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O homem se sentou pesadamente sobre um dos baús, mas não tirou os olhos dos de Elayne.

— Eu… — Pigarreando de modo grosseiro, Thom prosseguiu: — Achei que tinha visto o sujeito vigiando a estalagem. Um Manto-branco. Mas ele parecia apenas a versão adulta daquele garoto. Suponho que não deveríamos ficar surpresos por ele ter virado um Manto-branco.

Nynaeve foi até a janela. Elayne e Thom mal pareceram notar quando ela passou entre os dois. O tráfego na rua estava começando a se intensificar, fazendeiros, carroças e aldeões se misturando a Mantos-brancos e soldados. No outro lado da rua, um Manto-branco estava sentado em um barril virado, aquele rosto perfeito inconfundível.

— E ele… — Elayne engoliu em seco. — Ele reconheceu você?

— Não. Quinze anos mudam mais um homem do que um garoto. Eu achei que você não se lembraria, Elayne.

— Lembrei em Tanchico, Thom.

Com um sorriso vacilante, Elayne se esticou e deu um puxão em um dos lados do comprido bigode do homem. Thom retribuiu o sorriso de um jeito igualmente hesitante, como se considerasse a hipótese de saltar pela janela.

Juilin coçou a cabeça, e Nynaeve também desejou ter alguma ideia a respeito do que eles estavam falando, mas havia questões mais importantes para resolver.

— Ainda precisamos ir embora, antes que ele bote a guarnição inteira atrás da gente. Com ele vigiando, não vai ser fácil. Não vi nenhum outro cliente que pareça ter uma carruagem.

— A nossa é a única no pátio do estábulo — informou Juilin. Thom e Elayne ainda estavam se entreolhando, claramente sem ouvir uma palavra.

Sair com as cortinas abaixadas não seria proteção alguma, então. Nynaeve até apostaria que Galad já descobrira exatamente como eles haviam chegado a Sienda.

— Há algum jeito de sairmos do pátio por trás?

— Um portão com largura suficiente para passarmos um de cada vez — respondeu Juilin, seco. — E, seja como for, o que tem do outro lado não passa de uma viela. Não há mais do que duas ou três ruas nesta aldeia que sejam largas o bastante para a carruagem. — Ele estudou aquele chapéu cilíndrico, virando-o nas mãos. — Posso me esgueirar para perto até conseguir dar uma pancada na cabeça dele. Se estiverem prontos, vocês poderiam partir na carruagem durante a confusão. Eu alcançaria vocês já na estrada.

Nynaeve bufou.

— Como? Galopando atrás da gente no Sorrateiro? Mesmo que não caísse da sela na primeira milha, você acha que conseguiria sequer chegar a um cavalo se atacasse um Manto-branco na rua? — Galad ainda estava parado do outro lado da calçada, e Trom se juntara a ele, os dois aparentemente envolvidos em uma conversa preguiçosa. Nynaeve se inclinou e deu um puxão no bigode de Thom. — Você tem algo a acrescentar? Algum plano brilhante? Toda a atenção que prestou nas fofocas rendeu alguma coisa que possa ajudar?

O homem levou a mão ao rosto e lançou um olhar ofendido na direção dela.

— Não, a menos que você ache que Ailron estar reivindicando algumas aldeias de fronteira, em Altara, nos ajude em alguma coisa. Uma faixa que ocupa toda a extensão da fronteira, de Salidar até So Eban e até Mosra. Isso ajuda em alguma coisa, Nynaeve? Ajuda? Tente arrancar fora o bigode de um homem. Alguém vai acabar lhe dando uma bofetada no pé do ouvido.

— O que Ailron poderia querer com uma faixa ao longo da fronteira, Thom? — indagou Elayne.

Talvez estivesse interessada, já que parecia se interessar por qualquer mudança de panorama na política e na diplomacia, ou talvez só estivesse tentando interromper uma discussão. Antes de se envolver nos flertes com Thom, ela estava sempre tentando aliviar a situação.

— Não é o Rei, criança. — A voz dele se suavizou para falar com Elayne. — É Pedron Niall. Ailron costuma fazer o que lhe mandam, embora ele e Niall finjam que não é bem assim. A maioria daquelas aldeias está abandonada desde a Guerra dos Mantos-Brancos, e os Filhos se referem a elas como Confusões. Niall era o general em campo naquela ocasião, e duvido que um dia tenha desistido de querer Altara. Se controlar as duas margens do Eldar, ele pode minguar o comércio fluvial para Ebou Dar, e, se conseguir quebrar Ebou Dar, o resto de Altara vai pingar aos poucos nas mãos dele feito os grãos que caem de um furo em uma saca.

