— Muito bem dito — respondeu Moghedien, seca, tomando a xícara novamente das mãos de Temaile. — Isso. Assim está bem melhor. — Temaile parecia absurdamente agradecida e aliviada. O que Moghedien fizera?
De repente, um pensamento ocorreu a Liandrin, e um pensamento indesejado: tratara uma das Escolhidas como uma serviçal.
— Grande Senhora, em Tanchico, eu não sabia que…
— Claro que não sabia — retrucou Moghedien, irritada. — Do que adiantaria eu esperar pacientemente nas sombras se você e estas outras me reconhecessem? — De repente, um sorrisinho brotou em seus lábios, mas não foi refletido no restante do rosto. — Está preocupada com as vezes em que mandou Gyldin ao cozinheiro para ser espancada? — Gotículas de suor brotaram de repente no rosto de Liandrin. — Você acredita mesmo que eu permitiria algo do tipo? Claro que o homem se reportou a você, mas só se lembrava do que eu queria que ele se lembrasse. Na verdade, ele estava com pena de Gyldin, tratada de forma tão cruel por sua senhora. — Moghedien parecia se divertir muito com aquilo. — Ele me deu algumas das sobremesas que preparava para você. Eu não ficaria chateada de saber que ainda está vivo.
Liandrin respirou aliviada. Não iria morrer.
— Grande Senhora, não há razão para me blindar. Também sirvo ao Grande Senhor. Fiz meus juramentos dos Amigos das Trevas antes mesmo de ir à Torre Branca. Busquei a Ajah Negra desde o dia em que soube que era capaz de canalizar.
— Então você é a única deste bando de desorientadas que não precisa aprender quem é sua senhora? — Moghedien arqueou uma sobrancelha. — Eu não teria adivinhado. — O brilho em torno dela desapareceu. — Tenho tarefas para você. Para todas vocês. O que quer que tenham andado fazendo, esqueçam. Vocês são um grupo atrapalhado, como provaram em Tanchico. Com a minha mão segurando o chicote, talvez cacem com mais sucesso.
— Aguardamos ordens da Torre, Grande Senhora — afirmou Liandrin. Atrapalhadas! Tinham quase encontrado o que foram caçar em Tanchico quando a cidade explodira em tumultos. Escaparam por pouco das Aes Sedai que haviam de algum jeito se intrometido em seus planos. Caso Moghedien tivesse se revelado, ou ao menos tomado parte em seu favor, teriam triunfado. Se o fracasso delas era culpa de alguém, era da própria Moghedien. Liandrin tentou alcançar a Fonte Verdadeira, não para abraçá-la, mas para se certificar de que a barreira não tinha sido vedada. Já desaparecera. — Atribuíram a nós grandes responsabilidades, a execução de grandes trabalhos, e certamente receberemos ordens para continuar…
Moghedien interrompeu-a com rispidez.
— Vocês servem a qualquer um dos Escolhidos que decida usá-las. Quem quer que lhes mande ordens, de dentro da Torre Branca, agora recebe as próprias ordens de um de nós, e é bem provável que rasteje por elas. Vocês vão me servir, Liandrin. Esteja certa disso.
Moghedien não sabia quem estava no comando da Ajah Negra. Aquilo foi uma revelação. Moghedien não sabia de tudo. Liandrin sempre imaginara os Abandonados como algo próximo da onipotência, muito além dos mortais comuns. Talvez a mulher realmente estivesse fugindo dos outros Abandonados. Delatá-la certamente lhe garantiria uma posição de destaque. Poderia até se tornar um deles. Havia um truque que aprendera na infância. E era capaz de tocar a Fonte.
— Grande Senhora, nós também servimos ao Grande Senhor. Também recebemos a promessa de vida eterna e poder assim que o Grande Senhor ret…
— Você acha que é igual a mim, irmãzinha? — Desgostosa, Moghedien fez uma careta. — Você esteve no Poço da Perdição para dedicar sua alma ao Grande Senhor? Sentiu o doce sabor da vitória em Paaran Disen, ou as cinzas amargas no Asar Don? Você não passa de uma cadelinha amestrada, não é nem a líder do bando, e vai seguir na direção que eu apontar até que eu ache justo lhe oferecer um lugar melhor. Estas outras também pensaram que eram mais do que são. Quer testar sua força contra mim?
