento superficial, o que mais não faria? Ela achava que estava com raiva suficiente para canalizar.

Mas, se canalizasse… Se Moghedien ou qualquer uma das irmãs Negras estivesse em Samara… Mas se eu não canalizar…! Queria muito tornar a enrolar o xale em volta do corpo, até o queixo. Mas não com ele encarando-a. Alguma coisa no fundo da mente lhe gritava que não agisse como uma completa cabeça oca — só os homens deixavam o orgulho se sobrepor ao bom senso —, mas Nynaeve devolveu o olhar de Masema, mesmo que tenha tido que ficar atenta para não voltar a engolir em seco.

Ele franziu os lábios.

— Estas roupas só são usadas para incitar os homens, e por nenhum outro motivo. — Ela não entendia como a voz dele podia ser tão fervorosa e tão gélida ao mesmo tempo. — Pensar na carne distrai a mente do Lorde Dragão e da Luz. Já considerei banir vestidos que distraiam os olhos e a mente dos homens. Mas deixe que essas mulheres que perdem tempo atraindo homens e os homens que perseguem mulheres sejam flagelados até se darem conta de que é só na perfeita contemplação do Lorde Dragão e da Luz que a alegria pode ser encontrada. — Ele já não olhava mais para ela. Aquele olhar sombrio e ardente a atravessava, buscando algo distante. — Deixe que as tavernas, os estabelecimentos que vendem bebidas fortes e todos os lugares que tiram a mente das pessoas dessa perfeita contemplação fecharem e queimarem até serem destruídos. Frequentei lugares assim nos meus dias de pecado, mas agora me arrependo de coração, assim como todos deveriam se arrepender de suas transgressões. Só há o Lorde Dragão e a Luz! Todo o resto é uma ilusão, uma cilada armada pela Sombra!

— Esta é Nynaeve al’Meara — afirmou Uno, mais do que depressa, na primeira pausa que o homem fez para respirar. — De Campo de Emond, em Dois Rios, de onde vem o Lorde Dragão. — A cabeça de Masema se virou devagar para o caolho, e ela aproveitou a oportunidade para rearrumar depressa o xale. — Ela estava em Fal Dara com o Lorde Dragão, e em Falme. O Lorde Dragão resgatou-a em Falme. O Lorde Dragão a tem como uma mãe.

Nynaeve quis lhe dizer mais alguns impropérios, e talvez acrescentar uma boa bofetada na orelha. Rand não a resgatara — ou não exatamente, enfim — e ela era só alguns poucos anos mais velha que ele. Como uma mãe!

Masema voltou a se virar para ela. A luz zelosa que antes ardera em seus olhos não era nada comparada com a de agora. Eles quase brilhavam.

— Nynaeve. Sim. — A voz dele se acelerou. — Sim! Eu me lembro do seu nome e do seu rosto. Abençoada seja você entre as mulheres, Nynaeve al’Meara, mais que nenhuma outra, exceto a própria abençoada mãe do Lorde Dragão, já que você viu o Lorde Dragão crescer. Você cuidou do Lorde Dragão criança. — Ele a agarrou pelos braços, os dedos firmes apertando-a dolorosamente, mas o homem parecia não se dar conta. — Você vai falar para as multidões sobre a infância do Lorde Dragão, sobre suas primeiras palavras sábias, sobre os milagres que o acompanharam. A Luz a enviou aqui para servir ao Lorde Dragão.

Ela não sabia ao certo o que dizer. Nunca houvera milagres em torno de Rand que ela tivesse visto. Ouvira falar de algumas coisas em Tear, mas não se podia chamar o que um ta’veren causava de milagres. Não mesmo. Até o que acontecera em Falme tinha uma explicação racional. Mais ou menos. E, quanto a palavras sábias, as primeiras que ouvira dele fora uma promessa fervorosa de nunca mais atirar pedras em ninguém, feita depois que ela dera umas palmadas em seu jovem traseiro por conta da transgressão. Não achava que, desde então, tivesse ouvido alguma outra palavra que chamaria de sábia. De todo modo, se Rand tivesse dado conselhos sábios desde o berço, mesmo que cometas tivessem surgido à noite e espíritos no céu de dia, ela não teria permanecido na companhia daquele maluco.

