Já fazia tempo que Rand passara a manejar saidin por meio do angreal em seu bolso, a escultura em pedra do homenzinho gordo. Ainda assim, usar o Poder passara a exigir esforço, ter que urdi-lo àquela distância de milhas e milhas… Mas só os fios rançosos que rajavam o Poder que ele agarrava impediam que Rand sorvesse mais, que tentasse puxar tudo para si. O Poder era doce, com ou sem mácula. Após horas canalizando sem parar, estava exausto. Ao mesmo tempo, tinha de lutar com ainda mais força contra o próprio saidin, empregar mais vontade para evitar que acabasse virando pó ali mesmo, que sua mente se transformasse em cinzas. Era cada vez mais difícil resistir à destruição de saidin, mais difícil resistir ao desejo de atrair mais, mais difícil dar conta do que ele já atraíra. Uma espiral negativa repugnante, e horas pela frente antes que a batalha estivesse decidida.
Limpou o suor dos olhos e segurou o corrimão áspero da plataforma. Estava próximo do limite, mas era mais forte que Egwene e Aviendha. A Aiel estava de pé, espiando na direção de Cairhien e das nuvens de tempestade, curvando-se de tempos em tempos para olhar pela comprida luneta. Egwene estava sentada de pernas cruzadas, as costas apoiadas em uma estaca ainda coberta pela casca cinza, os olhos fechados. Ambas pareciam tão extenuadas quanto ele se sentia.
Antes que Rand pudesse fazer qualquer coisa — não que soubesse o quê, já que não tinha nenhuma habilidade com a Cura —, os olhos de Egwene se abriram, e ela se levantou e trocou algumas palavras sussurradas com Aviendha que o vento tratou de levar para longe até mesmo de sua audição potencializada por saidin. Então Aviendha se sentou no lugar de Egwene e deixou a cabeça se recostar na estaca. As nuvens negras em torno da cidade continuavam a disparar relâmpagos, mas agora vinham mais tridentes estrondosos do que raios únicos.
Então elas estavam se revezando, dando tempo para a outra descansar. Seria bom ter alguém para fazer o mesmo com ele, mas Rand não estava arrependido de mandar Asmodean ficar na tenda. Não teria confiado nele para canalizar. Especialmente naquele momento. Quem saberia o que ele poderia fazer, caso visse Rand enfraquecido daquele jeito?
Levemente trôpego, Rand girou a luneta para examinar as colinas em torno da cidade. Agora, sim, via-se vida ali naqueles topos. E morte. Para onde quer que olhasse, havia confrontos, Aiel contra Aiel, mil ali, cinco mil acolá, fervilhando no alto das colinas descampadas e enroscados demais para que ele pudesse fazer alguma coisa. Não conseguiu localizar a coluna da cavalaria e dos lanceiros.
Já os tinha visto três vezes, uma delas enfrentando o dobro de Aiel que eles somavam. Rand tinha certeza de que ainda estavam por lá. Tinha poucas esperanças de que Melanril tivesse decidido obedecer às ordens dele, àquela altura. Escolher o homem só porque ele tivera a delicadeza de ficar constrangido pelo comportamento de Weiramon fora um erro, mas o tempo para fazer a escolha tinha sido curto, e ele precisara se livrar de Weiramon. Não havia o que fazer a respeito, naquele momento. Talvez um dos cairhienos pudesse ser alçado ao comando. Se é que uma ordem direta de Rand pudesse fazer os tairenos obedecerem a um cairhieno.
Uma massa que se amontoava bem ao lado da alta muralha cinzenta da cidade atraiu sua atenção. Os enormes portões de ferro estavam abertos, Aiel lutando contra cavaleiros e piqueiros quase na parte externa, enquanto outro pessoal tentava fechar os portões, fracassando por conta da pressão exercida pelos corpos. Cavalos com selas vazias e homens de armadura caídos a meia milha do portão demarcavam onde a incursão havia sido forçada a recuar. Choviam flechas das muralhas, além de pedaços de cascalho do tamanho de cabeças — e até uma ou outra lança voando e golpeando com força suficiente para atravessar dois ou três homens, embora Rand ainda não conseguisse identificar de onde vinham exatamente —, mas os Aiel passavam pelos mortos e chegavam cada vez mais perto de forçar a entrada. Uma rápida varredura mostrou a Rand mais duas colunas de Aiel trotando em direção aos portões, talvez três mil no total. Não tinha dúvidas de que também fossem de Couladin.
