— Tudo o que você precisa saber é que ela está bem longe daqui. — Ela cruzou os braços no peito e sentiu o coração batendo contra as costelas. Será que estava cometendo um erro perigoso por conta de um rosto bonito? — E mais segura do que qualquer ação sua poderia deixá-la.
Ele não pareceu acreditar, mas não levou o assunto adiante.
— Com sorte, encontro um navio em um ou dois dias. Até lá, não saia de perto desse… espetáculo de Valan Luca. Seja discreta e evite ser notada. O máximo que seu cabelo desta cor lhe permitir. E diga para Elayne não fugir de mim de novo. A Luz as iluminou por me permitir encontrá-las ainda inteiras, e terá que iluminar com o dobro do brilho para mantê-las longe de perigo, caso tentem ficar zanzando por Ghealdan. Os bandidos blasfemos desse Profeta estão por toda parte, não têm o menor respeito pela lei e pelas pessoas, e isso sem falar nos salteadores, que se aproveitam da desordem. A própria Samara é um ninho de vespas, mas, se você ficar quietinha e convencer a cabeça-dura da minha irmã a fazer o mesmo, vou encontrar um jeito de tirá-las daqui antes que sejam picadas.
Nynaeve precisou se esforçar para segurar a língua. Galad pegara tudo que ela dissera e transformara em ordens! A próxima providência do homem seria embalar tanto ela quanto Elayne em lã e deixar as duas sentadas em uma prateleira! Não seria melhor se alguém fizesse mesmo isso?, perguntou uma vozinha diminuta. Você já não causou problemas suficientes fazendo tudo como queria? Nynaeve mandou a tal voz ficar quieta. A voz não lhe deu ouvidos e, em vez disso, começou a listar desastres e quase desastres provocados por sua própria teimosia.
Galad pareceu tomar o silêncio de Nynaeve como concordância, afastou-se dela… e parou. Uno e Ragan haviam se movido para bloquear o caminho dele até a rua, olhando para ela com aquela calma estranha e ilusória que os homens adotavam quando estavam a um fiapo de atacar. O ar pareceu crepitar — até ela gesticular, apressada. Os shienaranos baixaram as lâminas e se puseram ao lado dela, e Galad tirou as mãos da espada, passou pelos três e se misturou à multidão sem olhar para trás.
Nynaeve olhou feio tanto para Uno quanto para Ragan e saiu apressada na direção oposta. Lá estava ela, arranjando as coisas da melhor maneira possível, e os dois quase tinham posto tudo a perder. Homens pareciam achar que violência resolvia tudo. Se ela tivesse um pedaço de pau bem robusto, teria espancado os três até tomarem juízo.
Os shienaranos pareciam ter criado algum juízo. Os dois a alcançaram, as espadas novamente embainhadas às costas, e seguiram-na sem dar um só pio mesmo quando, por duas vezes, ela virou na rua errada e precisou dar meia-volta. Foi bom para eles não terem dito nada. Nynaeve já estava farta de ter que se segurar. Primeiro Masema, depois Galad. Tudo o que ela queria era a menor das desculpas para dizer umas verdades a alguém. Em especial para aquela vozinha em sua cabeça, já reduzida a um zumbido de inseto, mas que se recusava a se calar.
Enquanto saía de Samara por aquele caminho para carroças com tráfego esparso, a voz se recusava a ser ignorada. Nynaeve se preocupava com a arrogância de Rand, mas a dela colocara a si mesma e a outras pessoas em tanto perigo quanto se tivesse sido negligente. Com Birgitte, ultrapassara os limites, ainda que a mulher estivesse viva. O melhor seria Nynaeve não voltar a enfrentá-las, nem a Ajah Negra nem Moghedien, até que alguém com conhecimento decidisse o que deveria ser feito. Sua mente protestou, mas ela a calou com a mesma firmeza que sempre tivera com Thom ou Juilin. Iria a Salidar e repassaria a questão para as Azuis. Era isso que ia fazer. Estava decidida.
— Você comeu alguma coisa que lhe fez mal? — indagou Ragan. — Está com cara de quem comeu pimenta madura.
Ela lhe lançou um olhar que o fez calar a boca e seguiu em frente. Os dois shienaranos acompanhavam o ritmo, um de cada lado.
