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— Há muitos s’redit em Seanchan?

O aguilhão ficou imóvel por alguns instantes, então ela continuou a coçar.

— Seanchan? Onde é isso? Os s’redit são de Shara, assim como eu. Nunca ouvi falar de…

— Talvez você tenha ido a Shara, Cerandin, mas duvido muito. Você é Seanchan. A menos que eu esteja enganada, você fez parte da invasão à Ponta de Toman e foi deixada para trás depois de Falme.

— Não tenho a menor dúvida — afirmou Elayne, postando-se ao lado dela. — Ouvimos sotaques Seanchan em Falme, Cerandin. Não vamos lhe fazer mal.

Aquilo era mais do que Nynaeve estava disposta a prometer. As lembranças que tinha dos Seanchan não eram das melhores. E mesmo assim… Uma Seanchan lhe ajudou quando você precisou. Nem todos são maus. Só a maioria.

Cerandin deixou escapar um longo suspiro e seus ombros caíram. Foi como se uma tensão tão antiga, da qual ela já nem se dava mais conta, tivesse ido embora.

— Pouquíssimas pessoas que conheci sabem qualquer coisa que se aproxime da verdade sobre o Retorno, ou Falme. Já ouvi uma centena de histórias, cada uma mais extravagante que a outra, mas nunca a verdade. O mesmo vale sobre mim. Eu fui deixada para trás, assim como muitos dos s’redit. Estes três foram os únicos que consegui reunir. Não sei o que aconteceu com o restante. O macho é o Mer, a fêmea, Sanit, e a novinha é a Nerin. Ela não é de Sanit.

— Era isso que você fazia? — indagou Elayne. — Treinava os s’redit?

— Ou você era sul’dam? — acrescentou Nynaeve, antes que a mulher pudesse responder.

Cerandin balançou a cabeça.

— Fui testada, como todas as garotas são, mas não consegui usar o a’dam. Fiquei contente por ter sido escolhida para trabalhar com os s’redit. São animais magníficos. Vocês devem conhecer bastante coisa para saberem sobre sul’dam e damane. Nunca tinha encontrado ninguém que soubesse a respeito. — Ela não demonstrava medo algum. Ou talvez já tivesse gastado todo o seu temor desde que fora abandonada em uma terra estranha. Mas também podia estar mentindo.

Os Seanchan eram tão maus quanto os amadicianos no que se referia às mulheres capazes de canalizar, talvez piores. Não exilavam ou matavam: escravizavam. Por meio de um dispositivo chamado a’dam — Nynaeve tinha certeza de que se tratava de um ter’angreal — uma mulher que tivesse a habilidade de manejar o Poder Único podia ser controlada por outra mulher, uma sul’dam, que obrigava a damane a usar seus talentos para o que quer que a Seanchan desejasse, até como arma. Uma damane não era mais que um animal, mesmo que fosse um animal estimado. E transformavam em damane toda e qualquer mulher que encontrassem com a capacidade de canalizar ou que tivesse nascido com a centelha. Os Seanchan haviam esquadrinhado Ponta de Toman mais minuciosamente do que a Torre jamais sonhara em fazer. O simples fato de pensar em a’dam, sul’dam e damane fez seu estômago se agitar.

— Sabemos um pouco — disse Nynaeve a Cerandin —, mas queremos saber mais.

Os Seanchan haviam ido embora, afugentados por Rand, mas isso não significava que não retornariam algum dia. Era um perigo distante, comparado a tudo mais que tinham que enfrentar, mas ter um espinho cravado no pé não queria dizer que um arranhão no braço não poderia infeccionar.

— Seria bom para você se respondesse nossas perguntas com sinceridade. — Haveria tempo para isso durante a jornada para o norte.

— Prometo que não vai acontecer nada com você — afirmou Elayne. — Eu vou protegê-la, caso seja necessário.

A mulher loura olhou de uma para a outra e, de repente, para a surpresa de Nynaeve, se prostrou no chão diante de Elayne.

