— Egwene está com você? — prosseguiu o homem.
— Não — retrucou ela, fazendo-o suspirar profundamente.
— Eu tinha esperança de… Gawyn quase enlouqueceu de preocupação quando ela desapareceu. Ele também se importa com ela. Vão me dizer onde ela está?
Nynaeve percebeu aquele “também”. O homem se tornara um Manto-branco, mas “se importava” com uma mulher que queria ser Aes Sedai. Os homens eram tão estranhos que às vezes quase não pareciam humanos.
— Não — respondeu Elayne com firmeza, o rubor nas bochechas diminuindo. — Gawyn também está aqui? Não posso acreditar que ele se tornou um… — Ela teve a sagacidade de baixar ainda mais a voz, mas mesmo assim completou a frase: — Um Manto-branco!
— Ele continua no norte, Elayne.
Nynaeve supôs que ele se referisse a Tar Valon, mas Gawyn decerto já tinha ido embora de lá. Ele não apoiaria Elaida, com certeza.
— Você não faz ideia do que aconteceu por lá, Elayne — continuou Galad. — Toda a corrupção e a vilania daquele lugar chegaram ao nível máximo, como não podia deixar ser. A mulher que mandou você embora foi deposta. — Galad olhou ao redor e baixou o tom de voz a um sussurro, apesar de não haver ninguém suficientemente perto para escutar. — Estancada e executada. — Respirando fundo, ele emitiu um som enojado. — Aquilo nunca foi lugar para você. Ou para Egwene. Não faz muito tempo que entrei para os Filhos, mas tenho certeza de que meu capitão vai permitir que eu viaje para escoltar minha irmã de volta para casa. É onde você deveria estar, com Mamãe. Me diga onde está Egwene e eu dou um jeito de garantir que ela também seja levada para Caemlyn. Vocês vão ficar seguras lá.
O rosto de Nynaeve ficou dormente. Estancada. E executada. Não fora uma morte acidental, ou uma doença. Que tivesse considerado essa possibilidade não tornava a situação menos chocante. O motivo só podia ser Rand. Se algum dia existira qualquer nesga de esperança de que a Torre pudesse não se opor a ele, já não existia mais. Elayne não demonstrava nada, os olhos fixos ao longe.
— Vejo que minha novidade a deixou chocada — comentou ele em voz baixa. — Não sei a profundidade com que aquela mulher lhe envolveu em seus planos, mas você agora está livre. Me deixe levá-la em segurança até Caemlyn. Ninguém precisa saber que você teve mais contato com ela do que as outras garotas que foram até lá para aprender. Vocês duas.
Nynaeve mostrou os dentes para o homem, no que esperava que parecesse um sorriso. Foi bom ser finalmente incluída. Poderia ter dado um tapa nele. Quem dera não fosse tão bonito.
— Vou pensar a respeito — afirmou Elayne, hesitante. — O que você diz faz sentido, mas preciso de tempo para pensar. Eu preciso pensar.
Nynaeve a encarou. Fazia sentido? A garota estava falando bobagem.
— Posso lhe dar um tempinho — respondeu o rapaz —, mas não muito, se for pedir permissão para partir. Podemos receber ordens para…
De repente um Manto-branco de rosto quadrado e cabelo escuro surgiu à mesa, dando tapinhas no ombro de Galad e abrindo um largo sorriso. Mais velho, tinha em seu manto os mesmos dois nós de graduação.
— Ora, jovem Galad, você não pode ficar com todas as mulheres bonitas só para você. Todas as garotas da cidade suspiram quando você passa, e a maioria das mães também. Me apresente.
Galad arrastou o banco para trás para se levantar.
— Eu… achei que conhecia as duas quando elas desceram, Trom. Mas seja lá qual for o charme que você acha que eu tenho, ele não funciona com esta senhorita. Ela não gosta de mim, e acho que não vai gostar de nenhum dos meus amigos. Se você treinar a espada comigo hoje à tarde, talvez consiga atrair uma ou duas.
— Isso nunca vai acontecer com você por perto — reclamou Trom, bem-humorado. — E é mais fácil eu deixar o ferrador bater na minha cabeça com o martelo do que treinar contra você.