O que Nynaeve ia fazer com eles? Precisava encontrar uma serventia para aqueles homens, com certeza. A aparição deles fora providencial demais para ser desperdiçada. No mínimo, eram dois pares a mais de olhos — bem, só três olhos, na verdade, e ela se acostumaria a olhar para aquele tapa-olho sem ficar com medo, nem que fosse a última coisa que fizesse —, e mais gente à procura de um navio poderia significar encontrá-lo mais rápido. Não haveria problema nenhum caso Masema ou Galad encontrassem primeiro, mas ela não queria que nenhum dos dois soubesse mais sobre sua vida do que era obrigada a revelar. Não sabia o que eles eram capazes de fazer.
— Vocês estão me acompanhando porque Masema mandou cuidarem de mim, ou porque Galad mandou?
— Maldição! Que diferença isso faz? — resmungou Uno. — Se o Lorde Dragão a convocou, você… — Ele se interrompeu, o cenho franzido, quando ela levantou o dedo. Ragan encarou aquele dedo como se fosse uma arma.
— Vocês pretendem nos ajudar a encontrar Rand?
— Não temos nada melhor para fazer — respondeu Ragan, seco. — Pelo andar da carruagem, não vamos voltar a ver Shienar até estarmos banguelas e de cabelos grisalhos. Talvez possamos cavalgar com você e Elayne até Tear ou onde quer que ele esteja.
Nynaeve não havia considerado aquela possibilidade, mas fazia sentido. Mais dois para ajudar Thom e Juilin com as tarefas e com a guarda. Não era preciso deixá-los a par de quanto tempo aquilo poderia levar ou de quantas paradas e desvios poderiam esperar por eles no caminho. As Azuis em Salidar talvez não as deixassem avançar mais. Assim que alcançassem as Aes Sedai, voltariam a ser apenas Aceitas. Pare de pensar nisso! Você vai encontrá-las!
A multidão que aguardava diante da espalhafatosa placa de Luca não parecia menor do que antes. Uma torrente de pessoas fluía para o prado para se juntar à aglomeração enquanto outro fluxo serpenteava para fora, comentando sobre o que acabara de ver. Vez ou outra, os cavalos-javali ficavam visíveis, empinados acima do muro de tela, arrancando os “oohs” e “aahs” dos que esperavam para entrar. Cerandin estava botando os animais para trabalhar de novo. A Seanchan sempre cuidava para que os s’redit descansassem bastante. Era muito rígida com isso, independentemente da vontade de Luca. Os homens obedeciam quando percebiam que não havia outra escolha. Geralmente.
A pouca distância da grama marrom e pisoteada, Nynaeve parou e se virou para encarar os dois shienaranos. Eles continuavam com o rosto tranquilo, mas pareciam adequadamente cautelosos, embora, no caso de Uno, isso envolvesse brincar com o tapa-olho de um jeito que a deixava nauseada. O povo que entrava ou saía do espetáculo não dava a mínima para eles.
— Então não vai ser por causa de Masema ou de Galad — declarou, com firmeza. — Se vão viajar comigo, vão fazer conforme eu disser, ou então podem tomar outro rumo, já que não vou aceitar nenhum dos dois.
Claro que eles tiveram de se entreolhar antes de balançar a cabeça em concordância.
— Se é assim que tem que ser, maldição — rosnou Uno —, então tudo bem. Se você não tem ninguém para cuidar da sua segurança, nunca vai conseguir sobreviver para o maldito reencontro com o Lorde Dragão. Algum fazendeiro tripa mole vai acabar servindo você no café da manhã só por causa dessa sua língua. — Ragan lhe lançou um olhar reservado que indicava concordar com cada palavra, mas que tinha imensas dúvidas sobre Uno ter resolvido vocalizá-las. Ragan, ao que parecia, era um homem sábio.
Desde que aceitassem os termos de Nynaeve, o motivo não importava muito. Por enquanto. Mais tarde haveria bastante tempo para esclarecer tudo.
— Não duvido que os outros também vão concordar — opinou Ragan.
— Outros? — perguntou ela, atônita. — Está me dizendo que não são só vocês dois? Mais quantos?