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A brecha, no entanto, se fechou logo atrás de Lan, e, quando as mulheres começaram a se mover, Rand não teve outra opção a não ser acompanhá-las. Poderia ter canalizado, claro, atirado Fogo ou derrubado todas elas com Ar, mas aquela não era a melhor maneira de se comportar com pessoas que estavam do lado dele, menos ainda com mulheres. Além disso, não tinha certeza se era possível afastá-las sem matá-las, e talvez nem assim. E, de qualquer modo, Rand havia decidido que seria mais útil na torre, afinal.

Egwene e Aviendha estavam tão caladas quanto Sulin, pelo que Rand ficou grato. Claro que pelo menos parte daquele silêncio tinha a ver com o esforço para subir a colina, e no escuro, sem quebrar o pescoço. Aviendha chegou a soltar uns resmungos aqui e ali que Rand mal escutou, alguma reclamação sobre as saias. Mas nenhuma das duas zombou dele por ter sido tão claramente dissuadido. Embora fosse bem possível que fizessem isso depois. Mulheres pareciam gostar de dar suas alfinetadas justo quando se pensava que o perigo já havia passado.

O céu começou a ficar cinzento e, à medida que a torre de madeira surgiu acima das árvores, o próprio Rand quebrou o silêncio.

— Eu não esperava que você fizesse parte disto, Aviendha. Achei que tivesse dito que as Sábias não participam de batalhas.

Tinha certeza de que ela dissera. Uma Sábia podia caminhar pelo meio de uma batalha sem ser tocada, ou entrar em qualquer forte ou parada de um clã que tivesse uma rixa de sangue com o dela, mas não participava de confrontos, muito menos canalizando. Até Rand ir ao Deserto, mesmo a maioria dos Aiel não sabia que algumas Sábias eram capazes de canalizar, embora houvesse boatos de habilidades estranhas e, às vezes, de algo que os Aiel pensavam que parecia canalização.

— Eu ainda não sou uma Sábia — respondeu ela, gentilmente, mexendo no xale. — Se uma Aes Sedai como Egwene pode tomar parte, eu também posso. Organizei isso hoje de manhã enquanto você ainda estava dormindo, mas vinha pensando no assunto desde que você pediu a Egwene.

Àquela altura, já havia luz suficiente para ele perceber Egwene enrubescendo. Quando notou que Rand estava olhando, ela tropeçou nos próprios pés, e ele teve que segurá-la pelo braço para evitar que caísse. Evitando encará-lo, ela se soltou. Talvez Rand não tivesse de se preocupar com nenhuma alfinetada da amiga. Cruzando os bosques esparsos, subiram em direção à torre.

— Não tentaram impedir? Amys, quero dizer, ou Bair, ou Melaine? — Ele sabia que não. Se tivessem, ela não estaria ali.

Aviendha balançou a cabeça e, em seguida, franziu o cenho, pensativa.

— Passaram um tempão conversando com Sorilea e então me disseram para fazer o que eu achasse certo. O normal é me dizerem para fazer o que elas acham certo. — Aviendha o encarou de soslaio e acrescentou: — Ouvi Melaine dizer que você traz mudanças.

— É verdade — concordou ele, apoiando o pé no degrau inferior da primeira escada. — Que a Luz me ajude, é verdade.

A vista de cima da plataforma era magnífica mesmo a olho nu, uma longa extensão de colinas arborizadas. As árvores eram espessas o bastante para esconder os Aiel em marcha rumo a Cairhien — a maioria já devia estar em posição —, mas a alvorada banhava a cidade com uma luz dourada. Um rápido rastreio com uma das lunetas mostrou que as colinas estéreis ao longo do rio estavam plácidas e pareciam desprovidas de vida. Aquilo mudaria em breve. Os Shaido estavam ali, mesmo que escondidos no momento. Não permaneceriam escondidos quando Rand começasse a atirar… O quê? Não o fogo devastador. O que quer que fizesse, precisaria alarmar os Shaido o máximo possível antes que seus Aiel atacassem.

Egwene e Aviendha passaram um tempo se alternando na outra luneta, fazendo pausas para discussões tranquilas, mas agora estavam apenas conversando baixinho. Por fim, após trocarem meneios de cabeça, aproximaram-se do corrimão e olharam na direção de Cairhien, as mãos apoiadas na madeira cortada de forma grosseira. A pele de Rand ficou subitamente arrepiada. Uma delas estava canalizando, talvez ambas.