— É mesmo uma Grã-lady desta terra, conforme disse Luca. Eu não percebi. Me perdoe, Grã-lady. Eu me rendo. — E beijou o chão à frente dos pés de Elayne, enquanto os olhos da garota pareciam prontos para saltar do rosto.

Nynaeve tinha certeza de que os seus não estavam muito diferentes.

— Levante-se — sibilou, olhando freneticamente para os lados para ver se alguém estava observando aquilo. Luca estava, maldito fosse! E Latelle também, ainda de cara feia, mas não havia nada a se fazer. — Levante-se! — A mulher nem se mexeu.

— Fique de pé, Cerandin — ordenou Elayne. — Ninguém exige que as pessoas se comportem assim nesta terra. Nem mesmo um governante. — Enquanto Cerandin se atrapalhava para ficar ereta, a garota acrescentou: — Eu vou lhe ensinar a maneira adequada de se comportar em troca de suas respostas para as nossas perguntas.

A mulher se curvou, as mãos nos joelhos e a cabeça baixa.

— Sim, Grã-lady. Como desejar. Eu sou sua.

Nynaeve suspirou pesadamente. Seria uma viagem e tanto até Ghealdan.

18

Um Cão de Caça das Sombras

Liandrin guiou seu cavalo pelas ruas apinhadas de Amador, o sorriso de desdém nos lábios rosados escondido por um grande gorro. Detestava ter tido que abrir mão de suas várias tranças, e odiava mais ainda as modas ridículas daquela terra ridícula. Até gostava do amarelo-avermelhado do chapéu e do vestido de cavalgada, mas não dos grandes laços de veludo em ambos. Ainda assim, o gorro escondia seus olhos — combinados com os cabelos cor de mel, seus olhos castanhos a denunciariam imediatamente como taraboniana, algo nada bom em Amadícia, naqueles tempos —, além do que seria ainda pior de se exibir ali: um rosto de Aes Sedai. Escondida com segurança, podia sorrir com afetação para os Mantos-brancos, que pareciam ser um a cada cinco homens nas ruas. Não que os soldados, que compunham outro quinto da população masculina, fossem melhores. Claro que nenhum deles sequer pensou em espiar seu rosto sob o gorro. Aes Sedai eram foras da lei ali, e isso significava que não havia nenhuma delas por perto.

Mesmo assim, sentiu-se um pouco melhor quando parou à frente dos elaborados portões de ferro da casa de Jorin Arene. Mais uma viagem infrutífera em busca de alguma mensagem da Torre Branca. Não houvera nada desde que ficara sabendo que Elaida pensava estar no controle da Torre e de que a tal Sanche fora deposta. Siuan escapara, verdade, mas, àquela altura, não passava de um trapo inútil.

Os jardins por detrás do muro cinzento estavam cheios de plantas já secando pela falta de chuva, mas podadas em cubos e bolas, embora uma tivesse a forma de um cavalo saltando. Só uma, claro. Mercadores como Arene imitavam seus superiores, mas não ousavam ir muito longe para que ninguém os visse como excessivamente convencidos. Sacadas elaboradas decoravam a grande casa de madeira com telhado vermelho, que tinha até colunas entalhadas formando uma colunata. Mas, ao contrário da residência de lordes que pretendia copiar, essa colunata ficava sobre uma fundação de pedra de não mais que dez pés de altura. Uma pretensão infantil de agir como um nobre.

O homem grisalho e cerimonioso que se adiantou apressada e com deferência para segurar os estribos para que Liandrin descesse e depois pegou as rédeas estava todo vestido de preto. Quaisquer cores que um mercador escolhesse como uniforme decerto seriam as cores de algum lorde de verdade, e até um lorde menor poderia causar problemas para o mais rico comerciante. O povo nas ruas se referia ao preto como “uniforme de mercador” e prendia o riso quando tocava no assunto. Liandrin menosprezava o casaco preto do cavalariço tanto quanto a casa e o próprio Arene. Um dia teria propriedades de verdade. Palácios. Aquilo lhe havia sido prometido, bem como o poder que viria junto.