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— Uma mulher forte — afirmou Thom, com gosto. — Morgase lhe ensinaria a ter modos rapidinho, Nynaeve. — Ela bufou outra vez para ele, frustrada por não estar usando uma trança para puxar, mas o velhote tonto só fez sorrir.

O sol estava alto quando alcançaram o conjunto itinerante, ainda acampado no exato local onde o haviam deixado, na clareira ao lado da estrada. Naquele calor parado, até os carvalhos pareciam definhar um pouco. Tirando os cavalos e os grandes cavalos-javali cinzentos, todos os animais estavam enjaulados, e os humanos também não estavam à vista, sem dúvida dentro dos carroções, não muito diferentes do que eles próprios ocupavam. Nynaeve e os demais já haviam descido do veículo quando Valan Luca apareceu, ainda trajando aquela ridícula capa de seda vermelha.

Desta vez, não houve discursos melífluos, nada de reverências com floreios de capa. Os olhos do homem se arregalaram quando reconheceram Thom e Juilin, e se apertaram ao ver o carroção em forma de caixa atrás deles. Ele se curvou para bisbilhotar dentro dos enormes gorros, e seu sorriso não foi de contentamento.

— Ah, então caímos um pouco na vida, hein, milady Morelin? Ou talvez nunca nem tenha estado lá em cima. Roubou uma carruagem e algumas roupas, não foi? Bem, eu detestaria ver uma testa tão linda ser marcada com ferro quente. É o que eles fazem por aqui, caso não saibam, e isso quando não fazem pior. Então, como parece que vocês foram descobertos, senão não haveria outro motivo para estarem fugindo, eu sugeriria que viajassem o mais rápido possível. Se quiserem sua maldita moedinha de volta, ela está em algum local aí na estrada. Eu a joguei de volta para vocês, e, no que depender de mim, vai ficar aí até Tarmon Gai’don.

— Você queria um patrono — retrucou Nynaeve, no momento em que ele lhes deu as costas. — Podemos ser seus patronos.

— Vocês? — Luca sorriu com desdém. Mas parou. — Ainda que algumas moedas roubadas da bolsa de algum lorde fossem ajudar, eu não posso aceitar moedas rou…

— Vamos pagar suas despesas, Mestre Luca — interrompeu Elayne com aquele tom de voz friamente arrogante que ela tinha —, e ainda lhe daremos mais cem marcos de ouro caso possamos viajar com você até Ghealdan, e caso aceite não parar até chegar na fronteira.

Encarando-a, Luca passou a língua pelos dentes.

Nynaeve soltou um grunhido. Cem marcos, e de ouro! Cem de prata cobririam facilmente todas as despesas dele até Ghealdan ou mais longe, não importava o que aqueles tais cavalos-javali comessem.

— Roubaram tanto assim? — questionou Luca, hesitante. — Quem está atrás de vocês? Eu não me arriscaria contra Mantos-brancos ou o exército. Eles jogariam todos nós na prisão e provavelmente matariam os animais.

— Meu irmão — respondeu Elayne, antes que Nynaeve pudesse negar raivosamente que tivessem roubado alguma coisa. — Parece que um casamento foi arranjado enquanto estive fora, e meu irmão foi enviado até aqui para me encontrar. Não tenho nenhuma intenção de voltar a Cairhien para me casar com um homem uma cabeça mais baixo que eu, três vezes mais pesado e com o triplo da minha idade. — As bochechas da garota ficaram coradas em uma fraca simulação de raiva. O jeito como pigarreou foi mais convincente. — Meu pai sonha em tomar posse do Trono do Sol, caso consiga angariar apoio suficiente. Meus sonhos consistem em um andoriano ruivo com quem vou me casar, não importa o que meu pai diga. E isso, Mestre Luca, é até mais do que você precisa saber a meu respeito.

— Talvez você seja quem diz ser — ponderou Luca com calma —, mas talvez não seja. Me mostre um pouco desse dinheiro que você afirma que vai me dar. Promessas só compram alguns copinhos de vinho.

Com raiva, Nynaeve revirou sua sacola de viagem em busca da bolsa mais gorducha e a sacudiu para o homem, enfiando-a de volta no local assim que ele se esticou para pegá-la.

