Nynaeve ainda estava boquiaberta quando Birgitte completou:
— Luca estava chateado, com qualquer das versões. Ele disse… — A mulher pigarreou e deixou a voz mais grave. — “Então ela gosta de homens rudes, é? Bem, eu posso ser tão rude quanto um cavalo selvagem!”. E lá foi ele, levando dois rapazes com ombros que nem os de pedreiros s’Gandin, para buscar você. Thom Merrilin e Juilin Sandar também foram, e bem irritados. Isso não melhorou nada o humor de Luca, mas todos estavam tão aborrecidos com você que não havia espaço para sentirem raiva uns dos outros.
Por um momento, Nynaeve encarou-as, confusa. Ela gostava de homens rudes? O que ele quis dizer com…? Aos poucos, foi assimilando, e soltou um gemido.
— Ah, era só o que me faltava. — E Thom e Juilin soltos por Samara. Só a Luz sabia em que confusões poderiam se meter.
— Eu ainda quero saber o que você pensava que estava fazendo — disse Elayne —, mas estamos perdendo tempo aqui.
Uma de cada lado, Nynaeve permitiu que as duas a levassem para longe da multidão, mas, mesmo com a notícia sobre Luca e os outros, estava satisfeita com seu trabalho naquele dia.
— Com sorte, devemos estar longe daqui em um ou dois dias. Se Galad não encontrar um barco para nós, Masema vai encontrar. Ele é o tal Profeta. Você se lembra de Masema, Elayne. Aquele shienarano da cara azeda que vimos… — Ao notar que Elayne parara, Nynaeve fez uma pausa para ela poder alcançá-las.
— Galad? — disse ela, descrente, esquecendo-se de manter o manto fechado. — Você viu… você falou com Galad? E com o Profeta? Deve ter falado, senão como eles estariam tentando encontrar um barco? Você tomou chá com eles, ou só se encontrou com os dois em um salão qualquer? Foi para lá que o careca levou você, sem dúvida. Talvez o Rei de Ghealdan também estivesse lá, não? Você poderia fazer o favor de me convencer de que estou sonhando, para que eu possa acordar?
— Trate de se acalmar — respondeu Nynaeve, com firmeza. — Agora é uma rainha, não um rei, e sim, ela estava lá. E ele não era careca, usava um coque. Estou falando do shienarano, não do Profeta. Esse é tão careca quanto…
Nynaeve encarou Birgitte até ela parar de dar risadinhas. O olhar se atenuou um pouco quando se lembrou de quem era a mulher e do que fizera a ela, mas se Birgitte não tivesse feito uma expressão neutra, poderiam ter descoberto se Nynaeve teria coragem ou não de estapeá-la. As três voltaram a caminhar, e Nynaeve continuou, da maneira mais comedida que pôde:
— Elayne, o que aconteceu foi o seguinte: eu vi Uno, um dos shienaranos que estava em Falme, assistindo você andar na corda. Aliás, a opinião dele sobre a Filha-herdeira de Andor ficar mostrando as pernas não é melhor que a minha. Seja como for, Moiraine o mandou para cá depois de Falme, mas…
Enquanto abriam caminho pelo meio da multidão, Nynaeve relatou tudo bem rápido, não dando a menor importância para as exclamações cada vez mais incrédulas de Elayne e respondendo às perguntas das duas com o mínimo possível de explicação. Apesar de um breve interesse pelas sucessões no trono de Ghealdan, Elayne se concentrou no que exatamente Galad dissera e no porquê de Nynaeve ter sido tola o bastante para se aproximar do Profeta, quem quer que ele fosse. Aquela palavra — tola — pipocou com bastante frequência e obrigou Nynaeve a manter o próprio temperamento em rédea curta. Podia até duvidar de que seria capaz de esbofetear Birgitte, mas Elayne não tinha toda essa proteção, Filha-herdeira ou não. Se repetisse aquilo mais algumas vezes, a garota acabaria descobrindo. Birgitte estava mais interessada nas intenções de Masema, de um lado, e nos shienaranos, do outro. Parecia que ela havia se deparado com pessoas das Terras da Fronteira em vidas anteriores, embora as nações tivessem nomes diferentes, e, em grande medida, as enxergava com bons olhos. Ela falou pouco, na verdade, mas deu a impressão de aprovar que os shienaranos se juntassem ao grupo.
