— Agora somos quinze. Acho que nem Bartu nem Nengar vão querer vir.
— Ficam atrás do Profeta. — Uno virou a cabeça e cuspiu. — Só quinze. Sar caiu daquele maldito pico nas montanhas, e Mendao teve que se meter em um maldito duelo contra três Caçadores da Trombeta, e…
Nynaeve estava ocupada demais tentando não ficar boquiaberta para escutar o que diziam. Quinze! Não pôde se impedir de calcular mentalmente quanto custaria alimentar quinze homens. Mesmo quando não estavam com muita fome, Thom e Juilin comiam mais do que ela e Elayne juntas. Luz!
Por outro lado, com quinze soldados shienaranos, não havia necessidade de ficar esperando um navio. Um barco com certeza era a maneira mais rápida de viajar — agora ela se lembrava do que ouvira a respeito de Salidar: uma cidade à beira do rio, ou bem perto, e um barco poderia levá-las direto para lá —, mas uma escolta de shienaranos daria ao carroção a mesma segurança, tanto contra Mantos-brancos e bandidos quanto contra seguidores do Profeta. Só que bem mais lento. E um único carroção partindo de Samara com uma escolta dessas certamente chamaria a atenção. Para Moghedien ou para a Ajah Negra, seria como ter uma placa apontando a partida delas. Vou deixar as Azuis cuidarem delas e pronto!
— Qual o problema? — perguntou Ragan.
— Eu não devia ter mencionado como Sakaru morreu — disse Uno, arrependido. Sakaru? Devia ter sido depois que ela parou de prestar atenção. — Eu não passo tanto tempo perto dessas mald… perto de damas. Esqueço que vocês têm fraqueza nas trip… quer dizer… é… o estômago delicado. — Se ele não parasse de puxar aquele tapa-olho, ia ver como o estômago dela era delicado.
A quantidade não mudava nada. Se era bom ter dois shienaranos, ter quinze era maravilhoso. Seu próprio exército particular. Não seria preciso se preocupar com Mantos-brancos, salteadores ou motins, nem mesmo se havia ou não se equivocado com relação a Galad. Quantos presuntos quinze homens comeriam por dia?
— Então tudo bem. Toda dia, assim que anoitecer, um de vocês, e só um, vai vir até aqui e perguntar por Nana. É o nome pelo qual me conhecem. — Não havia motivos para dar aquela ordem, exceto para ir criando neles o hábito de obedecê-la. — Elayne é conhecida como Morelin, mas perguntem por Nana. Se precisarem de dinheiro, me procurem, e não a Masema. — Nynaeve teve que suprimir uma careta ao dizer isso. Ainda havia ouro no fogão do carroção, mas Luca não cobrara suas cem coroas, e cobraria. Porém, sempre havia as joias, caso a necessidade surgisse. Ela precisava se assegurar de que os homens se afastariam de Masema. — Fora isso, nenhum de vocês deve vir me procurar ou ver o espetáculo. — Se não dissesse aquilo, era provável que eles montassem guarda ou fizessem alguma idiotice do tipo. — A menos que apareça um barco. Nesse caso, venham correndo na mesma hora. Estão me entendendo?
— Não — resmungou Uno. — Por que precisamos ficar longe, mald…? — Ele recuou a cabeça quando Nynaeve ergueu um dedo em riste diante de seu nariz.
— Você se lembra do que eu falei sobre seu linguajar? — Ela precisou se obrigar a encará-lo. Aquele tapa-olho vermelho fazia o estômago de Nynaeve dar piruetas. — Caso não lembre, vai aprender por que os homens de Dois Rios têm línguas decentes dentro da boca.
Ela observou Uno ponderar a questão. O homem não sabia qual era a ligação dela com a Torre Branca, só que a ligação existia. Nynaeve poderia ser uma agente da Torre, ou treinada pela Torre. Ou até uma Aes Sedai, ainda que recém-formada. E a ameaça foi vaga o bastante para que ele interpretasse tudo da pior maneira. Nynaeve aprendera aquela técnica muito antes de ouvir Juilin explicá-la a Elayne.
Quando pareceu que a ideia fora assimilada — e antes que o sujeito pudesse fazer quaisquer perguntas —, ela baixou a mão.
— Você vai ficar longe pelo mesmo motivo de Galad: para não chamar atenção. Quanto ao resto, vai fazer porque eu disse que é para fazer. Se eu tiver que lhe explicar todas as minhas decisões, não vou ter tempo para mais nada, então é melhor aceitar tudo de bom grado.
