Isso não aconteceria tão cedo, caso as coisas saíssem como Mat planejara. Ele ficou um pouco triste e se sentiu meio tolo por isso, mas um homem precisava cuidar de si mesmo. No fim das contas, era isso que importava.
O aperto de mão de Rand foi mais forte do que nunca — todos aqueles treinos com espadas só serviram para criar novos calos por cima dos antigos calos de arqueiro —, mas Mat discernia claramente os sulcos da marca da garça na palma da mão dele. Só um pequeno lembrete, caso ele viesse a se esquecer dos desenhos sob as mangas do amigo, ou daquelas coisas ainda mais estranhas dentro da cabeça dele, que permitiam que canalizasse. Se Mat conseguia esquecer que Rand canalizava — sequer pensava nisso há dias, dias! —, então era porque já passara muito da hora de ir.
Trocaram mais algumas palavras desajeitadas. Lan parecia ignorá-los, os braços cruzados, estudando os mapas em silêncio, enquanto Natael dedilhava preguiçosamente a harpa. Mat tinha um bom ouvido para música e a melodia desconhecida lhe soava irônica, o que o fez se perguntar por que o sujeito a escolhera. Passaram mais alguns momentos, já que Rand preferia enrolar a pôr um fim na conversa. Então Mat acabou saindo. Havia uma multidão do lado de fora: umas cem Donzelas espalhadas pelo topo da colina, andando na ponta dos pés, prontíssimas para enfiar uma lança em alguém; todos os sete chefes de clã esperando pacientemente, imóveis feito pedras; e três lordes tairenos tentando fingir que não estavam suando e que os Aiel não existiam.
Soubera da chegada dos lordes e chegara até a dar uma olhada no acampamento — nos acampamentos, na verdade — deles, mas não vira ninguém conhecido por lá, nem ninguém que quisesse tentar uma rodada com os dados ou as cartas. Os três homens o examinaram de cima a baixo, franzindo o rosto com desdém e, aparentemente, decidiram que Mat não era melhor que os Aiel, o que significava dizer que não era digno de atenção.
Mat enfiou o chapéu na cabeça, puxou a aba para baixo por sobre os olhos e, dando o troco, estudou os tairenos com frieza por um momento. Teve o prazer de notar que pelo menos os dois mais jovens voltaram a ficar desconfortavelmente cientes dele antes que começasse a descer a colina. O de barba grisalha ainda parecia muito impaciente para entrar na tenda de Rand, o que mal conseguia disfarçar, mas nada daquilo importava, de qualquer maneira. Mat nunca mais veria nenhum deles.
Não tinha ideia de por que não havia simplesmente ignorado os tais lordes. O fato era que seu andar estava mais leve, e Mat se sentia cheio de disposição. O que não era de surpreender, já que finalmente partiria, no dia seguinte. Parecia que os dados estavam girando em sua cabeça, e não havia como saber que números surgiriam quando parassem. Aquilo era estranho. Devia estar preocupado com Melindhra. Sim. Definitivamente iria embora cedo, e tão quieto quanto um rato se esgueirando sobre penas.
Assobiando, Mat foi até a própria tenda. Que canção era aquela? Ah, sim. “Dançando com Jak das Sombras”. Não tinha a intenção de dançar com a morte, mas a melodia era alegre, então foi assobiando-a mesmo assim enquanto tentava planejar a melhor rota para deixar Cairhien.
Rand observou Mat se afastar até bem depois que as abas da tenda haviam caído e o escondido.
— Só ouvi a última parte — disse, por fim. — Foi tudo daquele jeito?
— Praticamente — respondeu Lan. — Olhou os mapas por uns poucos minutos e elaborou um plano de batalha bem parecido com o que Rhuarc e os demais fizeram. Viu as dificuldades e os perigos, e como fazer frente a eles. Mat entende de mineiros, armas de cerco, e também de como usar uma cavalaria leve para atrapalhar um oponente já em fuga.
Rand o encarou. O Guardião não demonstrava surpresa, nem mesmo um tique no olho. Claro, fora ele quem apontara que Mat parecia supreendentemente versado em questões militares. E Lan também não ia fazer a pergunta óbvia, o que era bom. Rand não tinha o direito de lhe dar as poucas respostas que sabia.
