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A antessala era bem parecida com o que se lembrava, com uma mesa ampla e uma cadeira para a Curadora das Crônicas logo atrás. Algumas cadeiras estavam dispostas ao longo da parede para as Aes Sedai que aguardavam para falar com a Amyrlin. Noviças e Aceitas ficavam de pé. Porém, o conjunto de papéis arrumado sobre a mesa, rolos amarrados, grandes pergaminhos com selos e cartas, não tinha o jeito de Leane. Não que ela fosse desorganizada, muito pelo contrário, mas Nynaeve sempre imaginara que, de noite, ela mantivesse tudo guardado.

Abriu a porta para a sala interna, mas diminuiu o passo conforme foi entrando. Não era surpresa que não tivesse conseguido sonhar que estava ali. O local não era nem um pouco parecido com o que se lembrava. A mesa ricamente entalhada e a cadeira alta feito um trono. Os bancos com entalhes de vinhas dispostos em uma curva perfeita à frente da mesa, nenhum deles uma mísera polegada fora do lugar. Siuan Sanche apreciava mobílias simples, como se fingisse que ainda era apenas a filha de um pescador, e mantinha apenas uma única cadeira sobressalente, que nem sempre permitia que os visitantes utilizassem. E aquele vaso branco cheio de rosas vermelhas, arrumado rigorosamente em um pedestal, como se fosse um monumento. Siuan gostava de flores, mas preferia buquês coloridos, como um campo de flores silvestres em miniatura. Pendurado acima da lareira houvera um desenho bem simples de barcos de pesca em meio a juncos altos. Agora eram duas pinturas, uma das quais Nynaeve reconheceu. Rand, lutando contra o Abandonado que se autodenominava Ba’alzamon nas nuvens acima de Falme. A outra, em três painéis de madeira, retratava cenas para as quais sua memória não encontrava referência.

A porta se abriu, e o coração de Nynaeve foi parar na garganta. Uma Aceita de cabelos ruivos que ela nunca vira antes entrou no aposento e a encarou. A menina não desapareceu imediatamente. No momento em que Nynaeve se preparava para saltar de volta ao gabinete de Sheriam, a ruiva disse:

— Nynaeve, se Melaine soubesse que você estava usando o rosto dela, faria bem mais do que colocar você em um vestidinho de criança. — E, tão de repente quanto aparecera, a menina se transformou em Egwene, em seu traje Aiel.

— Você quase me matou de susto — resmungou Nynaeve. — Então as Sábias finalmente decidiram deixar você ir e vir como bem entender? Ou Melaine está por trás…

— Acho bom você ter levado um susto — irrompeu Egwene, as bochechas ficando mais coradas. — Você é uma tola, Nynaeve. Uma criança brincando em um estábulo com uma vela.

Nynaeve ficou boquiaberta. Egwene repreendendo-a ?

— Escute aqui, Egwene al’Vere. Eu não aceito broncas de Melaine, e muito menos…

— É melhor aceitar a bronca de alguém, antes que acabe morta.

— Eu…

— Preciso tirar este anel de pedra de você. Deveria ter dado ele para Elayne e dito a ela para não deixar você usar de jeito nenhum.

— Dito a ela para não…!

— Você acha que Melaine estava exagerando? — perguntou Egwene, inflexível, balançando o dedo quase que exatamente como a Sábia de cabelos loiros. — Não estava, Nynaeve. As Sábias disseram a verdade nua e crua sobre Tel’aran’rhiod diversas vezes, mas você parece pensar que elas não passam de idiotas falando com o vento. Você deveria ser uma mulher adulta, não uma criancinha idiota. Eu juro, qualquer bom senso que um dia você teve na cabeça parece ter desaparecido feito um sopro de fumaça. Bem, trate de encontrá-lo, Nynaeve! — Ela bufou bem alto, reposicionando o xale nos ombros. — Neste momento, você está tentando brincar com as lindas chamas da lareira, mas é tola demais para perceber que pode cair lá dentro.

Nynaeve encarou-a com espanto. Elas discutiam com alguma frequência, mas Egwene nunca havia lhe tratado como uma garotinha pega com o dedo no pote de mel. Nunca! O vestido. Era o vestido de Aceita que ela estava usando, além do rosto de outra pessoa. Voltou a se transformar em quem era, trajando uma boa lã azul que usara bastante em reuniões do Círculo e quando queria guiar o Conselho. Sentiu-se revestida de toda sua antiga autoridade de Sabedoria.

