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Ele foi interrompido quando outro homem que Mat conhecia lhe puxou pela manga e sussurrou algo em um tom urgente. Com sua cara de batata sob o elmo, Estean parecia extenuado, e também com calor — os Aiel o haviam interrogado a respeito das condições na cidade, Mat ficara sabendo —, mas o homem já jogara cartas com Mat em Tear e sabia exatamente quem ele era. Apenas a armadura de Estean possuía lascas na ornamentação dourada. Nenhum dos demais tinha feito mais do que cavalgar arrumadinhos. Por enquanto.

O queixo do sujeito de nariz arrebitado foi baixando conforme ele escutava, e, depois que Estean se afastou, seu tom de voz foi mais moderado:

— Eu não quis ofender… ah… Lorde Mat. Sou Melanril, da Casa Asegora. Como posso servir ao Lorde Dragão? — A moderação se transformou em hesitação na pergunta final, e Estean se intrometeu, ansioso.

— Por que tivemos que parar? Sei que o Lorde Dragão disse para nos contermos, Mat, mas, que a minha alma queime, não há honra alguma em ficar sentado e deixar os Aiel lutarem todos os confrontos. Por que temos que ficar encarregados de perseguir os inimigos depois que já estiverem derrotados? Além do mais, meu pai está na cidade, e… — O homem deixou a voz morrer sob o olhar de Mat.

Mat balançou a cabeça e se abanou com o chapéu. Os tolos nem sequer estavam onde deveriam. Também não havia a menor chance de fazê-los dar meia-volta. Mesmo que Melanril obedecesse — e, olhando para ele, Mat não tinha certeza se seria o caso, mesmo sob supostas ordens do Lorde Dragão —, não haveria chance. O homem estava na sela, totalmente à vista dos sentinelas Aiel. Se a coluna começasse a dar meia-volta, eles saberiam que haviam sido descobertos e, muito provavelmente, atacariam enquanto os tairenos e os cairhienos estivessem enroscados. Seria uma carnificina tão certa quanto se tivessem continuado à frente, ignorantes da situação.

— Onde está Weiramon?

— O Lorde Dragão o mandou de volta para Tear — respondeu Melanril, hesitante. — Para cuidar dos piratas illianenses e dos bandidos nas Planícies de Maredo. Ele estava relutante em ir, claro, mesmo para assumir uma responsabilidade tão grande, mas… Me perdoe, Lorde Mat, mas, se foi o Lorde Dragão que o enviou, como pode não saber…

Mat o interrompeu.

— Eu não sou lorde. E se você quiser questionar o que Rand permite que os outros saibam, questione com ele. — Isso aquietou o sujeito. Ele não estava disposto a questionar o maldito Lorde Dragão. Weiramon era um tolo, mas ao menos tinha idade suficiente para já ter estado em batalhas. Exceto por Estean, parecendo uma saca de nabos amarrada ao cavalo, tudo o que aquele pessoal já tinha visto eram uma ou duas brigas de taverna. E talvez alguns duelos. Bela ajuda isso tudo lhes daria. — Agora todos tratem de me ouvir. Quando vocês passarem por aquela fenda ali na frente entre as próximas duas colinas, os Aiel vão vir que nem uma avalanche para cima de vocês.

Foi como se Mat tivesse dito a eles que haveria um baile, com todas as mulheres suspirando para conhecer um fidalgote taireno. Sorrisos ansiosos irromperam, e os homens começaram a se movimentar nos cavalos, dando tapinhas nas costas uns dos outros e gabando-se de quantos inimigos cada um mataria. Estean era o único a reagir diferente, apenas suspirando e afrouxando a espada dentro da bainha.

— Não fiquem olhando lá para cima! — reclamou Mat. Os tolos. Em um minuto, estariam convocando o ataque! — Mantenham os olhos em mim. Em mim!

Os homens obedeceram porque sabiam de quem Mat era amigo. Melanril e os demais, com suas armaduras belas e intactas, franziam o cenho impacientemente, sem entender por que Mat não queria deixá-los dar início à missão de matar os selvagens Aiel. Não fosse ele amigo de Rand, era provável que tivessem esmagado tanto a ele quanto a Pips.

