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Nynaeve não disse nenhuma palavra enquanto refaziam os passos pela cozinha, onde a mulher de cabelo grisalho mexia a sopa como se não tivesse se movido durante aquele ínterim. Permaneceu de bico calado enquanto os homens recuperavam as armas, mantendo-se em silêncio até já estarem caminhando pela viela e depois em algo cuja largura se aproximava da de uma rua. Então, partiu para cima dos dois, sacudindo o dedo diante do nariz de cada um alternadamente.

— Como ousam me arrastar para fora daquele jeito? — As pessoas que passavam abriam sorrisos, os homens com pesar, e as mulheres com aprovação, embora ninguém tivesse a mínima ideia do motivo da briga. — Mais cinco minutos e eu teria obrigado aquele homem a encontrar um barco hoje mesmo! Se vocês tornarem a encostar as mãos em mim…! — Uno bufou tão alto que ela se interrompeu com o susto.

— Mais cinco malditos minutos e Masema é que teria posto as malditas mãos em você. Ou teria dito que alguém deveria fazer isso, e então algum chamejado teria feito! Quando ele diz que alguma coisa deve ser feita, sempre tem cinquenta mãos, ou cem, ou mil, se for preciso, para obedecer!

Ele saiu andando a passos largos, Ragan ao lado, e ela precisou acompanhar, ou ficaria para trás. Uno seguiu em frente como se soubesse que ela viria. Nynaeve quase foi na direção oposta só para provar que ele estava enganado. Segui-lo não tinha nada a ver com qualquer medo de se perder naquele ninho de rato em forma de ruas. Ela teria sido capaz de encontrar a saída. Em algum momento.

— Ele ordenou que um Lorde do Alto Conselho da Coroa fosse chicoteado… chicoteado!… e por ter só metade da insolência que você tinha na voz — rosnou o caolho. — Desacato à palavra do Lorde Dragão, segundo ele. Paz! Questionar que direito ele tinha de comentar das suas roupas! Por alguns minutos, você até se saiu bastante bem, mas eu vi a sua cara no final. Estava pronta para partir de novo para o ataque. A única coisa pior que poderia ter feito seria dizer o maldito nome do Lorde Dragão. Ele diz que é blasfêmia. Assim como dizer o nome do desgraçado do Tenebroso.

O coque de Ragan balançava conforme ele assentia.

— Lembra a Lady Baelome, Uno? Logo depois que os primeiros boatos chegaram de Tear citando o nome do Lorde Dragão, Nynaeve, ela disse algo sobre “esse tal de Rand al’Thor” em uma audiência com Masema, e ele mandou trazer um machado e um cepo sem nem hesitar.

— Ele mandou decapitar uma pessoa só por isso? — questionou ela, incrédula.

— Não — resmungou Uno com desgosto. — Mas só porque a maldita rastejou quando percebeu que o desgraçado estava falando sério. Ela foi carregada para fora e pendurada pelos pulsos na traseira da própria carruagem, e então arrastada por toda a maldita extensão do vilarejo onde estávamos. Os próprios empregados dela, aquele bando de chamejados, ficaram parados feito um monte de fazendeiros covardes e só assistiram.

— Quando acabou — acrescentou Ragan —, ela agradeceu Masema por sua misericórdia, como Lorde Aleshin fez. — O tom de voz do homem era afiado demais para o gosto dela. Ele estava dando uma lição de moral e pretendia que Nynaeve aprendesse. — Eles tinham motivo, Nynaeve. Suas cabeças não teriam sido as primeiras que Masema colocou em uma estaca. A sua poderia ter sido a mais recente. E as nossas iriam junto, se tentássemos oferecer ajuda. Masema não tem favoritos.

Ela respirou fundo. Como Masema podia ter todo esse poder? E não só entre seus seguidores, pelo visto. Mas, por outro lado, lordes ou ladies podiam ser tão tolos quanto qualquer fazendeiro. Grande parte deles era até mais, na opinião dela. Aquela idiota cheia de anéis certamente era uma lady. Mercador algum jamais usaria gotas de fogo. Contudo, Ghealdan com certeza tinha leis, tribunais e juízes. Onde estava a rainha, ou o rei? Nynaeve não lembrava qual dos dois Ghealdan possuía. Ninguém em Dois Rios tinha muito contato com reis ou rainhas, mas era para isso que eles serviam, eles e seus lordes e ladies: fazer com que a justiça fosse razoavelmente cumprida. Mas o que Masema fazia ali não era da conta dela. Nynaeve tinha problemas mais importantes com que se preocupar do que um bando de imbecis que permitiam que um louco os dominasse.

