Os olhos de Rand se abriram e, por um momento, os dois se encararam quase nariz com nariz. O cabelo dela estava todo desgrenhado, a echarpe da cabeça sumira, e um hematoma roxo lhe marcava a bochecha. Aviendha se endireitou em um pulo, dobrou um pano úmido manchado de sangue e começou a dar batidinhas na testa de Rand com consideravelmente mais força do que antes.
— Não tenho nenhuma intenção de morrer — respondeu ele, embora, na realidade, não tivesse muita certeza daquilo.
O Vazio e saidin já não estavam mais ali, claro. Só de pensar em perdê-los daquela forma o fez tremer. Fora muita sorte saidin não ter incinerado sua mente por completo naquele último instante. A ideia de agarrar a Fonte de novo o fez gemer. Sem o Vazio para protegê-lo, sentia todas as dores, todos os machucados e arranhões, completamente. Estava tão cansado que poderia ter se deixado cair e dormir ali mesmo, caso não estivesse tão dolorido. Então era até bom que estivesse machucado, já que com certeza não poderia dormir. Não por muito tempo.
Deslizou a mão por debaixo do casaco, tocou na lateral do corpo e furtivamente limpou na camisa o sangue dos dedos antes de pôr a mão para fora de novo. Não era de se surpreender que uma queda como aquela tivesse aberto a ferida mal curada, que nunca cicatrizava de fato. Rand não parecia estar sangrando tanto assim, mas, se as Donzelas vissem, ou Egwene, ou mesmo Aviendha, talvez ele precisasse lutar para não ser arrastado até Moiraine para ser Curado. Ainda tinha muito o que fazer para se permitir aquilo — ser Curado, acima de tudo, seria como levar uma porretada na têmpora — e, além do mais, devia haver muitas feridas mais graves para ela Curar.
Sorrindo e suprimindo outro gemido, Rand se pôs de pé com apenas uma ajudinha de Aviendha. E prontamente se esqueceu de todas as lesões.
Sulin estava sentada no chão ali perto, com Egwene fazendo uma bandagem em um corte sangrento em seu escalpo e resmungando furiosamente consigo mesma porque não sabia Curar. Mas a Donzela de cabelo branco não era a única baixa, e nem de longe a pior. Por toda parte, mulheres trajando o cadin’sor cobriam os mortos com lençóis e cuidavam daqueles que haviam meramente se queimado, isso se “meramente” pudesse ser aplicado para queimaduras de relâmpagos. Exceto pelos resmungos de Egwene, o topo da colina repousava quase em silêncio, até as mulheres machucadas estavam quietas, apenas respirando ruidosamente.
A torre de madeira, agora praticamente irreconhecível, não poupara as Donzelas ao desabar, quebrando braços e pernas e abrindo cortes. Rand viu quando um lençol cobriu o rosto de uma Donzela de cabelo loiro-acobreado, quase do mesmo tom do de Elayne, a cabeça torcida em um ângulo nada natural e os olhos vítreos fixos. Jolien. Uma das primeiras a cruzar a Muralha do Dragão em busca d’Aquele Que Vem Com a Aurora. Ela fora até a Pedra de Tear por ele. E agora estava morta. Por ele. Ah, você se saiu bem em manter as Donzelas fora de perigo, pensou Rand, com amargura. Muito bem mesmo.
Ainda sentia os relâmpagos, ou melhor, os resíduos de sua formação. Quase como a imagem residual que ficara em seus olhos mais cedo, era capaz de traçar a tessitura, apesar de ela estar desaparecendo. Para sua surpresa, vinham do oeste, e não das tendas. Não era Asmodean, então.
— Sammael. — Rand tinha certeza. Sammael enviara aquele ataque em Passo de Jangai, Sammael estava por trás dos piratas e das invasões em Tear, e fora Sammael quem fizera aquilo. Rand abriu a boca para deixar escapar um rosnado, e sua voz ecoou um sussurro áspero. — Sammael! — Não percebeu que avançara um passo, até Aviendha segurá-lo pelo braço. Logo depois, Egwene pegou o outro, as duas agarrando-se a ele como se pretendessem fincá-lo no chão.
