Cairhien entrou em foco. A floresta, que não parecia muito densa para alguém acostumado à mata de Dois Rios, terminava bem antes de alcançar a cidade, claro. Muralhas altas e cinzentas com as torres quadradas formavam um quadrado perfeito contra o rio, zombando das curvas fluidas das colinas. Dentro delas, mais torres se erguiam em um padrão preciso, marcando os vértices de uma malha quadriculada, algumas vinte ou até mais vezes maiores que as muralhas, e todas cercadas por andaimes. As lendárias torres desnudas ainda estavam sendo reconstruídas após terem sido incendiadas na Guerra dos Aiel.
Na última vez em que Rand vira a cidade, ela era cercada por outra, de uma margem à outra do rio: Portão Frontal, um ninho de rato todo de madeira e tão espalhafatosa quanto Cairhien, era solene. Restava apenas um trecho largo de cinzas e pedaços de madeira tostados envolvendo a cidade. Como se evitou que aquele incêndio se espalhasse pela própria Cairhien estava além da compreensão de Rand.
Estandartes adornavam todas as torres da cidade, distantes demais para serem identificados, mas batedores os haviam descrito para Rand. Metade exibia as Luas Crescentes de Tear. A outra metade copiava o estandarte do Dragão que ele deixara panejando sobre a Pedra de Tear, o que não era muito surpreendente. Em nenhum se via o Sol Nascente de Cairhien.
Mover só um pouco a luneta fazia com que a cidade saísse de vista. No lado mais distante do rio repousavam as ruínas dos celeiros. Só restavam as estruturas enegrecidas de pedra. Alguns dos cairhienos com quem Rand conversara afirmavam que o incêndio dos celeiros levara a insurreições, depois à morte do rei Galldrian, e então à guerra civil. Outros diziam que fora o assassinato de Galldrian que causara as insurreições e o incêndio. Rand duvidava que algum dia fosse descobrir qual das duas versões era verdadeira, ou se alguma delas era.
Vários destroços queimados pontilhavam as duas margens do largo rio, mas nenhum ficava perto da cidade. Os Aiel ficavam desconfortáveis — amedrontados talvez fosse uma palavra muito forte — com cursos d’água que não podiam ser saltados ou atravessados a pé, mas Couladin dera um jeito de colocar barragens de toras flutuantes no Alguenya, tanto antes quanto depois de Cairhien, assim como homens suficientes para garantir que elas não fossem cortadas. Flechas incendiárias haviam dado conta do resto. Tirando ratos e pássaros, nada era capaz de entrar ou sair de Cairhien sem o consentimento de Couladin.
As colinas em torno da cidade exibiam poucos sinais de um exército em cerco. Aqui e ali, abutres batiam as pesadas asas, sem dúvida banqueteando-se com os vestígios de alguma tentativa de invasão, mas não se via nenhum Shaido. A menos que quisessem, era muito raro que os Aiel se deixassem ver.
Mas… Rand girou a luneta de volta para o topo de uma colina descampada a talvez uma milha das muralhas da cidade. De volta para um grupo de homens. Não conseguiu discernir rostos, nem muita coisa mais, fora o fato de todos estarem usando o cadin’sor. Outro detalhe: um dos homens tinha os braços desnudos. Couladin. Rand teve certeza de que devia ser coisa de sua imaginação, mas pensou ver a luz do sol refletir nas escamas metálicas que imitavam as dele nos antebraços do homem, sempre que Couladin se mexia. Fora Asmodean quem as colocara ali. Só uma tentativa de desviar a atenção de Rand, de deixá-lo ocupado enquanto executava os próprios planos, mas, sem aquilo, quanta coisa teria sido diferente? Com certeza ele não estaria ali naquela torre observando uma cidade sitiada e aguardando uma batalha.
