Moiraine abriu um sorrisinho.
— Aprenda: um juízo frio é sempre melhor do que palavras esquentadas. Mas você se esquece de que apenas treze irmãs unidas são capazes de blindar qualquer homem de saidin, e mesmo que não conheçam o truque de amarrar fluxos, precisa de menos ainda para manter essa blindagem.
— Eu sei que você não vai desistir, Moiraine. O que pretende fazer?
— Pretendo lidar com as coisas conforme acontecerem, enquanto eu puder. Ao menos Rand vai ser… mais fácil de conviver… agora que não preciso tentar afastá-lo do que ele quer. Suponho que eu deveria estar feliz por ele não me obrigar a servir seu vinho. Na maioria das vezes, Rand me ouve, mesmo que raramente dê alguma pista de sua opinião sobre o que eu falo.
— Vou deixar que você conte a ele sobre Siuan e a Torre. — Isso evitaria perguntas esquisitas. Com Rand agindo de forma tão prepotente, talvez quisesse saber mais sobre o Talento dela de Sonhar do que Egwene seria capaz de inventar. — E tem mais. Nynaeve viu Abandonados em Tel’aran’rhiod. Ela mencionou todos os que ainda estão vivos, exceto Asmodean e Moghedien, inclusive Lanfear. Acha que eles estão tramando alguma coisa, possivelmente juntos.
— Lanfear — disse Moiraine após alguns instantes.
As duas sabiam que Lanfear havia visitado Rand em Tear, e talvez em outras ocasiões que ele não mencionara. Ninguém além dos próprios Abandonados tinha muito conhecimento sobre eles — apenas fragmentos de fragmentos permaneciam na Torre —, mas sabia-se que Lanfear amara Lews Therin Telamon. Elas duas, e Rand, sabiam que ainda amava.
— Com sorte — prosseguiu a Aes Sedai —, não teremos que nos preocupar com Lanfear. Os outros que Nynaeve viu são outra questão. Você e eu devemos vigiar o mais atentamente que pudermos. Eu gostaria que mais Sábias fossem capazes de canalizar. — Ela deu uma risadinha. — Mas, se for para ficar desejando, poderia incluir que todas fossem treinadas pela Torre, ou que eu pudesse viver para sempre. Elas podem ser fortes em alguns aspectos, mas infelizmente carecem de muita coisa em outros.
— Ficar de olho é bom, mas o que mais? Se seis Abandonados investirem juntos contra ele, Rand vai precisar de toda e qualquer ajuda que pudermos dar.
Moiraine se inclinou para tocar seu braço, uma expressão afetuosa no rosto.
— Não podemos segurar a mão dele para sempre, Egwene. Ele já aprendeu a andar. Está aprendendo a correr. Só nos resta torcer para que aprenda antes de seus inimigos o pegarem. E, claro, continuar a aconselhá-lo. Orientá-lo sempre que pudermos. — Endireitando-se, Moiraine se alongou e conteve um pequeno bocejo com a mão. — Está tarde, Egwene. E acho que Rand vai pedir para levantarmos acampamento daqui a bem poucas horas, mesmo que ele não consiga dormir nada. Eu, no entanto, gostaria de descansar o máximo possível antes de encarar a sela.
Egwene se preparou para ir embora, mas, antes, tinha uma pergunta:
— Moiraine, por que você começou a fazer tudo o que Rand lhe diz? Nem Nynaeve acha isso certo.
— Não acha, é? — murmurou Moiraine. — Ela ainda vai ser uma Aes Sedai, querendo ou não. Por quê? Porque me lembrei de como se controla saidar.
Após um momento, Egwene assentiu. Para controlar saidar, primeiro era preciso se render a ele.
Foi só quando já estava tremendo no caminho de volta para a própria tenda que Egwene se deu conta de que Moiraine conversara com ela o tempo inteiro como uma igual. Talvez estivesse mais perto do que pensava de estar pronta para escolher sua Ajah.
16
Uma proposta inesperada
Nynaeve foi despertada pela luz do sol entrando sorrateiramente pela janela. Por um momento, permaneceu esparramada sobre o lençol listrado. Elayne dormia na outra cama. O início da manhã já estava quente, e a noite não havia sido muito melhor, mas não era por isso que sua camisola estava amarrotada e suada. Seus sonhos, após contar a Elayne o que vira, não haviam sido bons. Na maioria deles, estava de volta na Torre, sendo levada à força até a presença da Amyrlin, que ora era Elaida, ora Moghedien. Em alguns, Rand aparecia deitado ao lado da escrivaninha da Amyrlin feito um cão, encoleirado, preso e com uma focinheira. E os sonhos com Egwene haviam sido tão ruins quanto, à sua própria maneira. Samambaia-felina fervida e folha-sábia em pó tinham um gosto tão ruim em sonhos quanto no mundo desperto.