— Não seja um perfeito cabeça de lã — advertiu Egwene, parecendo assustada com o olhar de Rand, mas sem soltá-lo. Ela recolocara a echarpe marrom em torno da cabeça, mas, tendo apenas os dedos para se pentear, seu cabelo não ficara arrumado, e a blusa e a saia ainda estavam cobertas de poeira — Quem quer que tenha feito isso, por que você acha que esperou tanto, até que você já estivesse cansado? Porque caso não conseguisse te matar e você fosse atrás da pessoa, seria presa fácil. Você mal consegue ficar de pé!
Aviendha também não estava disposta a soltá-lo, sustentando o olhar dele.
— Precisam de você aqui, Rand al’Thor. Aqui, Car’a’carn. Sua honra reside em matar esse homem ou está aqui, entre aqueles que você trouxe para estas terras?
Um jovem Aiel chegou correndo pelo meio das Donzelas, a shoufa em torno dos ombros, lança e broquel balançando. Se achou estranho encontrar duas mulheres segurando Rand, não deu sinal. Olhou para os vestígios destruídos da torre e para os mortos e feridos com leve curiosidade, como se estivesse se perguntando como aquilo podia ter acontecido e onde os inimigos mortos poderiam estar. Cravando a ponta da lança no chão à frente de Rand, anunciou:
— Sou Seirin, do ramo Shorara dos Tomanelle.
— Vejo você, Seirin — respondeu Rand, com a mesma formalidade. Não foi fácil, com duas mulheres segurando-o como se achassem que ele fosse fugir.
— Han, dos Tomanelle, envia uma mensagem para o Car’a’carn. Os clãs a leste estão indo um em direção ao outro. Todos os quatro. Han pretende se reunir com Dhearic, e convidou Erim para se juntar a eles.
Rand respirou com cuidado e esperou que as mulheres pensassem que sua careta fora por conta da notícia. A lateral do corpo ardia, e ele sentia o sangue se espalhando devagar pela camisa. Então não haveria nada para forçar Couladin a ir para o norte quando os Shaido cedessem. Se é que cederiam. Ainda não haviam dado sinal disso, pelo que Rand tinha visto. Por que os Miagoma e os demais tinham decidido se unir? Se a intenção deles era partir contra Rand, estavam apenas dando um alerta. Mas, se a intenção fosse partir contra Rand, Han, Dhearic e Erim estariam em menor número, e se os Shaido resistissem por tempo suficiente e os quatro clãs conseguissem avançar… Do outro lado das colinas arborizadas, Rand viu que começara a chover sobre a cidade, agora que Egwene e Aviendha não estavam mais segurando as nuvens. Isso atrapalharia os dois lados. A menos que as mulheres estivessem em melhor condição do que pareciam, talvez não tivessem como recuperar o controle, à tamanha distância.
— Diga a Han fazer o que for preciso para mantê-los longe de nós.
Jovem como era — mais ou menos da idade de Rand, aliás —, Seirin ergueu a sobrancelha, surpreso. Óbvio. Han não faria diferente, e Seirin sabia disso. Esperou apenas o suficiente para se certificar de que Rand não tinha mais nenhuma mensagem. Então saiu correndo colina abaixo, tão rápido quanto viera. Sem dúvida não queria perder mais do que o necessário dos confrontos, que, por sinal, já deviam ter se iniciado, mais ao leste.
— Preciso que alguém vá buscar Jeade’en — afirmou Rand, assim que Seirin saiu correndo.
Se tentasse andar toda aquela distância, realmente precisaria que as mulheres o segurassem de pé. As duas não se pareciam nem um pouco, mas conseguiram fazer praticamente a mesma expressão desconfiada. Aquele cenho franzido devia ser uma das coisas que toda garota aprendia com a mãe.
— Eu não vou atrás de Sammael. — Não ainda. — Mas preciso chegar mais perto da cidade.
Rand fez um meneio na direção da torre desabada. Era o único gesto possível, com as duas segurando-o. Talvez Mestre Tovere conseguisse salvar as lentes das lunetas, mas não havia nem três toras da torre que não estivessem quebradas. Por enquanto, nada de observar tudo do alto.
Egwene estava claramente insegura, mas Aviendha mal hesitou antes de pedir para uma jovem Donzela ir atrás dos gai’shain. Para buscar Bruma também, o que ele não previra. Egwene começou a se esfregar, reclamando sozinha da poeira, e Aviendha encontrou um pente de marfim e outra echarpe. Apesar da queda, as duas, de alguma forma, já aparentavam estar consideravelmente menos desgrenhadas do que ele. A fadiga ainda lhes marcava o rosto, mas, contanto que conseguissem canalizar, ambas seriam úteis.