— Muito obrigada pela informação — cortou Nynaeve com firmeza, antes que ele ou a garota pudessem voltar a falar. Algo no que o homem dissera soou familiar, mas Nynaeve não sabia dizer o quê ou por quê. De qualquer forma, ninguém ali tinha tempo para aulas sobre as relações entre Amadícia e Altara, não com Galad e Trom vigiando a frente da estalagem. Ela disse exatamente isso, depois acrescentou: — E você, Juilin? Sempre conhece uns tipos mais baixos. — O caçador de ladrões sempre procurava os ladrões, arrombadores e salteadores de uma cidade. Afirmava que eles sabiam mais sobre o que realmente estava acontecendo do que qualquer oficial. — Existem contrabandistas que podemos subornar para nos tirar daqui na surdina ou… ou… Você sabe o tipo de coisa de que precisamos, homem.

— Ouvi falar muito pouco. Os bandidos ficam quietos em Amadícia, Nynaeve. Para o primeiro delito, ferro quente; para o segundo, amputação da mão boa; e para o terceiro, forca, seja por roubar a coroa do Rei ou um pedaço de pão. Não há muitos ladrões em um vilarejo deste tamanho, não dos que vivem disso. — Ele desdenhava dos ladrões amadores. — E, na maior parte do tempo, eles só queriam falar sobre dois assuntos: se o Profeta realmente está vindo para Amadícia, conforme dizem os boatos, e se os administradores daqui vão ceder e deixar o conjunto de animais itinerante fazer uma apresentação. Sienda é muito longe da fronteira para que contrabandistas…

Nynaeve o interrompeu com uma satisfação determinada.

— É isso! O conjunto itinerante. — Todos olharam para ela como se a garota tivesse enlouquecido.

— Claro — disse Thom, com exagerada tranquilidade. — Podemos pedir para Luca trazer os cavalos-javali de volta e aí escapamos enquanto eles destroem um pouco mais o vilarejo. Não sei o que você deu a ele, Nynaeve, mas o homem jogou uma pedra na gente quando estávamos indo embora.

Dessa vez Nynaeve perdoou o sarcasmo, leve como foi. Assim como a falta de inteligência dele para compreender o que ela tinha em mente.

— Pode até ser, Thom Merrilin, mas Mestre Luca quer um patrono, e Elayne e eu seremos exatamente isso. Ainda temos que abandonar a carruagem e os animais… — Essa parte doía. Ela poderia ter construído uma casa bem cômoda em Dois Rios pelo que tudo aquilo havia custado. — E sair pelos fundos.

Abrindo o baú com as dobradiças em forma de folha, ela escarafunchou entre roupas, lençóis, potes e tudo o que não quisera deixar para trás no carroção com as tinturas — ela se assegurara de que os homens tinham empacotado tudo, menos os arreios —, até encontrar as bolsas e as caixinhas douradas.

— Thom, você e Juilin vão sair por aquele portão dos fundos e vão encontrar algum tipo de carroção e de animais. Comprem alguns mantimentos e encontrem a gente na estrada que leva de volta ao acampamento de Luca. — A contragosto, ela encheu a mão de Thom de ouro, sem nem se dar ao trabalho de contar. Não havia como saber quanto cada item custaria, e não queria que ele perdesse tempo pechinchando.

— Que ideia maravilhosa — disse Elayne, sorrindo. — Galad vai estar de olho em duas mulheres, não em uma trupe de animais e malabaristas. E ele nunca vai pensar que iríamos para Ghealdan.

Nynaeve não havia pensado naquilo. A intenção dela era fazer Luca partir direto para Tear. Um conjunto como o que o homem conseguira reunir, com acrobatas e malabaristas complementando os animais, poderia fazer sucesso em praticamente qualquer lugar, e disso ela tinha certeza. Mas se Galad de fato fosse atrás delas, ou enviasse alguém, seria para o leste. E talvez ele fosse esperto o bastante para desconfiar até de um conjunto itinerante. Os homens às vezes usavam o cérebro, normalmente quando menos se esperava.