— Eu sou o que sou, Galad, e o mesmo vale para Elayne. — Ser cuidadosa com Masema deixara um gosto ruim na boca de Nynaeve. Um pouco de esquiva à moda da Torre Branca era o máximo que podia fazer. — E agora você é o que é. — Ela ergueu as sobrancelhas indicando o manto branco dele. — Eles odeiam a Torre e odeiam mulheres que sabem canalizar. Agora que é um deles, por que eu não deveria pensar que vai haver cinquenta iguais a você atrás de mim daqui a menos de uma hora, tentando enfiar uma flecha nas minhas costas caso não consigam me arrastar para uma cela? Arrastar a mim e a Elayne também.
Irritado, Galad sacudiu a cabeça. Ou talvez estivesse ofendido.
— Quantas vezes eu tenho que repetir? Eu jamais deixaria minha irmã em perigo. Nem você.
Nynaeve achou bem irritante notar que ficara chateada com aquela pausa, deixando claro que ela só fora acrescentada depois. Não era nenhuma boba, daquelas que perdiam a sensatez por um par de olhos doces e incrivelmente penetrantes ao mesmo tempo.
— Se você diz — afirmou ela, fazendo-o voltar a balançar a cabeça.
— Me diga onde vocês estão hospedadas e eu darei um jeito de ir avisar ou mandar um recado assim que encontrar um barco adequado.
Se Elayne tivesse razão, Galad era tão capaz de mentir quanto uma Aes Sedai que tivesse feito os Três Juramentos, mas, ainda assim, Nynaeve hesitou. Qualquer erro ali poderia ser seu último. Ela tinha direito de correr riscos sozinha, mas aquele também envolvia Elayne. E Thom e Juilin, aliás. Independentemente do que quisessem pensar, ambos ainda eram responsabilidade dela. Mas Nynaeve estava ali, e a decisão teria de ser dela. Não que fosse ser diferente de qualquer jeito, para dizer a verdade.
— Pela Luz, mulher, o que mais você quer de mim? — rosnou Galad, erguendo as mãos como se quisesse segurá-la pelos ombros. A lâmina de Uno surgiu entre eles feito um raio de aço reluzente, mas o irmão de Elayne apenas a afastou para o lado como se fosse um galho, sem dar muita importância. — Não quero machucá-la, nem agora nem nunca. Juro pelo nome da minha mãe. Você não diz que é o que é? Eu sei o que você é. E o que não é. Pode ser que metade da razão para eu usar isto — Galad tocou o manto cor de neve — seja a Torre ter mandado vocês embora, você, Elayne e Egwene, por só a Luz sabe o quê, mesmo vocês sendo o que são. Foi como mandar um garoto que acabou de aprender a manejar uma espada para a batalha, e eu nunca vou perdoá-las por isso. Ainda há tempo para vocês desistirem. Não precisam empunhar essa espada. A Torre é perigosa demais para você ou para a minha irmã, ainda mais agora. Metade do mundo se tornou perigoso demais para vocês! Me deixe ajudá-las a chegarem a um lugar seguro. — Sua voz era firme, embora tivesse adquirido um quê de aspereza. — Eu imploro, Nynaeve. Se acontecesse alguma coisa com Elayne… Quase desejo que Egwene estivesse aqui com vocês, para que eu pudesse… — Passando a mão pelo cabelo, Galad olhou para um lado e para o outro, buscando um jeito de convencê-la. Uno e Ragan tinham as lâminas em riste, mas Galad nem parecia notar. — Em nome da Luz, Nynaeve, me deixe fazer o que eu posso, por favor.
Foi um detalhe que, por fim, fez a balança pender na mente dela: estavam em Ghealdan. Amadícia era o único local em que era crime uma mulher canalizar, e eles estavam na margem oposta do rio. Isso fazia com que só restassem os juramentos de Galad como Filho da Luz para lutar contra o dever dele para com Elayne. Nesse conflito, Nynaeve achou que o sangue venceria. Além disso, ele de fato era bonito demais para que deixasse Uno e Ragan o matarem. Não que isso tenha tido alguma relação com a decisão que tomou, claro.
— Estamos no espetáculo de Valan Luca — confessou ela, por fim.
Galad pareceu aturdido e franziu o cenho.