Porém, o homem acabou permitindo que Galad o conduzisse até a porta, disparando apenas um olhar pesaroso para as duas mulheres. Ao saírem, Galad olhou para a mesa, frustrado e indeciso.
Tão logo os dois saíram de vista, Elayne se levantou.
— Nana, preciso que você suba comigo. — A Senhora Jharen se materializou ao lado dela, perguntando se a lady apreciara a refeição, no que Elayne disse: — Chame meu condutor e meu lacaio imediatamente. Nana vai acertar a conta. — Estava a caminho da escada antes mesmo de terminar de falar.
Nynaeve a acompanhou com os olhos e enfiou a mão na bolsa para pagar a mulher, dando garantias de que tudo estivera do agrado de sua patroa e tentando não reclamar do preço. Assim que se livrou da dona da estalagem, correu para o andar de cima. Elayne estava amontoando os pertences das duas nos baús de qualquer jeito, inclusive as camisolas suadas que haviam deixado penduradas nos suportes das camas para secar.
— Qual é o problema, Elayne?
— Precisamos ir embora imediatamente, Nynaeve. De uma vez. — Ela nem ergueu o rosto até o último objeto ter sido entulhado. — Neste exato instante, onde quer que esteja, Galad deve estar quebrando a cabeça com algo que nunca encarou antes. Duas coisas certas, mas opostas. Na cabeça dele, é correto me amarrar a um cavalo de carga, caso necessário, e me levar na marra até Mamãe, aliviando as preocupações dela e me salvando de me tornar uma Aes Sedai, independentemente do que eu queira. E também é correto nos entregar para os Mantos-brancos, para o exército, ou para os dois. Essa é a lei de Amadícia, e também a lei dos Mantos-brancos. Aes Sedai são foras da lei aqui, assim como qualquer mulher que já tenha sido treinada na Torre. Mamãe se encontrou uma vez com Ailron para assinar um acordo comercial e eles tiveram que fazer isso em Altara, já que, legalmente, Mamãe não podia entrar em Amadícia. Agarrei saidar assim que o vi, e não vou soltar até que já estejamos bem longe.
— Tenho certeza de que você está exagerando, Elayne. Ele é seu irmão.
— Ele não é meu irmão! — Elayne puxou fundo o ar e expirou devagar. — Tínhamos o mesmo pai — disse ela com voz mais calma —, mas ele não é meu irmão. Não vou aceitá-lo. Nynaeve, eu já lhe falei várias vezes, mas você não aprende. Galad faz o que é certo. Sempre. Ele nunca mente. Você ouviu o que ele disse para aquele tal de Trom? Ele não disse que não nos conhecia. Todas as palavras que usou eram verdadeiras. Ele faz o que é certo, e pouco importa quem vai se machucar com isso, incluindo ele próprio. Ou eu. Ele costumava dedurar Gawyn e eu por qualquer coisa, e até se dedurava também. Se ele escolher a opção errada, teremos Mantos-brancos nos emboscando antes de chegarmos nos limites da aldeia.
Um tapinha soou na porta, e a respiração de Nynaeve ficou presa na garganta. Claro que Galad não iria de fato… O rosto de Elayne estava preparado, pronto para lutar.
Hesitante, Nynaeve abriu a porta. Eram Thom e Juilin, que estava com aquele chapéu idiota na mão.
— Milady nos chamou? — perguntou Thom, com um toque de servilismo endereçado a qualquer pessoa que pudesse estar escutando.
Conseguindo respirar de novo e sem se importar com quem estaria escutando, Nynaeve abriu o restante da porta.
— Entrem logo, vocês dois! — Já estava ficando cansada de vê-los se entreolhando a cada vez que ela falava.
Antes de Nynaeve voltar a fechar a porta, Elayne anunciou:
— Thom, precisamos ir embora imediatamente. — O olhar determinado sumira de seu rosto e a ansiedade tomava conta de sua voz. — Galad está aqui. Você deve se lembrar do monstro que ele era quando criança. Bem, não melhorou nada agora que cresceu, e, além de tudo, ele é um Manto-branco. Ele seria capaz de… — As palavras pareceram ficar presas na garganta. Ela encarou Thom, a boca se movendo em silêncio, mas com os olhos menos arregalados que os dele, que a fitavam.