Ainda assim, a curiosidade a fez falar.

— Ele falou sério ao dizer aquilo de tentar fazer com que homens e mulheres parem de se olhar? O que ele acha que vai acontecer se não houver casamentos, não houver filhos? Depois vai fazer as pessoas pararem de cultivar, tecer, ou fabricar sapatos, para que possam pensar em Rand al’Thor? — Ela mencionou o nome de forma deliberada. Aqueles dois andavam por aí chamando-o de “Lorde Dragão” quase tanto quanto Masema. — Vou dizer uma coisa para vocês: se ele tentar ficar dizendo para as mulheres como devem se vestir, vai arrumar um tumulto. Contra ele.

Samara devia ter algo parecido com um Círculo das Mulheres. A maioria dos lugares tinha, mesmo que o chamassem de outro nome, mesmo que não fosse um tipo de arranjo formal. Havia certas coisas das quais os homens simplesmente não podiam cuidar. Claro que elas repreendiam mulheres por usarem roupas inapropriadas, mas não era o mesmo que meter o bedelho no assunto. As mulheres não se metiam em assuntos dos homens, pelo menos não mais que o necessário, e os homens não deveriam se meter em questões femininas.

— E não acho que os homens vão reagir muito diferente caso ele tente fechar tavernas e coisas do tipo. Nunca conheci um homem que não choraria até dormir se não pudesse enfiar o nariz em uma caneca, de vez em quando.

— Talvez ele faça — ponderou Ragan —, talvez não. Às vezes ele dá ordens e às vezes se esquece, ou só deixa para lá, porque alguma coisa mais importante acaba surgindo. Você ficaria surpresa — acrescentou ele, seco — com o que os seguidores de Masema são capazes de aceitar sem reclamar.

Ele e Uno a flanqueavam, Nynaeve percebeu, e observavam com cautela o povo na rua. Até para ela, os dois pareciam prontos para sacar as espadas em um piscar de olhos. Se de fato estivessem pensando em levar a cabo as instruções de Masema, seria melhor repensarem.

— Ele não é contra o casamento — rosnou Uno, encarando com tanta firmeza um mascate que carregava tortas de carne em uma bandeja que o homem se virou e saiu correndo sem nem pegar as moedas de duas mulheres que tinham comprado tortas. — Você tem sorte de ele não ter lembrado que você não tem marido, ou poderia ter lhe enviado para o Lorde Dragão já com um. Ele às vezes seleciona trezentos ou quatrocentos homens solteiros e a mesma quantidade de mulheres e casa todos os malditos. A maioria não se conhece nem de vista antes do tal dia. Se esses rola-bosta da tripa mole não dão um maldito pio a respeito disso, você acha que eles vão abrir as malditas bocas para reclamar de cerveja?

Ragan resmungou alguma coisa para si mesmo, mas Nynaeve compreendeu o suficiente para estreitar os olhos. “Tem homem que não sabe a maldita sorte que tem”, foi o que disse. O homem nem percebeu o olhar fuzilante dela. Estava ocupado demais examinando a rua, vigiando alguém que poderia tentar roubá-la que nem um porco em uma saca. Nynaeve estava meio tentada a tirar o xale e jogá-lo fora. Ele também pareceu não ouvi-la bufar. Os homens tinham a capacidade de ser insuportavelmente cegos e surdos quando queriam.

— Pelo menos ele não tentou roubar minhas joias. Quem era aquela tola que deu para ele todas as joias dela? — Nynaeve não tinha certeza se a mulher havia se tornado uma das seguidoras de Masema.

— Aquela — respondeu Uno — era Alliandre, Abençoada da Luz, Rainha da Ghealdan. E mais uma dúzia de outros títulos, desses que vocês, sulistas, gostam de acumular.