Tirando as luvas de cavalgada, seguiu pela rampa ridícula que levava até as portas da frente, entalhadas com vinhas. As propriedades fortificadas dos lordes possuíam rampas, então era óbvio que um mercador que se considerasse importante não poderia ter degraus. Uma jovem serviçal vestida de preto apanhou as luvas e o chapéu no hall de entrada redondo, repleto de portas e reluzentes colunas pintadas e entalhadas, além de uma sacada que o circundava. O teto era laqueado com a imitação de um mosaico, estrelas dentro de estrelas, pretas e douradas.
— Dentro de uma hora quero tomar meu banho — disse à mulher. — A temperatura estará adequada desta vez, não? — A criada ficou pálida ao fazer sua reverência, gaguejando em concordância antes de se retirar às pressas.
Amellia Arene, mulher de Jorin, surgiu por umas das portas, absorta em uma conversa com um gorducho quase careca trajando um avental branco impecável. Liandrin suspirou com desdém. A mulher era pretensiosa, mas não apenas conversava pessoalmente com o cozinheiro como o tirava da cozinha para discutir as refeições. Tratava o empregado como… como um amigo!
O gorducho Evon a avistou primeiro e engoliu em seco, seus olhos de leitãozinho se desviando imediatamente. Liandrin não gostava de nenhum homem olhando para ela, e, em seu primeiro dia ali, falara com rispidez com o cozinheiro a respeito de como os olhares dele às vezes se estendiam demais. O gorducho tentara negar, mas ela conhecia os hábitos vis dos homens. Sem esperar para ser dispensado pela patroa, Evon voltou quase correndo por onde viera.
A esposa do mercador, que já estava ficando grisalha, era uma mulher inflexível quando Liandrin e as demais chegaram. Agora ficava lambendo os lábios e alisando sem necessidade o vestido de seda verde com laço drapeado.
— Há uma pessoa lá em cima com as outras, milady — disse ela, de modo hesitante. Naquele primeiro dia, pensara que podia se referir a Liandrin pelo nome. — Na sala de estar da frente. Vem de Tar Valon, acredito.
Imaginando quem poderia ser, Liandrin partiu em direção à escadaria mais próxima. Conhecia poucas outras integrantes da Ajah Negra, claro, por motivos de segurança. O que outras pessoas não soubessem, não poderiam trair. Na Torre, só conhecera uma das doze que a acompanharam quando ela partiu. Duas das doze estavam mortas, e ela sabia de quem era a culpa. Egwene al’Vere, Nynaeve al’Meara e Elayne Trakand. Tudo dera tão errado em Tanchico que ela poderia até pensar que aquelas três Aceitas presunçosas tinham estado por lá, exceto pelo fato de elas serem umas tolas que já haviam caído direitinho, e por duas vezes, nas armadilhas que ela própria havia preparado. Que tivessem escapado em ambas as ocasiões não vinha ao caso. Se tivessem estado em Tanchico, teriam caído nas mãos dela, o que quer que Jeaine afirmasse ter visto. Na próxima vez que as encontrasse, elas não escapariam de novo. Liandrin se livraria delas, a despeito de quaisquer ordens.
— Milady — balbuciou Amellia. — Meu marido, milady. Jorin. Por favor, alguma de vocês vai ajudá-lo? Não era a intenção dele, milady. Ele aprendeu a lição.
Liandrin fez uma pausa, apoiando a mão no corrimão entalhado e olhando por cima do ombro.
— Ele não deveria ter achado que seus juramentos para o Grande Senhor poderiam ser convenientemente esquecidos, não é?
— Jorin já aprendeu, milady. Por favor. Ele passa o dia inteiro deitado debaixo dos cobertores, tremendo, e neste calor. Chora sempre que alguém encosta nele ou se fala mais alto que um sussurro.
Liandrin fez uma pausa, como se considerasse as palavras, e então assentiu delicadamente.
— Vou pedir a Chesmal para ver o que pode fazer. Mas entenda que não estou fazendo nenhuma promessa.
Os agradecimentos trêmulos da mulher acompanham-na escada acima, mas Liandrin não prestou atenção. Temaile se deixara levar. Tinha sido da Ajah Cinza antes de se tornar Negra, e, sempre que fazia papel de mediadora, cuidava para dividir sofrimentos igualmente. E obtivera bastante sucesso como mediadora, já que gostava de disseminar a dor. Chesmal disse que o homem talvez fosse capaz de realizar pequenas tarefas dentro de poucos meses, contanto que não fossem pesadas demais e que ninguém levantasse a voz para ele. A mulher tinha sido uma das melhores Curandeiras das Amarelas em gerações, então devia mesmo saber.
