— Essa foi a primeira coisa em que pensei, Elayne. — Nynaeve ignorou o gosto fraco na boca, a lembrança acre da samambaia-felina fervida e da folha-sábia em pó.
Claro que Thom e Juilin protestaram. Não tanto contra a ideia, mas pareciam pensar que, se um dos dois ficasse ali, poderia proteger as duas de Galad e de qualquer número de Mantos-brancos. Pareciam não perceber que, caso algo assim acontecesse, canalizar daria mais resultados do que eles dois somados e mais outros dez. Os homens ainda pareciam incomodados, mas ela conseguiu empurrar os dois para fora com a inflexibilidade da frase:
— E não ousem voltar aqui. Encontramos vocês na estrada.
— Se precisarmos canalizar — sussurrou Elayne assim que a porta se fechou —, vamos nos ver rapidamente tendo que enfrentar toda a guarnição dos Mantos-brancos, e, bem provável, toda a guarnição do exército. O Poder não nos torna invencíveis. Bastam duas flechadas.
— Quando chegar a hora, nos preocuparemos com isso — respondeu Nynaeve.
Esperava que os homens não tivessem pensado naquilo. Se tivessem, era provável que um deles ficasse espionando, o que, caso não fosse feito com cautela, possivelmente inflamaria ainda mais as suspeitas de Galad. Nynaeve estava pronta para aceitar a ajuda deles sempre que necessário, Ronde Macura a fizera aprender essa lição, embora o fato de precisar ter sido resgatada feito um gatinho que caiu no poço ainda a irritasse. Mas era ela quem definia quando a ajuda era necessária, e não eles.
Uma rápida descida ao andar inferior a levou a encontrar a Senhora Jharen. Sua lady mudara de ideia. Achava que não conseguiria voltar a enfrentar tão rápido o calor e a poeira da viagem. Pretendia tirar um cochilo e não queria ser perturbada até a hora do jantar, quando a mandaria ao andar de baixo buscar a refeição. E ali estavam as moedas por mais uma noite de alojamento. A dona da estalagem foi bastante compreensiva com a fragilidade de uma lady nobre e da inconstância de suas vontades. Nynaeve achava que a Senhora Jharen seria compreensiva com qualquer coisa que não fosse um assassinato, desde que a conta fosse paga.
Afastando-se da mulher rechonchuda, Nynaeve encurralou uma das atendentes. Umas poucas moedas de prata trocaram de mãos e a garota de avental saiu em disparada para ir procurar dois daqueles gorros profundos que Nynaeve afirmara parecerem muito sombreados e frescos. Não eram o tipo de coisa que sua lady usaria, claro, mas serviriam muito bem para ela.
Quando voltou ao quarto, Elayne havia colocado as caixinhas douradas em um lençol, junto com a caixa escura e polida que abrigava os ter’angreal recuperados e a bolsa de camurça que guardava o selo. As gordas bolsas contendo as moedas repousavam na outra cama, ao lado da sacola de viagem de Nynaeve. Dobrando o lençol, Elayne amarrou a trouxa com um cordão resistente retirado de um dos baús. Nynaeve guardara tudo naqueles baús.
Não queria abandonar tudo aquilo. Não só pelos gastos. Não só. Nunca se sabia quando algum daqueles objetos viria a calhar. Era o caso dos dois vestidos de lã que Elayne estendera na cama. Não eram finos o bastante para uma lady e eram bons demais para uma criada, mas, se os tivessem deixado em Mardecin, como Elayne quisera, àquela altura estariam em maus lençóis com relação ao guarda-roupa.
De joelhos, Nynaeve vasculhou outro baú. Algumas camisolas, mais dois vestidos de lã para se trocarem. As duas frigideiras de ferro fundido em uma sacola de tela estavam em ótimo estado, mas eram pesadas demais, e era certo que os homens não se esqueceriam de providenciar substitutas. O equipamento de costura, na bela caixa entalhada. Thom e Juilin jamais pensariam em comprar nem mesmo um alfinete. No entanto, apenas parte de sua mente estava focada naquelas escolhas.
— Você já conhecia Thom? — perguntou, em uma voz que esperava ter sido casual. Observou Elayne com o canto do olho enquanto fingia se concentrar em enrolar as meias.
A garota tinha começado a separar as próprias roupas, suspirando para cada uma das sedas antes de colocá-las de lado. Com as mãos enterradas em um dos baús, ela paralisou e nem olhou para Nynaeve.
