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Sem tirar os olhos dos Aiel que se aproximavam, Mat conduziu Pips com cuidado mais para o fundo do matagal esparso. Caso eles o vissem e apertassem o passo, Mat descobriria na hora. Diziam que os Aiel eram capazes de alcançar correndo um homem que estivesse a cavalo, e Mat pretendia ter uma boa margem para o caso de eles tentarem.

Quando as árvores cobriram sua visão dos Aiel, Mat acelerou o passo, conduzindo Pips para a encosta oposta antes de montar e virar para oeste. Todo cuidado era pouco para alguém que pretendesse sobreviver àquele dia ali. Ele resmungou sozinho enquanto cavalgava, o chapéu puxado para baixo para esconder o rosto, a lança de cabo preto atravessada no cepilho. Oeste. Outra vez.

O dia havia começado tão bem, umas duas horas antes da primeira luz, quando Melindhra saíra para algum encontro com as Donzelas. Pensando que Mat estava dormindo, ela sequer olhara para ele ao sair resmungando baixinho sobre Rand al’Thor, honra, e “as Far Dareis Mai acima de tudo”. Parecia estar discutindo sozinha, mas, francamente, Mat pouco se importava se a mulher queria picar Rand em pedacinhos ou cozinhá-lo. Menos de um minuto depois de ela sair da tenda, o rapaz já estava atulhando os alforjes. Ninguém olhara duas vezes para Mat enquanto ele encilhava Pips e partia para o sul feito um fantasma. Um bom começo. Só não contara com as colunas de Taardad, Tomanelle e todos os outros malditos clãs zanzando por ali rumo ao sul. Não servia de consolo que aquilo fosse quase perfeitamente o que ele havia sugerido para Lan. Mat queria ir para o sul, e aqueles Aiel forçaram-no a ir em direção ao Alguenya. Em direção aonde aconteceriam os confrontos.

Uma ou duas milhas depois, virou Pips com cuidado encosta acima e parou bem em meio às árvores que se espalhavam pelo cume. Era uma colina mais alta que a maioria, e teve uma boa visão. Desta vez, não havia Aiel à vista, mas a coluna que serpenteava ao longo da base do vale sinuoso era quase tão ruim quanto. Tairenos montados lideravam o pelotão logo atrás de um punhado de estandartes coloridos de lordes, com um intervalo até uma grossa e eriçada serpente composta por piqueiros que caminhavam na poeira erguida pelos tairenos, e depois outro intervalo até os cavalos dos cairhienos, com sua profusão de estandartes, flâmulas e con. Os cairhienos não mantinham nenhuma ordem, amontoando-se conforme os lordes iam para a frente e para trás para conversar, mas ao menos tinham flanqueadores dos dois lados. Em todo caso, Mat teria uma rota livre para o sul assim que os homens passassem. E eu não vou parar até já estar na metade do caminho até o maldito Erinin!

Uma pequena movimentação chamou sua atenção para a frente da coluna abaixo. Não estivesse tão alto, não a teria avistado. Nenhum dos cavaleiros tinha como ver, com certeza. Mat desenterrou a pequena luneta dos alforjes — Kin Tovere gostava dos dados —, olhou na direção do que avistara e assobiou baixinho por entre os dentes. Aiel, pelo menos tantos quantos os homens no vale, e, se não fossem os de Couladin, estavam querendo armar uma festa surpresa, já que estavam deitados, escondidos em meio aos arbustos secos e às folhas mortas.

Por um momento, Mat tamborilou os dedos na coxa. Em pouco tempo, haveria alguns cadáveres ali embaixo. E não muitos seriam de Aiel. Não é da minha conta. Estou fora dessa, longe daqui, e indo para o sul. Esperaria um tempinho e partiria, enquanto os homens estivessem ocupados demais para perceber.

O tal de Weiramon — Mat ouvira o nome do homem da barba grisalha na véspera — era um completo tolo. Nada de guardas à frente e nada de batedores, ou o maldito saberia o que está esperando por ele. Por sinal, pelo modo como as colinas se dispunham e pela forma como o vale era sinuoso, os Aiel também não enxergavam a coluna, apenas a tênue poeira subindo para o céu. Decerto tinham vigias para posicioná-los no lugar correto. Não podiam estar simplesmente esperando ali, contando com o acaso.

