— Você se lembrou do nome? — indagou Elayne, entrelaçando as mechas.
— Lembrei ao menos que havia um nome. Luz, me dê um tempo. — Tinha certeza de que houvera um nome. Uma vila, teria de ser, ou uma cidade. Não tinha como ter visto e se esquecido do nome de um país. Respirando bem fundo, controlou um pouco o gênio e prosseguiu em um tom mais brando. — Eu vou me lembrar, Elayne. Só me dê um tempo.
Elayne emitiu um som evasivo e continuou a trançar.
— Será que foi mesmo inteligente pedir que Birgitte procurasse Moghedien? — perguntou ela, instantes depois.
Nynaeve franziu a testa para a jovem, mas o olhar de soslaio deslizou por Elayne feito água em seda lubrificada. Se queria mudar de assunto, aquele não havia sido uma boa escolha.
— Melhor nós a encontrarmos do que ela nos encontrar.
— Suponho que sim. Mas o que vamos fazer quando isso acontecer?
Nynaeve não tinha resposta para aquela pergunta. Mas era melhor caçar do que ser caçada, mesmo que a caça fosse aos trancos e barrancos. A Ajah Negra ensinara isso a ela.
O salão não estava cheio quando desceram, ainda que, mesmo tão cedo, já houvesse mantos brancos salpicados entre os clientes, a maioria homens mais velhos, todos com patentes oficiais. Sem dúvida eles preferiam comer o que se preparava nas cozinhas da estalagem do que o que os cozinheiros Mantos-brancos serviam nas guarnições. Nynaeve quase preferia comer de novo em uma bandeja, mas aquele quartinho parecia mais um caixote. Todos aqueles homens estavam concentrados na comida, os Mantos-brancos não menos que os outros. Certamente era um local seguro. O cheiro de comida tomava conta do ar. Ao que parecia, aqueles homens queriam carne de vaca ou de carneiro até na primeira refeição do dia.
O pé de Elayne mal havia deixado o último degrau quando a Senhora Jharen surgiu para oferecer a elas, ou à Lady Morelin, melhor dizendo, uma sala de jantar privativa. Nynaeve nem sequer olhou para Elayne, mas a ouviu responder:
— Acho que vamos comer aqui. Quase nunca tenho a oportunidade de comer em um salão comum, e até gosto, na verdade. Peça para uma de suas garotas trazer algo refrescante para nós. Se o dia já começou assim, meu medo é sufocar antes de chegarmos à próxima parada.
Nynaeve sempre se surpreendia com o fato de aquele comportamento arrogante nunca ter feito com que elas fossem jogadas na rua. Àquela altura, já conhecera lordes e ladies suficientes para saber que quase todos se comportavam daquela forma, mas, mesmo assim… Nynaeve não aguentaria aquilo nem um minuto. A dona da estalagem, no entanto, meneou a cabeça em reverência, sorrindo e esfregando as mãos, depois conduziu as duas a uma mesa próxima de uma janela que dava para a rua e saiu apressada para providenciar tudo o que Elayne pedira. Talvez aquele fosse o jeito dela de dar o troco na garota. As duas foram deixadas sozinhas, bem longe dos homens que já estavam nas outras mesas, mas qualquer pessoa que passasse do lado de fora poderia vê-las ali dentro, e se lhes fossem servidos algum prato quente, o que esperava que não fosse o caso, Elayne e Nynaeve estavam tão distantes das cozinhas quanto possível.
Quando a comida chegou, o café da manhã consistia em bolinhos doces temperados que vieram ainda mornos, enrolados em um pano branco, mas mesmo assim saborosos, peras amarelas, uvas roxas que pareciam um tanto enrugadas, e uma espécie de coisinhas vermelhas que a atendente disse se chamarem morangos, ainda que não se parecessem com nenhum fruto que Nynaeve já tivesse visto. O gosto também era bem peculiar, em especial com uma colher de creme coalhado por cima. Elayne afirmou já ter ouvido falar do fruto, o que era de se esperar. Com um vinho levemente condimentado supostamente refrigerado em uma adega — e um gole bastou para ela concluir que a adega não era das mais frias, se é que existia — a refeição matinal acabou se mostrando revigorante.