— Eu estou bem ciente do quanto desconheço — retrucou, com a voz calma —, mas aquelas Aiel…

— Você percebe que pode sonhar com algo de que não consiga escapar? Os sonhos aqui são reais. Se você se deixar levar por um sonho gostoso, ele pode lhe prender. Você prenderia a si mesma. Até morrer.

— Você vai…?

— Há pesadelos caminhando em Tel’aran’rhiod, Nynaeve.

— Você vai me deixar falar? — rosnou ela. Ou melhor, tentou rosnar. Havia súplicas frustradas demais no tom, para o seu gosto. Qualquer quantidade teria sido demais.

— Não, não vou — retrucou Egwene com firmeza. — Não até que você queira dizer algo que valha a pena ouvir. Eu disse pesadelos, e me refiro mesmo a pesadelos, Nynaeve. Quando alguém tem um pesadelo estando em Tel’aran’rhiod, ele também é real. E às vezes ele sobrevive mesmo depois de o sonhador já ter ido embora. Você simplesmente não entende isso, não é?

De repente, mãos ásperas envolveram os braços de Nynaeve. Sua cabeça foi sacudida para um lado e para outro, os olhos quase saltando das órbitas. Dois homens enormes e maltrapilhos ergueram-na no ar, seus rostos eram ruínas meio derretidas de carne embrutecida, as bocas babando, repletas de dentes amarelados e afiados. Nynaeve tentou fazê-los desaparecer — se uma Sábia Andarilha dos Sonhos conseguia, ela também era capaz —, e um dos homens rasgou a frente de seu vestido, abrindo-o feito um pergaminho. O outro a segurou pelo queixo com a mão desejosa, cheia de calos, e girou o rosto dela em sua direção. A cabeça dele se curvou até ela, a boca se abrindo. Se a intenção era beijar ou morder, Nynaeve não sabia, mas preferia morrer a permitir qualquer das opções. Tentou alcançar saidar e não encontrou nada. Estava com medo, não com raiva. Unhas espessas se afundaram em suas bochechas e seguraram sua cabeça com firmeza. Egwene, de alguma forma, fizera aquilo. Egwene.

— Por favor, Egwene! — Saiu apenas um grunhido, mas ela estava aterrorizada demais para se importar. — Por favor!

Os homens — criaturas — desapareceram, e os pés de Nynaeve bateram no chão. Por um momento, ela só conseguiu tremer e chorar. Consertou depressa os danos ao vestido, mas ainda dava para sentir os arranhões daquelas unhas compridas em seu pescoço e peito. Era bem fácil recuperar roupas em Tel’aran’rhiod, mas o que quer que acontecesse a um humano… Seus joelhos tremiam tanto que o máximo que conseguia era se manter de pé.

Ela meio que esperava que Egwene a confortasse, e, desta vez, teria aceitado com gosto, mas a outra mulher apenas disse:

— Há coisas piores aqui, mas os pesadelos são suficientemente ruins. Eu criei estes homens e os desfiz, mas até eu tenho problemas com aqueles que acabo encontrando. E não tentei segurá-los, Nynaeve. Se você soubesse desfazê-los, poderia ter desfeito.

Nynaeve sacudiu a cabeça com raiva, recusando-se a limpar as lágrimas das bochechas.

— Eu poderia ter me retirado do sonho. Para o gabinete de Sheriam, ou até de volta para a minha cama. — Ela não soou mal-humorada. Claro que não.

— Isso se você não estivesse tão apavorada que nem conseguiu pensar a respeito — afirmou Egwene de maneira ácida. — Ah, e pare de fazer cara feia. Faz você parecer idiota.

Nynaeve encarou a mais nova, mas não obteve o resultado de sempre. Em vez de explodir em uma discussão, Egwene simplesmente arqueou uma das sobrancelhas.

— Nada disso parece coisa de Siuan Sanche — disse Nynaeve, mudando de assunto. O que dera na garota?

— Não mesmo — concordou Egwene, examinando o local. — Agora entendi por que tive que vir primeiro para o meu antigo quarto no alojamento das noviças. Mas de vez em quando as pessoas decidem renovar as cores.