Assobiando distraidamente “Dançando com Jak das Sombras”, Mat tornou a pôr a luneta no olho e estudou o topo das colinas. Sim. O comandante Aiel deixara alguns homens em um ponto onde poderiam emitir um alerta pouco antes de a coluna alcançar o local de batalha. Mas nem eles já podiam ver a aproximação. Em poucos minutos, os primeiros tairenos entrariam em seu campo de visão, mas, até lá…

Foi um choque para ele esporear Pips e fazê-lo partir encosta abaixo a galope. Sob a Luz, o que eu estou fazendo? Bem, não podia só ficar ali, parado, e deixar todos aqueles homens irem em direção à morte feito gansos para o abate. Podia alertá-los. Só isso. Dizer o que lhes esperava à frente, então ir embora.

Os batedores cairhienos o avistaram se aproximando antes que Mat chegasse ao pé da encosta, claro, quando ouviram os passos ritmados de Pips. Dois ou três baixaram as lanças. Mat não ficava exatamente feliz de ter um pé e meio de aço apontado para ele, e menos ainda de ter três vezes essa quantidade, mas era óbvio que um único homem não configurava uma ameaça, nem mesmo cavalgando feito um louco. Deixaram-no passar, e ele se aproximou dos lordes cairhienos na liderança por tempo suficiente para gritar:

— Parem aqui! Agora! Sob as ordens do Lorde Dragão! Ou ele vai canalizar a cabeça de vocês para dentro da barriga e dar seus próprios pés para vocês comerem no café da manhã!

Seus calcanhares esporearam, e Pips disparou para a frente. Mat só deu uma olhadela para trás, para ter certeza de que os homens estavam fazendo o que ele mandou — e estavam, ainda que demonstrando alguma confusão a respeito; as colinas ainda os escondiam dos Aiel e, assim que a poeira assentasse, eles não teriam como saber que os tairenos estavam ali —, e então Mat partiu, inclinado contra o cavalo, açoitando Pips com o chapéu e galopando ao lado da infantaria.

Se eu esperar e deixar Weiramon repassar as ordens, vai ser tarde demais. Só isso. Ele daria o alerta e iria embora.

Os homens a pé marchavam em blocos de uns duzentos piqueiros, com um oficial montado à frente de cada bloco e talvez cinquenta arqueiros ou besteiros atrás. A maioria olhou com curiosidade para Mat quando ele passou às pressas, as patas de Pips levantando nuvens de poeira, mas ninguém perdeu o passo. Algumas das montarias dos oficiais até se agitaram, como se os cavaleiros quisessem se aproximar e descobrir o motivo de Mat estar correndo, mas nenhum deles chegou a abandonar sua posição. Boa disciplina. Eles iam precisar dela.

Defensores da Pedra fechavam a fila dos tairenos, com suas armaduras e mangas bufantes listradas de preto e dourado e plumas de várias cores nos elmos identificando os oficiais e suboficiais. O restante trajava armaduras iguais, mas com mangas nas cores de diversos lordes. Com casacos de seda, os próprios lordes cavalgavam à frente com armaduras ornamentadas e grandes plumas brancas, os estandartes tremulando atrás deles com a brisa que ia se intensificando em direção à cidade.

Puxando as rédeas diante dos homens com força o bastante para fazer Pips derrapar, Mat gritou:

— Parem, em nome do Lorde Dragão!

Parecia a maneira mais rápida de fazê-los parar, mas, por um instante, Mat pensou que todos passariam cavalgando por cima dele. Quase no último instante, um jovem lorde que Mat se recordava de ter visto do lado de fora da tenda de Rand agitou a mão e, então, todos os homens puxaram as rédeas em uma avalanche de berros de comando que percorreu toda a extensão da coluna. Weiramon não estava lá. Nenhum dos lordes era mais do que dez anos mais velho que Mat.

— O que significa isso? — perguntou o sujeito que fizera a sinalização. Olhos escuros encaravam-no de modo arrogante junto a um nariz arrebitado, o queixo erguido de forma que a barba parecia pronta para apunhalá-lo. O suor que lhe escorria pelo rosto estragava só um pouco a cena. — Foi o próprio Lorde Dragão quem me deu essa ordem. Quem é você para…?