Indo até o lavatório, limpou o rosto e esfregou os dentes com sal e bicarbonato. A água não estava quente, mas também não podia ser considerada fria. Despiu a camisola empapada e desencavou uma limpa de um dos baús, junto com uma escova de cabelo e um espelho. Espiando a própria imagem, Nynaeve se arrependeu de ter desfeito a trança só por conforto. Não ajudara nada, e agora seu cabelo era um emaranhado que pendia até a cintura. Sentando-se no baú, dedicou-se laboriosamente a desfazer os nós e depois começou a dar uma centena de escovadas nos fios.
Três arranhões percorriam seu pescoço e desapareciam sob a camisola. Já não estavam tão vermelhos, graças a um unguento de cura-tudo obtido com Macura. Dissera a Elayne que haviam sido causados por arbustos espinhentos. Bobagem — ela suspeitava que Elayne soubesse que era mentira, apesar de ter contado uma história sobre espreitar pelo terreno da Torre depois que Egwene partiu —, mas andara transtornada demais para pensar com clareza. Explodira várias vezes com Elayne, por nenhum motivo além de estar pensando no tratamento injusto que recebera de Melaine e Egwene. Não que não seja bom lembrá-la de que aqui ela não é a Filha-herdeira. Ainda assim, nada daquilo era culpa da garota. Teria que compensá-la.
Pelo espelho, viu Elayne se levantar e começar a se lavar.
— Ainda acho que meu plano é melhor — disse a garota, esfregando o rosto. Seus cabelos tingidos na cor de um corvo não pareciam nada emaranhados, apesar dos cachos. — Poderíamos chegar a Tear muito mais rápido do meu jeito.
O plano de Elayne era abandonar a carruagem assim que chegassem ao rio Eldar, em alguma pequena aldeia onde fosse improvável que aparecessem muitos Mantos-brancos e, claro, onde não tivesse nem sinal de espiões da Torre. De lá, viajariam de barco até Ebou Dar, onde poderiam encontrar um navio para Tear. Já não havia dúvida de que precisavam ir para Tear. Tar Valon seria evitada a todo custo.
— Quanto tempo vai levar até um barco parar aqui onde estamos? — perguntou Nynaeve pacientemente. Pensara que isso tivesse sido decidido antes de irem dormir. Pelo que se lembrava, tinha sido. — Você mesma disse que pode ser que nenhum barco pare. E quanto tempo esperaremos em Ebou Dar até encontrarmos um navio para Tear? — Largando a escova, começou a refazer a trança.
— Os aldeões penduram uma bandeira quando querem que um barco pare, e a maioria para. E sempre há navios indo para toda parte em uma cidade portuária do tamanho de Ebou Dar.
Como se ela já tivesse estado em uma cidade portuária de qualquer tamanho antes de ir embora da Torre com Nynaeve. Elayne sempre pensava que tudo o que não aprendera sobre o mundo como Filha-herdeira de Andor, aprendera na Torre, mesmo depois de inúmeras provas do contrário. E como ainda ousava se dirigir a ela naquele tom de voz superior!
— É pouco provável que a gente encontre alguma reunião de Azuis em um navio, Elayne.
O plano de Nynaeve era insistir na carruagem, atravessar o que faltava de Amadícia, depois Altara e Murandy, entrar em Far Madding, atravessando as Colinas de Kintara e seguir pela Planície de Maredo até Tear. Com certeza levaria mais tempo, mas, além da chance de descobrir a tal reunião de alguma forma, era muito raro que carruagens afundassem. Sabia nadar, mas não ficava confortável quando não havia nenhuma terra à vista.
Elayne secou o rosto com suavidade, trocou a camisola e veio ajudar na feitura da trança. Nynaeve não se deixou enganar: ainda ouviria falar em barcos. Seu estômago não gostava de navegar. Não que aquilo tivesse influenciado sua decisão, claro. Se conseguisse trazer as Aes Sedai para o lado de Rand, a rota mais curta valeria muito a pena.