De repente, algo rasgou o ar naquele topo de colina distante, uma mancha comprida, e dois dos homens que lá estavam desabaram no chão. Com o olhar fixo nos dois, ambos aparentemente atravessados pela mesma lança, Couladin e os outros pareciam tão atônitos quanto Rand. Girando a luneta, ele procurou o homem que lançara o objeto com tamanha potência. Tinha que ser corajoso — e tolo — para se aproximar o suficiente para isso. A busca de Rand logo se ampliou para além de qualquer alcance possível para um braço humano. Começava a considerar um Ogier — improvável, já que incitar um Ogier à violência exigia muito — quando seu olhar foi atraído por um segundo borrão, que passou feito um raio.
Sobressaltado, Rand se pôs parcialmente ereto antes de tornar a mover a luneta em direção às muralhas de Cairhien. Aquela lança — ou o que quer que fosse — viera de lá. Tinha certeza. Como aquilo era possível era outra questão. Àquela distância, tudo o que podia fazer era tentar distinguir o movimento ocasional de alguém nas muralhas ou no alto de uma torre.
Ao levantar a cabeça, Rand encontrou Rhuarc afastando-se da outra luneta e cedendo o lugar para Han. Aquela era a razão de ser da torre e das lunetas. Os batedores traziam quaisquer informações possíveis sobre a disposição dos Shaido, só que, daquela forma, os chefes podiam ver com os próprios olhos o terreno no qual a batalha seria travada. Já haviam traçado um plano, mas uma última análise do terreno nunca era demais. Rand não entendia tanto de batalhas, mas Lan considerara o plano deles bom. Ao menos no que dizia respeito à sua própria mente, Rand não entendia tanto. Às vezes, aquelas outras lembranças surgiam de mansinho, e ele parecia entender mais do que gostaria.
— Você viu aquilo? Aquelas… lanças?
Rhuarc encarou Rand tão atordoado quanto Rand sabia que também estava, mas o Aiel assentiu.
— A última acertou outro Shaido, mas ele saiu rastejando. Não foi Couladin, para nosso azar. — O homem gesticulou para a luneta, e Rand o deixou tomar seu lugar.
Teria sido tanto azar assim? A morte de Couladin não cessaria a ameaça a Cairhien ou a qualquer outro local. Agora que estavam naquele lado da Muralha do Dragão, os Shaido não retornariam pacificamente só porque o homem que pensavam ser o verdadeiro Car’a’carn tinha morrido. Isso poderia até abalá-los, mas não seria o bastante. Além do mais, depois de ter visto tudo o que vira, Rand não achava que Couladin merecia uma morte tão banal. Eu consigo ser tão duro quanto o necessário, pensou, tocando o punho da espada. Com ele, eu consigo.
42
Antes da flecha
A parte interna do teto de uma tenda só podia ser a visão mais tediosa do mundo, mas, deitado só de camiseta nas almofadas com borlas escarlates que Melindhra arranjara, Mat analisava atentamente o tecido marrom-acinzentado. Ou melhor, olhava para além dele. Com um braço atrás da cabeça, a outra mão girava um cálice de prata cheio de um bom vinho do sul de Cairhien. Um pequeno barril lhe custara tanto quanto dois bons cavalos — ou pelo menos quanto teriam custado em outros tempos, quando o mundo e tudo o que havia nele não estavam de cabeça para baixo —, mas Mat considerou um preço pequeno por algo tão decente. Às vezes, derramava uma ou duas gotas, mas nem se dava conta, e nunca tomava um gole.
Na opinião dele, fazia muito tempo que as questões haviam extrapolado o limite do meramente grave. Grave era ficar preso no Deserto sem ter ideia de como sair. Grave era os Amigos das Trevas surgirem do nada quando menos se esperava, ataques de Trollocs à noite e os estranhos Myrddraal que gelavam o sangue de qualquer um com aquele olhar sem olhos. Aquele tipo de coisa aparecia rápido e costumava terminar antes que houvesse muitas chances para se pensar a respeito. Certamente não era desejável, mas, se fosse preciso, dava para ir levando. Contudo, fazia dias que ele já sabia para onde estavam indo, e por quê. Nada de rápido, nesse caso. Muitos dias para pensar.