Uno e Ragan se moveram em sincronia quando Galad foi na direção da viela. O caolho desembainhou a espada em um piscar de olhos, e Ragan foi um pouco mais lento por ter de fazer uma pausa para empurrar Nynaeve mais para dentro da passagem estreita. Os dois se posicionaram um atrás do outro. Se Galad passasse por Uno, ainda precisaria enfrentar Ragan.
Nynaeve rangeu os dentes. Poderia tornar todas aquelas espadas desnecessárias, inúteis. Conseguia sentir a Fonte Verdadeira feito uma luz invisível acima de seus ombros, esperando ser agarrada. Poderia. Se ousasse.
Galad parou na boca da viela, o manto jogado para trás, uma das mãos repousando serenamente no punho da espada, gracioso e pronto para o ataque. Não fosse pela armadura escovada, poderia estar num baile.
— Não quero matar nenhum de vocês dois, shienarano — disse calmamente para Uno.
Nynaeve ouvira Elayne e Gawyn falarem a respeito das habilidades de Galad com a espada, mas aquela era a primeira vez que pensava que ele de fato podia ser tão bom quanto diziam. Pelo menos ele achava que era. Dois soldados experientes com as lâminas à mostra, e ele os encarava como um cão de caça encararia um par de cães de menor porte; sem procurar briga, mas com absoluta confiança de que era capaz de dar conta dos dois. Sem jamais afastar o olhar dos homens, Galad dirigiu-se a ela:
— Outra pessoa teria ido para uma loja ou uma estalagem, mas você nunca faz o esperado. Vai me deixar falar com você? Não há necessidade de me obrigar a matar estes dois.
Nenhum dos pedestres estava parando, mas, mesmo com três homens lhe bloqueando a visão, Nynaeve enxergava cabeças se virando para dar uma olhadela no que teria atraído o Manto-branco. E para simplesmente admirar as espadas. Boatos estariam brotando em todas aquelas cabeças e alçando voo com uma velocidade que faria um falcão parecer lento.
— Deixem o homem passar — ordenou Nynaeve.
Ao ver que Uno e Ragan nem se mexeram, repetiu a ordem com ainda mais firmeza. Foi então que, hesitantes, ambos se afastaram para o lado, tanto quanto a viela estreita permitia. E, ainda que nenhum deles tenha dito uma só palavra, havia entre os homens um quê de reclamação. Galad se aproximou tranquilamente, parecendo esquecer os shienaranos. Nynaeve suspeitava que acreditar naquilo seria um erro. Os homens de coque claramente não acreditavam.
Exceto por um dos Abandonados, Nynaeve não imaginava que homem gostaria menos de ter à sua frente no momento, mas, com aquele rosto diante dela, estava conscientíssima da própria respiração, da própria pulsação. Era ridículo. Por que aquele sujeito não podia ser feio? Ou ao menos comum.
— Você sabia que eu sabia que você estava nos seguindo. — O tom de acusação foi intenso, embora ela não tivesse certeza do que o estava acusando. De não fazer o que ela esperara e desejara, imaginou, com pesar.
— Presumi isso assim que a reconheci, Nynaeve. Lembro que você geralmente enxerga mais do que demonstra.
Ela não permitiria que o homem a distraísse com elogios. Bastava ver no que aquilo dera com Valan Luca.
— O que você está fazendo em Ghealdan? Achei que estivesse a caminho de Altara.
Por um momento, ele a encarou com aqueles belos olhos escuros, e então, de repente, gargalhou.
— No mundo inteiro, Nynaeve, só você me faria a pergunta que eu deveria estar lhe fazendo. Muito bem, eu vou responder, ainda que devesse ser o contrário. Eu de fato tinha ordens para ir a Salidar, em Altara, mas tudo mudou quando este tal de Profeta… Qual é o problema? Está passando mal?
Nynaeve se forçou a suavizar a expressão.
— Claro que não — respondeu, irritada. — Minha saúde está ótima, muitíssimo obrigada.
Salidar! Claro! Aquele nome foi como um dos malabares de fogo de Aludra explodindo em sua mente. Quebrara tanto a cabeça, e Galad lhe entrega por acaso o que ela não dera conta de desencavar sozinha. Se ao menos Masema conseguisse encontrar logo um barco… Se ao menos ela pudesse ter certeza de que Galad não lhes trairia… Sem permitir que Uno e Ragan o matassem, claro. Apesar do que Elayne dizia, Nynaeve não achava que a garota gostaria de ver o irmão morto. E havia pouca chance de que ele acreditasse que Elayne não estava com ela.