Foi um comentário digno de uma Aes Sedai. Além disso, os homens não tinham escolha, caso pretendessem ajudá-la a chegar até Rand, como pensavam que iam fazer. Ela estava se sentindo bastante satisfeita consigo mesma ao enxotá-los de volta para Samara e passar às pressas pela multidão na fila e por baixo da placa que exibia o nome de Valan Luca.
Para sua surpresa, havia uma novidade no espetáculo. Em uma nova plataforma não muito longe da entrada, uma mulher de calça amarela estava de ponta-cabeça com os braços abertos bem esticados e um par de pombas brancas em cada mão. Não, não estava apoiada com a cabeça. A mulher se agarrava a uma espécie de moldura de madeira com os dentes, e nela se equilibrava. Enquanto Nynaeve observava, perplexa, a peculiar acrobata baixou as mãos até a plataforma por um momento e foi se dobrando ao meio até parecer estar sentada sobre a própria cabeça. Ainda assim, não foi o bastante. As pernas se curvaram para baixo, à frente do corpo, e depois, de modo impossível, de volta para baixo dos braços. Então ela transferiu as pombas para as solas do pé, que, àquela altura, eram os pontos mais altos da bola contorcida em que ela se transformara. Os espectadores ofegaram e aplaudiram, mas a cena deixou Nynaeve arrepiada. Era uma recordação demasiado forte do que Moghedien fizera com ela.
Não é por isso que eu pretendo entregá-la para as Azuis, disse para si mesma. Só não quero causar outra calamidade. Era verdade, mas Nynaeve também temia que, na próxima vez, não escapasse tão fácil ou tão ilesa. Jamais admitiria aquilo para outra alma. Não gostava de admitir nem para si mesma.
Lançando um último olhar intrigado na direção da contorcionista — Nynaeve não conseguira nem começar a decifrar a forma em que a mulher se contorcera em seguida —, ela se virou. E tomou um susto quando Elayne e Birgitte surgiram de repente ao seu lado, saindo da multidão. Elayne usava um manto que cobria decentemente as calças e o casaco branco, e Birgitte só faltava ostentar o vestido vermelho decotado. Não, não faltava, não. Estava ainda mais ereta que o normal e com a trança jogada para trás, para remover qualquer mínima cobertura. Nynaeve dedilhava o nó do xale na cintura, desejando que cada olhadela para Birgitte não a fizesse se lembrar de quanto ela própria estaria exibindo assim que a lã cinza fosse retirada. A aljava da outra mulher estava pendurada no cinto, e ela carregava consigo o arco que Luca lhe arrumara. As horas certamente já avançavam demais para que ela realizasse tiros.
Uma olhada para o céu sinalizou para Nynaeve que estava equivocada. Apesar de tudo o que acontecera, o sol ainda estava bem acima do horizonte. As sombras já se alongavam bastante, mas não o suficiente para dissuadir Birgitte, suspeitou.
Tentando disfarçar que estava verificando o sol, ela fez um meneio na direção da mulher com a calça amarela, que àquela altura começara a se contorcer de um jeito que Nynaeve sabia que era impossível. E ainda se equilibrava com os dentes.
— De onde ela veio?
— Luca contratou — respondeu Birgitte calmamente. — Também comprou alguns leopardos. O nome dela é Muelin.
Enquanto Birgitte estava calma e controlada, Elayne quase que tremia de emoção.
— De onde ela veio? — gaguejou. — De um espetáculo que uma turba quase destruiu!
— Eu soube — disse Nynaeve —, mas o importante não é isso. Eu…
— Não é importante! — Elayne olhou para o céu, como se buscasse alguma orientação. — Você também soube por quê? Não sei se foram os Mantos-brancos ou esse Profeta, mas alguém inflamou uma multidão dizendo que… — Ela olhou ao redor, sem parar de falar, e apenas baixou a voz. Ninguém do público havia parado, mas todos que passavam ficavam olhando para as duas óbvias artistas ali. — … que uma das mulheres do espetáculo talvez usasse xale. — Elayne enfatizou a última palavra. — São tolos de pensar que ela estaria em um conjunto itinerante, mas, em todo caso, você e eu estamos. E aí você sai correndo para a cidade sem dizer nada a ninguém. Já escutamos de tudo, desde um homem careca te carregando nos ombros até você beijando um shienarano e saindo com ele de braços dados.