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— O dia todo beber, a noite inteira cantar e com as garotas moedas gastar. E quando tudo acabar, ir dançar com Jak das Sombras.

O sujeito bronzeado não demonstrava o menor interesse em aprender, claro — só aprenderia se os dois o convencessem de que se tratava de um hino de guerra —, mas ouvia, e não era o único. Quando os três saíram de vista, em meio à multidão que se amontoava, já estavam sendo seguidos por outros vinte homens balançando copos amassados e canecas de couro, todos berrando a canção a plenos pulmões.

— Eu também gosto de cerveja e de vinho, e de garotas com um belo sorriso, mas meu maior prazer, infinito, é dançar com Jak das Sombras.

Mat queria nunca ter ensinado a canção a nenhum deles. Mas ensiná-la manteve sua mente ocupada enquanto Daerid impedia que ele sangrasse até a morte. Aquele unguento ardia tanto quanto os próprios cortes, e as habilidades de Daerid com a agulha e a linha jamais deixariam costureira nenhuma com inveja. Só que a canção se espalhara entre aqueles primeiros doze homens como fogo em vegetação seca. A cavalo e a pé, tairenos e cairhienos estavam cantando-a quando retornaram, ao nascer do dia.

Retornaram. De volta para o vale em meio às colinas de onde haviam partido, sob as ruínas da torre de madeira, e sem nenhuma chance de ir embora. Mat tinha se oferecido para ir cavalgando à frente, e Talmanes e Nalesean quase saíram no tapa para decidir quem lhe serviria de escolta. Nem todos haviam se tornado melhores amigos. Só faltava Moiraine aparecer para fazer perguntas sobre onde ele tinha estado e por quê, dando sermão sobre ta’veren e seus deveres, sobre o Padrão e Tarmon Gai’don, até deixá-lo tonto. Ela estava com Rand, sem dúvida, mas acabaria vindo atrás de Mat.

Ergueu os olhos para o topo da colina e o emaranhado de troncos destruídos entre as árvores quebradas. Aquele cairhieno que confeccionara as lunetas para Rand estava lá em cima, fuçando tudo com seus aprendizes. Os Aiel já não queriam mais saber daquilo. Com certeza já passava da hora de Mat ir embora. O medalhão com a cabeça de raposa o protegia de mulheres canalizando, mas Mat já ouvira o bastante de Rand para saber que era diferente quando um homem canalizava. Não tinha interesse em descobrir se o objeto o protegeria de Sammael e sua laia.

Fazendo caretas a cada pontada de dor, ele usou a lança de cabo preto como apoio ao ficar de pé. Ao seu redor, a comemoração continuava. Se ele partisse em direção às fileiras de lanças… Não estava ansioso para encilhar Pips.

— O herói não deve se sentar sem beber.

Levando um susto e grunhindo por conta das pontadas de dor, Mat se virou para encarar Melindhra. Ela trazia um grande jarro de barro em uma das mãos em vez de uma lança, e o rosto estava sem véu, mas os olhos pareciam analisá-lo.

— Escute, Melindhra. Eu posso explicar.

— Explicar o quê? — perguntou ela, passando o braço livre pelos ombros de Mat. Mesmo com o choque repentino, ele tentou manter a postura ereta. Ainda não estava acostumado a ter de olhar para cima para falar com uma mulher. — Eu sabia que você iria procurar sua própria honra. O Car’a’carn projeta uma grande sombra, mas homem nenhum deseja passar toda a vida na penumbra.

Fechando a boca depressa, ele ainda conseguiu murmurar:

— Claro. — Então ela não ia tentar matá-lo. — É exatamente isso.

Aliviado, tomou o jarro da mão dela e sorveu sofregamente, mas quase cuspiu. Aquele era o conhaque de destilação dupla mais puro que ele já havia provado.

Melindhra retomou o jarro por tempo suficiente para beber um gole, então suspirou, agradecida, e o empurrou de volta para Mat.

— Ele era um homem de muita honra, Mat Cauthon. Seria melhor tê-lo capturado, mas, mesmo matando-o, você adquiriu muito ji. Você fez bem em ter ido atrás dele.