Ele mesmo tinha algumas dúvidas, como por exemplo: o que mineiros tinham a ver com batalhas? Ou talvez fosse só com cercos. Qualquer que fosse a resposta, não havia nenhuma mina mais próxima que a Adaga do Fratricida, e não se sabia se alguém ainda escavava por lá. Bem, aquela batalha teria que ser lutada sem eles. O importante era que Rand sabia que Mat adquirira mais do outro lado daquele batente de porta ter’angreal do que a tendência de falar na Língua Antiga quando estava distraído. E, sabendo disso, Rand aproveitaria a situação.
Você não precisa se tornar ainda mais duro, pensou ele com amargura. Vira Mat entrar em sua tenda e nem hesitara em mandar Lan até lá para ver o que podia brotar de uma conversa casual, a sós. Fora deliberado. O resto poderia ser ou não, mas ia acontecer. Torcia para que Mat ficasse bem, enquanto estivesse livre. Torcia para que Perrin estivesse aproveitando a vida em Dois Rios, apresentando Faile para a mãe e as irmãs, talvez se casando com ela. Torcia para isso porque sabia que iria atraí-los de volta, ta’veren puxando ta’veren, e ele era o mais forte. Moiraine dissera que não fora coincidência os três terem crescido na mesma aldeia, todos com quase a mesma idade. A Roda tecia eventualidades e coincidências no Padrão, mas não designava tipos como eles três sem motivo. No fim das contas, ele puxaria os amigos de volta para perto, não importava quão longe fossem, e, quando eles voltassem, Rand os usaria como pudesse. Como precisasse. Porque precisava. Porque o que quer que a Profecia do Dragão dissesse, ele tinha certeza de que sua única chance de triunfar em Tarmon Gai’don residia em ter os três juntos, três ta’veren amarrados um ao outro desde a infância, unidos mais uma vez. Não, ele não precisava se tornar duro. Você já está rançoso o bastante para fazer um Seanchan cuspir o próprio jantar!
— Toque “A marcha da morte” — ordenou ele com uma voz mais ríspida do que pretendia, e Natael, por um momento, encarou-o com um olhar neutro. O homem estivera ouvindo tudo. Teria perguntas, mas não encontraria respostas. Se Rand não podia contar para Lan os segredos de Mat, não os espalharia para um dos Abandonados, por mais domesticado que ele parecesse. Desta vez, deu um tom áspero à voz de propósito, e apontou a lança para o homem. — Toque, a não ser que você conheça uma ainda mais triste. Toque algo que faça a sua alma chorar. Se é que você ainda tem uma.
Natael abriu um sorriso submisso e fez uma reverência sentado, mas a pele em torno dos olhos empalidecera. E foi mesmo “A marcha da morte” que ele começou a tocar, mas com a harpa soando mais cortante do que nunca, um lamento com ares de canto fúnebre que com certeza faria qualquer alma chorar. Olhou fixamente para Rand, como se esperasse notar algum efeito.
Rand se virou e estirou-se nos carpetes com a cabeça voltada para os mapas e uma almofada vermelha e dourada debaixo do cotovelo.
— Lan, você poderia pedir para os outros entrarem?
O Guardião fez uma reverência formal antes de sair da tenda. Foi a primeira vez que Lan fez aquilo, mas Rand mal se deu conta.
A batalha teria início no dia seguinte. Era um fingimento educado dizer que Rand ajudara Rhuarc e os demais a armar um plano. Ele era suficientemente sagaz para saber o que não sabia, e, apesar de todas as conversas que tivera com Lan e Rhuarc, ainda não estava pronto. Já planejei cem batalhas deste porte ou até maiores, e já dei ordens que levaram a dez vezes mais batalhas. Não era um pensamento seu. Lews Therin entendia de guerra — entendera de guerra —, mas Rand al’Thor, não, e ele era al’Thor. Rand ouvia, fazia perguntas, e assentia como se entendesse quando os chefes diziam que algo devia ser feito de determinada maneira. Às vezes entendia mesmo, mas desejava que não, porque sabia de onde viera tal compreensão. Sua única contribuição real fora afirmar que Couladin precisava ser derrotado sem que a cidade fosse destruída. De qualquer modo, esta reunião no máximo acrescentaria alguns detalhes ao que já fora decidido. Com todo o seu conhecimento recém-descoberto, Mat teria sido útil.