— A Grande Senhora é gentil — concordou Liandrin, entre soluços ocasionais que não conseguia sufocar.
Claudicante, cambaleou até ficar de pé e foi para o lado de Asne. Encostar na parede ajudou-a a se manter ereta. Viu fluxos de Ar sendo urdidos. Só de Ar, mas, mesmo assim, quando eles vedaram sua boca e impediram o som de penetrar seus ouvidos, Liandrin se encolheu. Decerto não tentou resistir. Nem se permitiu pensar em saidar. Quem poderia dizer do que uma Abandonada era capaz? Talvez até de ler seus pensamentos. Aquilo quase a fez sair correndo. Não. Se Moghedien soubesse o que estava pensando, Liandrin àquela altura já teria sido morta. Ou ainda estaria no chão, gritando. Ou beijando os pés da Abandonada e implorando para servi-la. Tremia incontrolavelmente. Se aquele fluxo não lhe tivesse coberto os lábios, estaria batendo os dentes.
Moghedien urdiu os mesmos fluxos em torno de todas elas, exceto de Rianna, a quem a Abandonada chamou, com um dedo imperioso, para se ajoelhar diante dela. Então Rianna se retirou, e Marillin Gemalphin foi desamarrada e convocada.
De onde estava, Liandrin conseguia ver o rosto de todas, mesmo que não conseguisse ouvir o som que saía de suas bocas em movimento. Claramente, cada mulher estava recebendo ordens sobre as quais as demais nada sabiam. Os rostos, porém, lhe diziam pouco. Rianna mal escutou, um quê de alívio nos olhos, então curvou a cabeça em consentimento e saiu. Marillin pareceu surpresa e, em seguida, ansiosa, mas havia sido uma Marrom, e as Marrons eram capazes de demonstrar entusiasmo com qualquer coisa que lhes desse uma oportunidade de desencavar algum pedaço bolorento de conhecimento perdido. Jeaine Caide foi exibindo, pouco a pouco, uma máscara de terror, primeiro balançando a cabeça e depois tentando cobrir a si mesma e àquele vestido desagradavelmente transparente, mas o rosto de Moghedien se endureceu, e Jeaine anuiu às pressas e partiu, se não com o mesmo ímpeto de Marillin, ao menos tão rápido quanto. Berylla Naron, magra em um nível quase esquelético e das melhores manipuladoras e conspiradoras que existia, e Falion Bhoda, frígida e de rosto comprido, apesar do medo latente, demonstraram tão pouco quanto Rianna. Ispan Shefar, taraboniana como Liandrin, embora de cabelos escuros, chegou a beijar a bainha de Moghedien antes de se levantar.
Só então os fluxos em torno de Liandrin foram desfeitos. Pensou que fosse sua vez de receber só a Sombra sabia qual incumbência, até que viu os fluxos serem dissipados também em torno das mulheres que ainda restavam. O dedo de Moghedien a convocou peremptoriamente, e Liandrin se ajoelhou entre Asne e Chesmal Emry, uma mulher alta e bonita, de cabelos e olhos escuros. Chesmal, que fora Amarela, era capaz de Curar e matar com a mesma facilidade, mas a intensidade com que olhava para Moghedien e a maneira como suas mãos tremiam agarradas às saias indicavam que sua intenção era apenas obedecer.
Liandrin notou que precisaria se guiar por sinais como aquele. Falar a uma das outras sobre sua crença nas vantagens de delatar Moghedien para os demais Abandonados também poderia ser um desastre, caso a mulher em quem confiasse já tivesse decidido que se tornar uma cadelinha daquela Abandonada atendia melhor a seus interesses. Liandrin quase gemeu só de pensar em uma “segunda lição”.
— Vocês, vou manter aqui comigo — anunciou a Abandonada — para a tarefa mais importante. O que as outras fizerem pode render frutos saborosos, mas, para mim, a colheita de vocês será a mais importante. Uma colheita pessoal. Existe uma mulher chamada Nynaeve al’Meara. — Liandrin ergueu a cabeça, e os olhos escuros de Moghedien se estreitaram. — Você sabe de algo a respeito dela?
— Eu a desprezo — respondeu Liandrin, com sinceridade. — É uma bravia imunda que jamais deveria ter sido aceita na Torre.