— Ele era bardo da Corte em Caemlyn quando eu era pequena — respondeu, muito calma.
— Entendi. — Não, ela não entendera nada. Como um homem passava de bardo da Corte, alguém que entretinha a realeza, quase um nobre, para um menestrel a perambular de aldeia em aldeia?
— Ele foi amante de Mamãe depois que Papai morreu. — Elayne voltara a escolher peças de roupa, e falou isso de forma tão casual que Nynaeve ficou embasbacada.
— Amante da sua…!
Mas Elayne ainda não a encarava.
— Só fui me lembrar dele em Tanchico. Eu era muito pequena. Foi por causa do bigode, e de ficar perto o bastante para olhar no rosto dele, e por tê-lo ouvido recitar um trecho d’ A Grande Caçada à Trombeta. Ele achou que eu tinha me esquecido de novo. — O rosto da garota enrubesceu de leve. — Eu… bebi muito vinho, e no dia seguinte fingi que não me lembrava.
Nynaeve só conseguiu balançar a cabeça. Recordava-se da noite em que a tola garota se enchera de vinho. Pelo menos nunca mais repetira o feito. A dor de cabeça na manhã seguinte fora uma Cura efetiva. Foi só então que Nynaeve entendeu por que Elayne se comportava daquela maneira com Thom. Havia visto a mesma cena algumas vezes em Dois Rios. Uma garota que mal tinha idade para de fato se enxergar como mulher. Com quem mais ela competiria, se não com a própria mãe? E, por vezes, não havia ninguém melhor contra quem competir para provar que já se era uma mulher. Em geral, aquilo não levava a nada além de tentativas de ser melhor em tudo, de cozinhar a costurar, ou talvez a alguns flertes inofensivos com o pai. Mas, no caso de certa viúva, Nynaeve já vira uma filha que era quase mulher-feita se transformar em uma tola absoluta, tentando capturar o coração do homem com quem a mãe pretendia se casar. O problema era que Nynaeve não tinha a menor ideia do que fazer com tal tolice de Elayne. Apesar de diversos sermões e muitas broncas da parte de Nynaeve e do Círculo das Mulheres, Sari Ayellin não sossegara até sua mãe ter voltado a se casar e ela mesma também ter encontrado um marido.
— Suponho que ele deve ter sido como um segundo pai para você — especulou Nynaeve, com cautela. Fingiu se concentrar na bagagem. Thom certamente vinha olhando para a garota daquela maneira. Isso explicava muita coisa.
— Não penso nele desse jeito. — Elayne parecia determinada a decidir quantas camisolas de seda levaria, mas seus olhos se entristeceram. — Quase não me lembro de nada do meu pai. Eu era um bebê quando ele morreu. Gawyn diz que ele passava todo o tempo com Galad. Lini tentou minimizar isso da melhor forma possível, mas sei que ele nunca foi visitar Gawyn e eu no berçário. Eu sei que ele teria visitado assim que tivéssemos idade para aprender coisas, como era o caso de Galad. Mas ele morreu.
Nynaeve tentou de novo.
— Pelo menos Thom está bem, para um homem da idade dele. Estaríamos em maus lençóis se ele sofresse de problemas nas juntas. Homens mais velhos costumam sofrer.
— Se não mancasse, ele seria capaz de dar cambalhotas para trás. E eu não me importo que ele manque. Ele é inteligente e sabe muito sobre o mundo. É gentil, e me sinto muito segura ao lado dele. Acho melhor não dizer isso a ele. Do jeito que está, ele já tenta me proteger o suficiente.
Nynaeve suspirou e desistiu. Ao menos pelo momento. Thom talvez visse Elayne como uma filha, mas se a garota continuasse com aquilo, podia ser que o homem se lembrasse de que ela não era, e então Elayne se veria em uma enrascada.
— Thom gosta muito de você, Elayne. — Hora de mudar para algum outro assunto. — Você tem certeza quanto a Galad? Elayne? Tem certeza de que Galad poderia nos denunciar?
A mais jovem se sobressaltou, apagando os vestígios de seu cenho franzido.
— O quê? Galad? Tenho certeza, Nynaeve. E se nos recusarmos a deixar que ele nos leve até Caemlyn, estaremos apenas tomando a decisão por ele.