A contragosto, Mat olhou para o que estivera evitando encarar e estremeceu. Uma tira de couro prendia a cabeça de Couladin pelos cabelos ruivos no alto do poste perto de onde os Aiel dançavam. Aquele troço parecia sorrir. Para ele.

Ter ido atrás de Couladin? Mat fizera o possível para manter os piqueiros entre ele e qualquer Shaido. Mas aquela flecha lhe tosquiara a lateral da cabeça e, antes mesmo que percebesse, já estava no chão, lutando para se pôr de pé, cercado pelo combate furioso. Usara a lança com a marca do corvo para atacar tudo que o cercava enquanto tentava dar um jeito de voltar para Pips. Couladin surgira do nada, o rosto velado, pronto para matar, mas não havia como confundir aqueles braços nus enlaçados com Dragões em dourado e vermelho. O homem andara fazendo um grande estrago nos piqueiros, usando as próprias lanças, enquanto berrava para que Rand aparecesse e que ele era o verdadeiro Car’a’carn. Talvez acreditasse mesmo nisso, àquela altura. Mat ainda não sabia se Couladin o reconhecera ou não, mas isso não tinha feito nenhuma diferença, não quando o sujeito decidiu passar por cima dele para chegar até Rand. Ele também não sabia quem havia decapitado Couladin, depois da luta.

Eu estava ocupado demais tentando sobreviver para assistir, pensou, com amargura. E torcendo para que não sangrasse até a morte. Nos tempos de Dois Rios, ele fora tão habilidoso no manejo de um cajado quanto qualquer outro, e um cajado não era tão diferente de uma lança, mas Couladin já devia ter nascido com aquelas coisas nas mãos. Claro que, no fim das contas, aquela habilidade toda não adiantara de muita coisa. Talvez eu ainda tenha um pouco de sorte. Por favor, Luz, faça com que ela apareça agora!

Estava pensando em como se livrar de Melindhra para que pudesse encilhar Pips quando Talmanes se apresentou com uma reverência formal, a mão sobre o coração à moda cairhiena.

— Que a sorte lhe sorria, Mat.

— E a você — respondeu Mat, distraído.

Melindhra não iria embora só com um pedido. Pedir certamente seria como pôr uma raposa no galinheiro. Talvez se dissesse a ela que queria dar uma cavalgada… Diziam que os Aiel conseguiam correr mais rápido que cavalos.

— Uma delegação chegou da cidade durante a noite. Haverá uma procissão triunfal para o Lorde Dragão como agradecimento, da parte de Cairhien.

— Ah, é?

A droga da mulher tinha de ter algum tipo de tarefa a fazer. As Donzelas estavam sempre em torno de Rand. Talvez ela fosse convocada para fazer isso. Olhando para Melindhra, no entanto, ele achou que seria melhor não contar com aquilo. O sorriso largo dela era… possessivo.

— A delegação era do Grão-lorde Melian — informou Nalesean, juntando-se à conversa. Sua reverência foi igualmente formal, com os braços se abrindo, mas apressada. — É ele quem está oferecendo a procissão ao Lorde Dragão.

— Lorde Dobraine, Lorde Maringil e Lady Colavaere, entre outros, também procuraram o Lorde Dragão.

Mat se concentrou de novo no presente. Os dois fidalgotes tentavam, cada um fingir que o outro não existia — ambos encarando apenas Mat, sem nem esboçar um olhar para o lado —, mas a tensão deixava seus rostos tão constritos quanto as vozes, as mãos com as juntas esbranquiçadas nos punhos da espada. Se os dois saíssem no tapa, seria como fechar tudo aquilo com chave de ouro, e com Mat provavelmente ainda tentando dar um jeito de ficar de fora quando um deles o acertasse por acaso.

— Que diferença faz quem mandou uma delegação, desde que Rand tenha a procissão dele?

— Faz diferença porque você deveria solicitar a ele nosso lugar de direito bem à frente — respondeu Talmanes, mais do que depressa. — Você matou Couladin e conquistou essa posição para nós. — Nalesean fechou a boca e fez uma careta. Ficou claro que ele estivera a ponto de dizer o mesmo.