Ficou surpresa ao entrar na sala de estar da frente. Nove das dez irmãs Negras que tinham vindo com ela estavam de pé junto aos painéis entalhados e pintados que recobriam o aposento, embora houvesse várias cadeiras com estofamento de seda sobre o carpete com borda dourada. A décima, Temaile Kinderode, estendia uma delicada xícara de porcelana para uma mulher de cabelos escuros, bonita e robusta, que trajava um vestido cor de bronze de corte estranho. A mulher, que estava sentada, parecia vagamente familiar, apesar de não ser Aes Sedai. Aproximava-se claramente da meia-idade e, apesar das bochechas macias, não havia nela aquela expressão de idade indefinida.
Todavia, aquele clima encheu Liandrin de cautela. Temaile tinha uma aparência enganosamente frágil, com olhos azuis grandes e infantis que faziam as pessoas confiarem nela. Naquele momento, aqueles olhos demonstravam preocupação ou desconforto, e a xícara de chá tremeu no pires antes de a mulher apanhá-la. Todos os rostos demonstravam incômodo, exceto o daquela mulher estranhamente familiar. Jeaine Caide, de pele acobreada, vestindo uma das detestáveis indumentárias tarabonianas que costumava usar dentro da casa, ainda tinha lágrimas cintilando nas bochechas. Ela fora uma Verde, e gostava de se exibir para os homens até mais do que a maioria das Verdes. Rianna Andomeran, que fora Branca e continuava sendo uma assassina friamente arrogante, mexia, nervosa, na mecha branca de seu cabelo escuro acima da orelha esquerda. A arrogância da mulher havia sido solapada.
— O que aconteceu aqui? — Quis saber Liandrin. — Quem é você, e o que…? — De repente, a lembrança se acendeu em sua mente. Uma das Amigas das Trevas, uma serviçal em Tanchico que frequentemente se colocava acima de sua posição. — Gyldin!
Aquela serviçal as seguira, de alguma forma, e obviamente estava tentando se passar por uma mensageira Negra com alguma notícia terrível.
— Desta vez você deu um passo bem maior que as pernas. — Buscou saidar, mas, enquanto ainda o fazia, o brilho cercou a visitante, e uma espessa parede invisível bloqueou o acesso de Liandrin à Fonte. Ficou ali, feito um sol, tentadoramente fora de alcance.
— Não fique boquiaberta, Liandrin — anunciou a mulher, com um tom tranquilo. — Você está parecendo um peixe. Não sou Gyldin, sou Moghedien. Este chá precisa de mais mel, Temaile. — A Cinza esguia, com cara de raposa, foi correndo apanhar a xícara, respirando de forma ofegante.
Só podia ser. Quem mais poderia ter intimidado tanto todas as outras? Liandrin olhou para as mulheres de pé ao longo das paredes. Eldrith Jhondar, com seu rosto redondo, pela primeira vez não parecia nem um pouco alheia, apesar de ter uma mancha de tinta no nariz, e balançou a cabeça vigorosamente. As demais pareciam com medo até de se contrair. Liandrin não entendia por que um dos Abandonados — não deviam usar aquele nome, mas usavam entre si —, e justamente Moghedien, teria se disfarçado de serviçal. Aquela mulher tinha ou poderia ter tudo o que bem entendesse. Não apenas um conhecimento do Poder Único maior do que Liandrin sonhava, mas poder em si. Poder sobre os outros, poder sobre o mundo. E imortalidade. Poder e uma vida que não acabaria nunca. Ela e suas irmãs tinham especulado a respeito de discórdias entre os Abandonados. Houvera ordens conflitantes entre eles, e ordens dadas a outros Amigos das Trevas que se opunham às ordens dadas a elas. Talvez Moghedien estivesse se escondendo dos outros doze.
Em uma longa reverência, Liandrin abriu as saias de cavalgada da melhor forma que pôde.
— Nós lhe damos as boas-vindas, Grande Senhora. Com os Escolhidos para nos liderar, com certeza triunfaremos antes do Dia do Retorno do Grande Senhor.