— Preciso viajar rio abaixo — informou, hesitante. — Para me juntar a ele. Ao Lorde Dragão. — O nome deixou um gosto amargo em sua língua, pronunciado cedo demais depois de ela prometer a si mesma que não o chamaria assim. Mas parecia que Rand nunca era tratado por algo tão simples quanto um mero “ele” pelo Profeta. Só estou sendo sensata. Só isso. “Um homem é um carvalho; uma mulher, um salgueiro”, dizia o ditado. O carvalho lutava contra o vento e se quebrava, enquanto o salgueiro se curvava quando precisava e sobrevivia. Não significava que ela gostava de se curvar. — Ele… o Lorde Dragão… está em Tear. O Lorde Dragão me convocou a ir até lá.

— Tear. — Masema a soltou, e Nynaeve, discretamente, esfregou os braços. Mas nem precisava ter sido discreta. O homem tinha voltado a olhar para algo fora do alcance da vista. — Sim, ouvi falar. — Também falava para algo fora do alcance da vista, ou para si mesmo. — Quando Amadícia aderir ao Lorde Dragão, como fez Ghealdan, vou conduzir as pessoas a Tear para que se regozijem no esplendor do Lorde Dragão. Enviarei discípulos para espalhar a palavra do Lorde Dragão por Tarabon e Arad Doman até Saldaea, Kandor e as Terras da Fronteira, até Andor, e vou conduzir as pessoas para se ajoelhar aos pés do Lorde Dragão.

— Um plano sábio… hã… ó Profeta do Lorde Dragão. — Um plano dos mais tolos, isso sim. O que não queria dizer que não fosse funcionar. Por algum motivo, os planos tolos dos homens costumavam dar certo. Rand poderia até gostar de ter toda aquela gente se ajoelhando, caso tivesse metade da arrogância que Egwene afirmava. — Mas nós… eu não posso esperar. Fui convocada, e, quando o Lorde Dragão convoca, meros mortais devem obedecer. — Ainda ia dar uma bofetada na orelha de Rand por ter sido obrigada a dizer aquilo! — Tenho que encontrar um barco que esteja para descer o rio.

Masema encarou-a por tanto tempo que ela começou a ficar nervosa. O suor lhe escorria pelas costas e entre os seios, e só em parte por causa do calor. Aquele olhar teria feito até Moghedien suar.

Por fim, o homem assentiu, o fanatismo ardente desaparecendo para dar lugar apenas à carranca sorumbática.

— Sim. — Ele suspirou. — Se você foi convocada, deve ir. Vá com a Luz, e na Luz. Vista-se de maneira mais apropriada, pois os que já estiveram perto do Lorde Dragão precisam ser mais virtuosos que todos os demais, e medite sobre o Lorde Dragão e a Luz.

— E um barco? — insistiu Nynaeve. — Você deve ficar sabendo sempre que um barco chega em Samara ou em qualquer vilarejo ao longo do rio. Se me disser onde posso encontrar um, tornaria minha jornada muito mais… rápida. — Ela ia dizer “mais fácil”, mas achou que Masema não se importaria muito com facilidades.

— Eu não me preocupo com esse tipo de coisa — retrucou ele, mal-humorado. — Mas você tem razão. Quando o Lorde Dragão ordena, é preciso ser pontual. Vou perguntar. Se uma embarcação for localizada, alguém vai acabar me informando. — Os olhos dele pularam para os dois outros homens. — Vocês devem garantir que ela fique em segurança até lá. Caso insista em se vestir desta maneira, vai atrair homens de pensamentos vis. Ela precisa ser protegida, feito uma criança desobediente, até que possa reencontrar o Lorde Dragão.

Nynaeve se segurou para não dizer nada. Um salgueiro, não um carvalho, quando era preciso ser um salgueiro. Conseguiu mascarar a irritação com um sorriso tão grato quanto aquele idiota esperava. Um idiota perigoso, no entanto. Ela precisava se lembrar disso.

Uno e Ragan se despediram depressa com mais apertos de antebraço e levaram-na embora às pressas, um segurando em cada braço, como se achassem que era necessário afastá-la rápido de Masema, por algum motivo. O homem parecia já ter se esquecido dos três antes mesmo que chegassem à porta; estava franzindo o rosto para o sujeito magricela, que esperava ao lado de um camarada rústico trajando um casaco de fazendeiro e amassando a boina com as mãos robustas, com uma expressão admirada no rosto largo.