— No espetáculo de…? Em um dos conjuntos itinerantes, você diz? — Havia um misto de incredulidade e desgosto na voz do homem. — O que, sob a Luz, estão fazendo com esse tipo de companhia? O pessoal que mantém esses espetáculos não é nada diferente de… Deixa para lá. Se estão precisando de umas moedas, eu posso arranjar. O bastante para pôr vocês em uma estalagem decente.
Galad soou como se tivesse certeza de que Nynaeve faria como ele desejava. Não foi um “Posso lhe ajudar com algumas coroas?” ou um “Quer que eu encontre um quarto para vocês?”. Ele achava que elas deveriam ficar em uma estalagem, então era para uma estalagem que elas iriam. O homem a conhecia o suficiente para saber que ela se esconderia em uma viela, mas, ao que parecia, não sabia muito mais que isso. Além do quê, havia motivos para que permanecessem com Luca.
— Você acha que em Samara há algum quarto, ou mesmo um depósito de feno, que não esteja ocupado? — perguntou ela, um tantinho mais azeda do que pretendia.
— Tenho certeza de que consigo encontrar…
Ela o interrompeu.
— O último lugar em que qualquer pessoa nos procuraria é no meio dos espetáculos. — O último lugar em que qualquer pessoa, exceto Moghedien, pelo menos, procuraria. — Você não concorda que temos que evitar o máximo possível que nos vejam? Se realmente encontrasse um quarto, seria muitíssimo provável que tivesse que tirar alguém dele. Um Filho da Luz tão empenhado em garantir um quarto para duas mulheres? Isso atiçaria línguas e atrairia olhares que nem um monte de estrume atrai moscas.
Ele não gostou daquilo, pela careta e pelo olhar que lançou a Uno e Ragan, como se fosse culpa dos dois, mas tinha bom senso suficiente para ver que ela estava certa.
— Não é um lugar adequado para nenhuma das duas, mas provavelmente é mais seguro do que qualquer outro dentro da cidade. Como você pelo menos já concordou com Caemlyn, não toco mais nesse assunto.
Nynaeve se manteve inexpressiva e o deixou pensar o que bem entendesse. Se Galad achava que ela tinha prometido o que não tinha, o problema era dele. Porém, Nynaeve precisava mantê-lo o mais longe possível do espetáculo. Bastaria uma olhadela na irmã com aquelas calças brancas de lantejoulas e a briga eclipsaria qualquer motim que Masema pudesse causar.
— Você vai ter que ficar bem longe do conjunto itinerante, lembre disso. Até encontrar um navio, pelo menos. Aí é só vir aos carroções dos artistas no cair da noite e perguntar por Nana. — Ele gostou menos ainda dessa parte, se é que era possível, mas ela o alertou com firmeza. — Não vi um único Filho da Luz por perto de nenhum dos espetáculos. Se você visitar um deles, não acha que as pessoas vão perceber e perguntar por quê?
O sorriso de Galad ainda foi lindo, mas mostrou dentes demais.
— Você tem resposta para tudo, ao que parece. Alguma objeção a pelo menos eu lhe escoltar de volta para lá?
— Claro que sim. Do jeito que a coisa está, já vai haver boatos, já que umas cem pessoas devem ter percebido esta nossa conversa. — Não conseguia mais ver a rua para além dos três homens, mas não tinha dúvida de que os pedestres ainda estavam olhando para a viela, além de Uno e Ragan não terem tornado a embainhar as espadas. — Mas, se você me acompanhar, seremos vistos por dez vezes mais gente.
Galad se contraiu em um misto de pesar e diversão.
— Resposta para tudo — resmungou. — Mas você tem razão. — Estava claro que ele gostaria que ela não tivesse. — Me escutem, shienaranos — disse, virando a cabeça e com a voz, de uma hora para outra, feito aço. — Eu sou Galadedrid Damodred, e esta mulher está sob a minha proteção. Quanto à acompanhante dela, eu consideraria minha vida uma perda pequena em troca de salvá-la do menor dos perigos. Se vocês permitirem que qualquer uma das duas sofra esse menor dos perigos, eu encontro vocês dois e os mato. — Ignorando tão completamente a expressão súbita e perigosa nos rostos dos shienaranos quanto ignorara as espadas, ele tornou a encarar Nynaeve. — Suponho que você continuará não me dizendo onde Egwene está.