— Estou apenas surpresa por encontrá-lo aqui.
— Não é uma surpresa tão grande quanto a que eu tive quando soube que vocês tinham dado um jeito de ir embora de Sienda. — A severidade distorcia um pouco aquele rosto bonito, mas o tom de voz compensava. Em certo nível. Galad poderia estar dando um sermão em uma garotinha que saíra escondida de casa depois do horário de dormir só para subir em uma árvore. — Eu quase morri de preocupação. O que deu em vocês, sob a Luz? Fazem ideia do risco que correram? E vir para cá, ainda por cima. Elayne sempre escolhe encilhar um cavalo quando ele já está galopando, se puder, mas eu achei que você, pelo menos, tinha mais juízo. Este tal de Profeta… — Ele se interrompeu e encarou os dois homens. Uno cravara a ponta da espada no chão, as mãos cheias de cicatrizes entrelaçadas sobre o pomo. Ragan parecia estar única e exclusivamente inspecionando o fio da lâmina.
— Eu ouvi boatos — prosseguiu Galad, devagar — de que ele é shienarano. Não é possível você ter sido tão cabeça oca a ponto de se misturar com ele. — Havia questionamentos demais naquelas palavras, para o gosto de Nynaeve.
— Nenhum deles é o Profeta, Galad — retrucou ela com ironia. — Já conheço os dois há algum tempo, posso lhe garantir. Uno, Ragan, a menos que vocês pretendam cortar as unhas dos pés, guardem estes troços. E então? — Os homens hesitaram, Uno resmungando sozinho e cravando os olhos nela, mas, por fim, acabaram obedecendo. Homens costumavam reagir a uma voz firme. A maioria. Algumas vezes.
— Não pensei que fossem, Nynaeve. — O tom de voz de Galad, ainda mais seco que o dela, a deixou arrepiada, mas, quando prosseguiu, seu ar parecia mais de irritação que de superioridade. E de preocupação. O que a deixou ainda mais arrepiada, claro. Ele lhe causava palpitações, e ele tinha a coragem de ficar preocupado. — Não sei no que você e Elayne se meteram aqui, e nem quero saber, desde que eu consiga tirar vocês duas deste lugar antes que se machuquem. O comércio no rio está devagar, mas um barco apropriado, de qualquer tipo, deve chegar nos próximos dias. Trate de me dizer onde posso encontrar vocês, e eu garanto a viagem até algum ponto de Altara. De lá, vocês vão poder seguir caminho até Caemlyn.
Ela ficou boquiaberta a contragosto.
— Você pretende encontrar um navio para nós?
— É tudo o que eu posso fazer no momento. — Seu tom era de quem pedia desculpas. Então, sacudiu a cabeça, se autocensurando. — Não tenho como escoltá-las até estarem seguras. Minha obrigação é ficar aqui.
— Não queremos afastá-lo das suas obrigações — respondeu ela, meio ofegante. Se ele quisesse interpretar mal, que fosse. O melhor que ela torcera para acontecer era que ele as deixasse em paz.
Galad achou que precisava se defender.
— Mandar vocês para lá sozinhas não é nada seguro, mas uma embarcação vai levá-las embora antes que um conflito exploda na fronteira. E isso vai acontecer, mais cedo ou mais tarde. Basta uma centelha, e com certeza o Profeta vai acendê-la, caso ninguém mais o faça. Vocês precisam dar um jeito de ir até Caemlyn, você e Elayne. Só peço que me prometam que irão para lá. A Torre não é lugar para nenhuma das duas. Nem para… — Galad trincou os dentes, mas poderia muito bem ter citado o nome de Egwene.
Mal não faria se Galad também estivesse em busca de um barco. Se Masema se esquecia de fechar ou não tavernas, também poderia se esquecer de mandar alguém encontrar um barco. Sobretudo se achasse que um conveniente rompante de esquecimento pudesse manter Nynaeve por perto para levar adiante seus próprios planos. Mal não fazia… caso pudesse confiar em Galad. Se não, precisaria torcer para que ele não fosse tão bom com a espada quanto achava que era. Era um pensamento desagradável, mas não tanto quanto o que poderia acontecer, e aconteceria, caso o homem se provasse um traidor.