— Claro que não, Grande Senhora. — Não com Moghedien avisada de antemão e pronta. — Eu…
— Mais cedo ou mais tarde vai acabar querendo, e prefiro tirar isso do caminho logo agora, no começo. Por que acha que suas companheiras parecem tão animadas? Ensinei a mesma lição a cada uma delas, hoje. Não vou ficar me perguntando em que momento também devo ensinar a você. Quero resolver isso logo. Experimente.
Lambendo os lábios, cheia de medo, Liandrin correu o olhar pelas mulheres rígidas junto às paredes. Só Asne Zeramene conseguia piscar. Ela mexeu a cabeça de modo discretíssimo. Os olhos oblíquos, as maçãs do rosto altas e o nariz acentuado denunciavam sua origem de Saldaea, e a mulher tinha toda a famigerada ousadia do lugar. Se ela era contra, se seus olhos escuros acusavam uma ponta de medo, então com certeza era melhor se humilhar quanto fosse necessário para fazer Moghedien ceder. Porém, havia aquele truque…
Liandrin ficou de joelhos, com a cabeça baixa, e ergueu os olhos para a Abandonada com um medo que só em parte era fingimento. Moghedien estava relaxada na cadeira, bebericando o chá.
— Grande Senhora, imploro que me perdoe caso eu tenha me excedido. Sei que não passo de um verme sob seus pés. Eu imploro, como alguém que aceitaria ser seu fiel cão de caça, por sua misericórdia desta cadela infeliz.
Os olhos de Moghedien baixaram até a xícara e, em um piscar de olhos, enquanto as palavras ainda saíam aos tropeços de sua boca, Liandrin abraçou a Fonte e canalizou, procurando a brecha que deveria existir na confiança da Abandonada, a brecha que havia na fachada de força de qualquer pessoa.
Mesmo enquanto atacava, a luz de saidar envolveu a outra mulher e a dor tomou conta de Liandrin. Ela se contorceu no carpete e tentou ganir, mas uma agonia maior que tudo o que já sentira silenciou sua boca embasbacada. Os olhos pareciam querer pular da cabeça, a pele, se descascar em tiras. Debateu-se durante uma eternidade e, quando a dor sumiu, tão de repente quanto surgira, a única reação possível foi ficar ali deitada, tremendo e chorando, de boca aberta.
— Está começando a entender? — perguntou Moghedien, tranquila, entregando a xícara vazia para Temaile, instruindo: — Estava muito bom, mas da próxima vez faça um pouco mais forte. — Temaile parecia prestes a desmaiar. — Você não é rápida o bastante, Liandrin, não é forte o bastante, e não sabe o bastante. Aquela coisinha patética que você tentou contra mim. Quer ver como é de verdade? — Moghedien canalizou.
Liandrin a encarou com adoração. Arrastou-se pelo chão e deixou escapar algumas palavras entre os soluços que ainda não conseguia refrear.
— Me perdoe, Grande Senhora. — Que mulher magnífica, como uma estrela nos céus, um cometa, mais maravilhosa que todos os reis e rainhas. — Perdoe, por favor — implorou, beijando a bainha da saia de Moghedien enquanto gorgolejava. — Perdão. Eu sou uma cadela, um verme. — Envergonhava-a profundamente não ter sido sincera ao dizer aquilo antes. Era verdade. Perante aquela mulher, tudo era verdade. — Permita que eu a sirva, Grande Senhora. Permita-me servi-la. Por favor. Por favor.
— Não sou Graendal — respondeu Moghedien, empurrando-a rudemente com o pé calçado em um chinelo de veludo.
De repente, a sensação de veneração desapareceu. Deitada ali, largada, chorando, Liandrin ainda conseguia se lembrar de tudo perfeitamente. Encarou a Abandonada com uma expressão de horror.
— Já está convencida, Liandrin?
— Sim, Grande Senhora — conseguiu responder. Estava. Convencida de que nem ousaria voltar a pensar em uma nova tentativa até estar certa de que teria sucesso. Seu truque era apenas a sombra mais pálida do que Moghedien fizera. Mas se pudesse aprender…
— Vamos ver. Acho que você pode ser daquele tipo que precisa de uma segunda lição. Reze para que não seja assim, Liandrin. Minhas segundas lições são bastante duras. Agora vá para o seu lugar junto às outras. Vai perceber que eu peguei alguns dos objetos de Poder que vocês tinham aqui na sala, mas que deixei vocês ficarem com os badulaques que restaram. Não sou gentil?