Tinha aversão a todas as bravias. Sonhando fazer parte da Ajah Negra, ela própria começara a aprender a canalizar um ano antes de entrar na Torre, mas de forma alguma era uma bravia.
— Muito bom. Vocês cinco vão encontrá-la para mim. Eu a quero viva. Ah, sim, viva mesmo. — O sorriso de Moghedien fez Liandrin estremecer. Entregar Nynaeve e as outras duas para ela poderia ser muito conveniente. — Anteontem ela estava em uma aldeia chamada Sienda, talvez sessenta milhas a leste daqui, acompanhada de outra jovem em quem posso estar interessada, mas ambas sumiram. Vocês vão…
Liandrin escutou tudo ansiosamente. Para aquilo, poderia ser um fiel cão de caça. Para o resto, esperaria com paciência.
19
Lembranças
— Minha Rainha?
Morgase ergueu os olhos do livro em seu colo. A luz do sol entrava pela janela da sala de estar adjacente ao quarto. O dia já estava quente, sem nenhuma brisa, e o suor umedecia seu rosto. Não faltava muito para meio-dia, e ela ainda não saíra dali. Aquilo não era comum, ela não conseguia lembrar por que decidira passar uma manhã preguiçosa na companhia de um livro. Ultimamente, parecia incapaz de se concentrar em leituras. De acordo com o relógio dourado na cornija acima da lareira de mármore, uma hora se passara desde que virara a página pela última vez, e não se lembrava das palavras que lera. Devia ser o calor.
O jovem oficial da Guarda de casaco vermelho, ajoelhado e com um dos punhos apoiado no carpete dourado e vermelho, parecia vagamente familiar. No passado, soubera o nome de cada um dos Guardas designados para o Palácio. Talvez fosse o excesso de caras novas.
— Tallanvor — disse ela, para a própria surpresa. Era um jovem alto e forte, mas Morgase não sabia dizer por que se lembrava dele em particular. Será que a sugestão já conduzira alguma visita a ela? Muito tempo atrás? — Tenente da Guarda Martyn Tallanvor.
O homem a encarou, os olhos sérios a um nível alarmante, antes de voltar-se para o carpete.
— Perdoe-me, minha Rainha, mas estou surpreso de a senhora continuar aqui, dadas as notícias que chegaram esta manhã.
— Que notícias?
Seria bom ficar sabendo de mais coisas além das fofocas de Alteima sobre a corte tairena. Às vezes, Morgase tinha a impressão de que havia outra coisa para perguntar à mulher, mas tudo o que sempre faziam era fofocar, o que não lhe parecia muito de seu feitio. Gaebril parecia gostar de escutá-las enquanto ficava sentado naquela cadeira alta diante da lareira, de pernas cruzadas, sorrindo satisfeito. Alteima passara a usar vestidos bastante ousados, e Morgase teria de se pronunciar a respeito. Pareceu se recordar vagamente de já ter pensado naquilo. Bobagem. Se eu tivesse pensado, já teria falado com ela. Balançou a cabeça e percebeu que abstraíra completamente a presença do jovem oficial, que começara a falar, mas parara ao se dar conta de que ela não estava prestando atenção.
— Fale de novo. Eu me distraí. E levante-se.
O homem se levantou, irritado, lançando-lhe um olhar raivoso antes de voltar a fitar o chão. Ela observou o ponto que ele ficara encarando e ruborizou: o decote de seu vestido era extremamente revelador. Mas Gaebril gostava que ela usasse roupas assim. Com esse pensamento, parou de se preocupar com o fato de estar quase nua diante de um de seus oficiais.
— Seja breve — mandou, curta e grossa. Como ele ousa olhar para mim desta maneira? Eu deveria mandá-lo para o açoite. — Que notícias podem ser tão importantes para você pensar que pode invadir minha sala de estar como se fosse uma taverna?
O homem enrubesceu, mas ela não soube se foi de vergonha ou por ele ter ficado com ainda mais raiva. Como ousa estar com raiva de sua rainha? Será que este homem acha que escutá-lo é a única coisa que tenho a fazer?
— Uma rebelião, minha Rainha — alertou o sujeito, em um tom de voz neutro, fazendo desaparecer os pensamentos sobre seus olhares ou sua raiva.