— Você terá o que precisa conforme a necessidade aparecer. E os cem marcos depois que chegarmos a Ghealdan. — Cem marcos de ouro! Se Elayne continuasse assim, teriam que encontrar um banqueiro e usar aquelas cartas-de-direitos.

Luca emitiu um grunhido amargo.

— Tendo roubado isso de alguém ou não, ainda assim estão fugindo. Não vou arriscar meu espetáculo por vocês, seja por conta do exército ou de um lorde cairhieno qualquer que possa vir procurá-los. O lorde pode ser ainda pior, caso pense que roubei a irmã dele. Vocês vão ter que se misturar a nós. — Aquele sorriso desagradável ressurgiu no rosto do homem. Ele jamais se esqueceria daquela moedinha de prata. — Todo mundo que viaja comigo trabalha em alguma coisa, e, caso não queiram chamar atenção, devem fazer o mesmo. Se os outros souberem que estão pagando pela companhia, vão começar a falar, e não é isso que vocês querem. Limpar as jaulas já basta. Os tratadores dos cavalos vivem reclamando de ter que limpá-las. Vou até encontrar aquela moedinha e devolvê-la para vocês como pagamento. Nunca permitam que se diga por aí que Valan Luca não é generoso.

Nynaeve estava prestes a dizer, e bem objetivamente, que eles não iriam pagar pela viagem a Ghealdan e ainda trabalhar quando Thom pousou a mão em seu braço. Sem uma palavra, ele se curvou para recolher seixos do chão e começou a fazer malabarismo com as pedras, seis em um mesmo círculo.

— Eu tenho malabaristas — informou Luca. As seis viraram oito, depois dez, e uma dúzia. — Você não é ruim. — O círculo virou dois, entrelaçando-se. Luca esfregou o queixo. — Talvez eu consiga encontrar um lugar para você no espetáculo.

— Também sei comer fogo — disse Thom, deixando as pedras caírem —, faço um número com facas — ele abanou as mãos vazias e pareceu tirar um seixo da orelha de Luca — e outras coisinhas mais.

Luca conteve um sorriso.

— Isso basta para você, mas e quanto aos demais? — O homem parecia estar com raiva de si mesmo por ter demonstrado qualquer sinal de entusiasmo ou aprovação.

— O que é aquilo? — perguntou Elayne, apontando.

Os dois postes altos que Nynaeve havia visto serem erguidos agora tinham cordas para lhes dar suporte e uma plataforma plana no topo, uma outra corda esticada e tensionada ao longo das trinta passadas entre os dois. Uma escada de corda se dependurava de cada plataforma.

— Isto é o equipamento de Sedrin — respondeu Luca, e então sacudiu a cabeça. — Sedrin, o andarilho dos céus, deslumbrante em seus feitos a dez passadas de altura em uma cordinha estreita. O tolo.

— Eu consigo andar nela — afirmou Elayne.

Thom a segurou pelo braço quando ela tirou o gorro e avançou para o poste, mas se acalmou após um rápido balançar de cabeça e um sorriso da garota.

Luca, no entanto, barrou a iniciativa.

— Ouça, Morelin, ou seja lá qual for seu nome, sua testa pode até ser linda demais para o ferro quente, mas seu pescoço é ainda mais lindo para acabar quebrado. Sedrin sabia o que estava fazendo, e terminamos de enterrá-lo há não mais que uma hora. Por isso é que todos estão em seus vagões. Claro que ele bebeu muito ontem à noite, após termos sido obrigados a deixar Sienda, mas eu já tinha visto o homem andar ali em cima com a barriga cheia de conhaque. Sabe do que mais? Você não precisa limpar jaula nenhuma. Venha para o meu carroção e iremos dizer para todos que você é minha amada. Só de faz-de-conta, claro. — Seu sorriso astuto indicava que ele esperava mais que um faz-de-conta.

O sorriso que Elayne devolveu ao homem deveria tê-lo congelado.

— Agradeço muito a oferta, Mestre Luca, mas se, por gentileza, você puder me dar passagem… — Ele teve que dar, ou a jovem o teria atropelado.