Mat poderia deixá-los avançar correndo. Fariam isso aos poucos, deixando os piqueiros e a cavalaria cairhiena para atrás, embora os cairhienos talvez se juntassem ao grupo assim que se dessem conta do que estava acontecendo. E todos morreriam. O mais inteligente seria deixar os homens ir à luta enquanto ele seguia na direção oposta. O único problema era que, assim que aqueles idiotas permitissem que os Aiel soubessem que haviam sido descobertos, os próprios Aiel poderiam decidir fazer algo mais sofisticado, como dar a volta para investir pelos flancos contra os tolos restantes. Se isso acontecesse, não havia certeza de que Mat conseguiria escapar.

— O que o Lorde Dragão quer que vocês façam — disse a eles — é avançar devagar, como se não houvesse nenhum Aiel nas próximas cem milhas. Assim que os lanceiros atravessarem a fenda, vão formar um cordão de isolamento, e aí vocês se posicionam dentro dele com o dobro da velocidade.

— Dentro! — protestou Melanril. Resmungos raivosos irromperam entre os outros jovens lordes, tirando Estean, que parecia pensativo. — Não há honra alguma em se esconder atrás de malditos…

— Tratem de obedecer! — urrou Mat, puxando Pips pelas rédeas até bem perto do cavalo de Melanril. — Ou, se os malditos Aiel não matarem vocês, Rand mata, e depois, o que quer que ele deixe sobrando, eu mesmo transformo em linguiça! — Aquilo já estava demorando demais. Os Aiel deviam estar se perguntando sobre o que estavam conversando. — Com sorte, vocês vão estar posicionados antes que os Aiel possam alcançá-los. Se tiverem besteiros nas selas, usem. Se não, aguentem firme. Vocês vão fazer o maldito ataque de vocês, e vão saber a hora certa, mas caso se movam cedo demais…! — Mat praticamente sentia o tempo se esgotando.

Aninhando a coronha da lança no estribo, Mat esporeou Pips de volta para a coluna. Quando olhou por sobre o ombro, Melanril e os outros conversavam e o espiavam. Pelo menos não estavam indo a toda vale acima.

O comandante dos piqueiros se revelou um cairhieno pálido e esbelto, meia cabeça mais baixo que Mat e montado em um castrado cinza que já parecia mais para lá do que para cá. Daerid, porém, tinha o olhar severo, um nariz bastante quebrado e três cicatrizes que ziguezagueavam o rosto, uma delas não muito antiga. Tirou o elmo em forma de sino enquanto conversava com Mat. A parte frontal da cabeça era raspada. O homem não era um lorde. Talvez tivesse feito parte do exército, antes de a guerra civil começar. Sim, seus homens sabiam formar um ouriço. Ainda não havia enfrentado Aiel, mas já combatera salteadores e a cavalaria andoriana. Ele insinuou que também já tinha lutado contra outros cairhienos, por uma das Casas que disputavam o trono. Daerid não soava nem ansioso nem relutante, e sim como um homem com um trabalho a realizar.

A coluna se afastou quando Mat virou a cabeça de Pips para o outro lado. Os homens marchavam em um ritmo comedido, e uma rápida olhada para trás mostrou que os cavalos tairenos se moviam na mesma cadência.

Mat acelerou Pips, mas não muito. Parecia sentir os Aiel às costas, imaginando o que ele teria dito e aonde estava indo, e por quê. Apenas um mensageiro que já deu sua mensagem e está indo embora. Nada com que se preocupar. Decerto torcia para que fosse isso que os Aiel estavam pensando, mas seus ombros só relaxaram quando ele teve certeza de que não podia mais ser visto.

Os cairhienos ainda estavam esperando onde Mat os deixara. Os flanqueadores também permaneciam em posição. Estandartes e con formavam um aglomerado onde os lordes haviam se reunido. Eram um entre cada dez homens, ou mais. A maioria usava armaduras comuns e, onde havia douraduras ou prateados, a peça estava batida como se um ferreiro bêbado tivesse posto as mãos nela. Algumas das montarias daqueles homens faziam a de Daerid parecer o cavalo de batalha de Lan. Será que conseguiriam fazer ao menos o que era necessário? Mas os rostos que se voltaram para Mat eram duros, e os olhares, mais duros ainda.