O homem mais próximo estava a três mesas de distância e usava um casaco de lã azul-marinho. Talvez fosse um comerciante próspero, mas não conversaram entre si. Haveria muito tempo para isso quando estivessem de volta na estrada, onde não haveria riscos de serem entreouvidas. Nynaeve terminou de comer bem antes de Elayne. Pelo modo como a garota não tinha a menor pressa para cortar uma pera, poderia se pensar que tinham o dia todo para ficar ali sentadas.
De repente, os olhos de Elayne se arregalaram em choque, e a faquinha retiniu na mesa. Nynaeve moveu a cabeça depressa e deu de cara com um homem tomando o assento no outro lado da mesa.
— Achei que fosse você, Elayne, mas o cabelo a princípio me deixou em dúvida.
Nynaeve encarou Galad, o meio-irmão de Elayne. A palavra, claro, era encarar. Alto e esbelto feito aço, com olhos e cabelos escuros, era o homem mais bonito que ela já tinha visto. Bonito não chegava a descrevê-lo. Era deslumbrante. Nynaeve já vira mulheres o rodearem na Torre, Aes Sedai inclusive, todas sorrindo feito tontas. Tratou de tirar o sorriso do rosto, mas não podia fazer nada com seu coração acelerado nem se obrigar a respirar no ritmo adequado. Não sentia nada pelo homem. A única questão era ele ser lindo. Controle-se, mulher!
— O que está fazendo aqui? — Nynaeve ficou contente por sua voz não ter soado abafada. Não era justo que um homem fosse bonito daquele jeito.
— E por que está usando isto? — Elayne falou baixo, mas sua voz ainda tinha um tom raivoso.
Nynaeve então percebeu que ele usava a parte de cima de uma armadura reluzente e um manto branco com dois nós dourados de graduação logo abaixo de um sol flamejante. Sentiu que suas bochechas enrubesciam. Ficara tão ocupada encarando o rosto do rapaz que sequer percebera o que ele estava usando! Sua vontade era esconder o próprio rosto daquela humilhação.
Ele sorriu, e Nynaeve precisou respirar fundo.
— Estou aqui porque fui um dos Filhos convocados do norte. E eu sou um Filho da Luz porque me pareceu a coisa certa a se fazer. Elayne, quando vocês duas e Egwene sumiram, não levou muito tempo para Gawyn e eu descobrirmos que não estavam cumprindo um castigo em uma fazenda, ou o que quer que nos tenham dito. Elas não tinham o direito de envolver você nas tramas delas, Elayne. Nenhuma de vocês.
— Parece que você subiu de patente bem rápido — observou Nynaeve. Aquele tolo não percebia que falar sobre os planos das Aes Sedai era uma bela maneira de causar a morte das duas?
— Eamon Valda pareceu pensar que minha experiência me garantia isso, não importa onde foi obtida.
Ele deu de ombros, fazendo pouco caso da graduação. Não se tratava exatamente de modéstia, mas também não era pretensão. Melhor espadachim entre os que tinham ido estudar com os Guardiões na Torre, ele também se destacara nas aulas de tática e estratégia, mas Nynaeve não conseguia se lembrar de vê-lo se vangloriando de suas proezas, nem mesmo em brincadeira. Feitos assim não significavam nada para ele, talvez porque fossem conquistados com muita facilidade.
— Mamãe sabe disso? — questionou Elayne, ainda com a voz calma. Sua cara feia, entretanto, teria assustado um javali.
Desconfortável, Galad só fez mexer um fio de cabelo.
— Não tive oportunidade de escrever para ela. Mas não tenha tanta certeza de que ela vai reprovar, Elayne. Ela não anda tão amigável com o norte quanto antes. Ouvi dizer que uma proibição pode virar lei.
— Escrevi a ela uma carta explicando. — O olhar de Elayne se transformara em atordoamento. — Ela precisa entender. Ela também estudou na Torre.
— Não levante a voz — retrucou ele, em tom firme e baixo. — Lembre-se de onde você está. — Elayne ficou bastante vermelha, mas Nynaeve não soube dizer se de raiva ou de vergonha.
De repente, percebeu que ele vinha falando em um tom tão calmo quanto as duas, e com o mesmo cuidado. Galad não mencionara a Torre nenhuma vez, nem as Aes Sedai.