Nynaeve esperava que as notícias sobre Salidar as assustassem, entusiasmassem ou resultassem em qualquer coisa diferente do que ocorreu. Birgitte encarou com muita naturalidade, como se ela tivesse dito que as três iriam jantar com Thom e Juilin naquela noite. Só pretendia ir aonde Elayne fosse, e tudo o mais pouco importava. Elayne pareceu cheia de dúvidas. Dúvidas!
— Tem certeza? Você se esforçou tanto para lembrar e… Bem, me parece ridiculamente fortuito que Galad tenha simplesmente dito o nome do lugar para você.
Nynaeve a encarou.
— Claro que eu tenho certeza. Coincidências de fato acontecem. Há de ser o que a Roda tecer, como você já deve ter ouvido falar. Agora eu lembro que ele também já havia mencionado o nome em Sienda, mas eu estava tão preocupada com você estar preocupada com ele que nem… — Ela não concluiu a frase.
Tinham chegado a uma área longa e estreita demarcada por cordas, próxima à cerca norte. Em uma das extremidades repousava algo parecido com uma placa de madeira, com duas passadas de largura e outras duas de altura. As pessoas se amontoavam junto às cordas em quatro fileiras, as crianças agachadas na frente ou agarradas à perna de um pai ou às saias de uma mãe. Um burburinho irrompeu quando as três apareceram. Nynaeve teria empacado ali mesmo, mas Birgitte segurara seu braço, então era andar ou ser arrastada.
— Achei que estávamos indo para o carroção — comentou. Ocupada com os relatos, prestara pouca atenção aonde estavam indo.
— Não, a menos que você queira me ver atirando no escuro — retrucou Birgitte. Ela parecia disposta demais a experimentar.
Nynaeve queria ter feito algum outro comentário diferente de um grunhido. O trecho de cerca preencheu sua visão à medida que avançaram em direção ao espaço aberto, distanciando-se dos espectadores. Até seus murmúrios cada vez mais intensos soavam distantes. A cerca parecia a uma milha de distância de onde Birgitte ficaria.
— Você tem certeza de que ele disse que jurava pela… nossa mãe? — questionou Elayne, amargurada. Reconhecer Galad como irmão ainda lhe era desagradável.
— O quê? Tenho, sim. Foi o que eu disse, não foi? Escute: se Luca está na cidade, não tem como ele ficar sabendo se fizemos o número ou não até que já seja tarde demais para… — Nynaeve sabia que estava gaguejando, mas parecia não conseguir fazer a língua parar. Por algum motivo, nunca se dera conta de como cem passadas eram uma distância enorme. Em Dois Rios, homens adultos sempre atiravam em alvos duas vezes mais longe que isso. Só que nenhum desses alvos jamais tinha sido ela. — É que… já está muito tarde. As sombras… O brilho… Nós realmente deveríamos fazer isso pela manhã. Quando a luz estiver…
— Se ele jurou por ela — interrompeu Elayne, como se nem estivesse ouvindo —, então é porque, aconteça o que acontecer, vai manter a palavra. É mais fácil ele quebrar um juramento pela esperança dele na salvação e no renascimento do que esse. Acho que… não, eu sei que podemos confiar nele. — Mas não soou particularmente feliz com aquilo.
— A luz está boa — afirmou Birgitte, uma pitada de empolgação na voz calma. — Posso tentar com uma venda nos olhos. Acho que esse pessoal vai querer que pareça bem difícil.
Nynaeve abriu a boca, mas não emitiu som nenhum. Desta vez, teria ficado feliz com um grunhido. Birgitte só estava fazendo uma piadinha de mau gosto. Só podia estar brincando.