Rand tinha consciência de que estava rangendo os dentes. Se os Shaido entrassem em Cairhien, ele jamais os empurraria para o norte. Teria que desenterrá-los rua a rua. A quantidade de vidas perdidas tornaria insignificante o número atual de mortos, e a própria cidade acabaria em ruínas feito Eianrod, se não Taien. Cairhienos e Shaido encontravam-se misturados feito formigas em uma tigela, mas ele precisava tomar alguma providência.
Respirou fundo e canalizou. As duas mulheres tinham preparado o terreno com aquelas nuvens de tempestade. Rand não precisava enxergar as tessituras delas para tirar proveito. Poderosos relâmpagos azul-prateados acertaram os Aiel uma vez, duas, e de novo, tão rápido quanto alguém conseguia bater palmas.
Rand ergueu a cabeça e piscou para fazer sumir as linhas cintilantes que ainda pareciam cruzar sua vista, e, quando tornou a olhar pelo tubo comprido, havia Shaido pelo chão feito cevada cortada em todos os pontos onde os relâmpagos tinham caído. Havia homens e cavalos atingidos também na área mais próxima aos portões, alguns imóveis, mas os ilesos arrastavam os feridos e os portões começavam a se fechar.
Quantos não vão conseguir voltar para dentro? Quantos dos meus acabei matando? A verdade nua e crua era que isso não importava. Aquilo precisara ser feito, e fora.
E muito bem. De um jeito distante, Rand sentiu os joelhos vacilarem. Se pretendia aguentar até o final do dia, precisaria diminuir o ritmo. Nada de ataques a esmo para todos os lados. Teria que identificar onde era particularmente necessário, onde podia fazer alguma…
As nuvens carregadas se amontoavam apenas sobre a cidade e as colinas ao sul, mas isso não impediu que relâmpagos irrompessem do céu claro e sem nuvens acima da torre, lampejando na direção das Donzelas reunidas logo abaixo com um estalo ensurdecedor.
Com o cabelo eriçado pela energia no ar, Rand observou. Sentiu aquele raio de maneira diferente; percebeu a tessitura de saidin que o criara. Então Asmodean ficou tentado mesmo lá nas tendas.
No entanto, não havia tempo para pensar. Como rápidas batidas em um tambor gigante, raios caíram em sequência, indo em meio às Donzelas até um último acertar a base da torre e gerar uma explosão de estilhaços do tamanho de braços e pernas.
Quando a torre começou a se inclinar lentamente, Rand se atirou em Egwene e Aviendha. De alguma maneira, conseguiu agarrar as duas com um só braço e enroscou o outro em uma estaca que, àquela altura, era o lado mais alto da plataforma. As mulheres o encararam de olhos arregalados, as bocas se abrindo, mas, assim como não havia tempo para pensar, também não havia tempo para falar. A torre de madeira estilhaçada tombou contra os galhos das árvores. Por um instante, Rand acreditou que pudessem amortecer a queda.
Com um estalo, a estaca à qual ele se segurava rompeu. O chão subiu, e Rand perdeu o fôlego um segundo antes de as duas mulheres caírem por cima dele. Tudo ficou escuro.
Rand recobrou a consciência devagar. A audição voltou primeiro.
— … nos desenterrou como se fôssemos um pedregulho e nos empurrou colina abaixo durante a noite. — Era a voz de Aviendha, baixa, como se estivesse falando consigo mesma. Algo tocava o rosto dele. — Você nos despiu do que somos, do que éramos. Precisa nos dar algo em troca, algo para sermos. Nós precisamos de você. — A coisa tocando seu rosto desacelerou, os movimentos se tornaram mais suaves. — Eu preciso de você. Não para mim, entenda. Para Elayne. O que existe agora entre mim e ela é entre mim e ela, mas eu vou lhe entregar para Elayne. Eu vou! Se você morrer, vou carregar seu corpo e dar para ela! Se você morrer…!