O que ele percebeu primeiro foi o vento soprando em direção à cidade. Não era uma brisa, e sim o primeiro vento de verdade que sentira naquele terreno. E nuvens começavam a se formar acima de Cairhien, mais pesadas ao sul, tornando-se cada vez mais espessas e escuras diante de seus olhos, se agitando. Somente ali, sobre Cairhien e os Shaido. Em todos os outros lugares que sua vista alcançava, o céu estava azul e límpido, só com uma ou outra nuvenzinha branca bem alta. Mesmo assim, os trovões irromperam, longos e pesados. De repente, um relâmpago desceu como uma facada, um raio de prata recortado que rasgou o alto de uma colina mais abaixo da cidade. Antes que o estalo do primeiro raio atingisse a torre, dois outros crepitaram em direção ao solo. Bifurcações furiosas dançavam por todo o céu, mas aquelas lanças únicas de um branco reluzente golpeavam com a regularidade de um coração batendo. De repente, o chão explodiu onde nenhum relâmpago caíra, e, feito uma fonte, jorrou a cinquenta pés, e então de novo e de novo em outros pontos.

Rand não tinha ideia de qual das mulheres estava fazendo o quê, mas as duas com certeza pareciam prontas para botar os Shaido para correr. Era hora de fazer a parte dele, ou ficaria só assistindo. Abriu-se e agarrou saidin. Um fogo gelado varreu a parte externa do Vazio que cercou Rand al’Thor. Friamente, ignorou a imundície oleosa que lhe invadia, oriunda da mácula, e controlou as torrentes selvagens do Poder que ameaçavam engolfá-lo.

Daquela distância, havia limites para o que era capaz de fazer. Na verdade, sem angreal ou ter’angreal, aquela era a distância máxima em que podia, de fato, fazer alguma coisa. Devia ser por isso que as mulheres estavam canalizando um relâmpago de cada vez, uma explosão depois da outra. Se ele estava em seu limite, elas deviam estar forçando os delas.

Uma lembrança deslizou pelo Vazio. Não dele, de Lews Therin. Desta vez, Rand não ligou. Em um instante, canalizou, e uma bola de fogo envelopou o topo de uma colina a umas cinco milhas de distância, uma massa agitada de chamas amarelo-claras. Quando desapareceu, ele viu mesmo sem a luneta que a colina estava mais baixa e com o cume negro, aparentemente derretida. Com os três juntos, talvez nem houvesse necessidade de os clãs lutarem contra Couladin.

Ilyena, meu amor, me perdoe!

O Vazio estremeceu. Por um momento, Rand cambaleou à beira da destruição. Ondas do Poder Único lhe atravessaram furiosamente, quebrando em espuma de medo. A mácula parecia se solidificar em torno do seu coração feito uma rocha fétida.

Rand apertou o corrimão até as juntas doerem e se obrigou a recobrar a calma, retendo o Vazio à força. Dali em diante, recusou-se a dar ouvidos aos pensamentos em sua cabeça. Em vez disso, concentrou tudo na canalização, em cauterizar uma colina atrás da outra de forma metódica.

Posicionado bem atrás de qualquer linha de árvores que houvesse no cume, Mat prendeu o focinho de Pips sob o braço, para que o cavalo não relinchasse enquanto assistia a uns mil Aiel esgueirando-se na direção dele, vindos das colinas ao sul. O sol começara a surgir no horizonte, criando sombras compridas que ondulavam ao lado da massa em trote. O clima ameno da noite já dava lugar ao calor do dia. O ar ficaria abafado assim que o sol ganhasse qualquer altura. Mat já começava a suar.

Os Aiel ainda não o tinham visto, mas ele não duvidava de que isso logo aconteceria, caso esperasse mais tempo ali. Não fazia grande diferença que aqueles só pudessem ser os homens de Rand — se Couladin tivesse homens ao sul, o dia ficaria muito interessante para quem fosse estúpido o bastante para se colocar no meio do confronto —, e não fazia grande diferença porque Mat não correria o risco de deixar que o vissem. Naquela manhã, já ficara suficientemente perto de uma flecha para continuar tão descuidado. Distraído, correu os dedos pela bela tira rasgada no ombro do casaco. Boa pontaria, para um alvo móvel apenas parcialmente visível em meio às árvores. Acharia ainda mais admirável caso o alvo não tivesse sido ele mesmo.