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— Onde?

— Dois Rios, minha Rainha. Alguém ergueu o antigo brasão de Manetheren, a Águia Vermelha. Chegou um mensageiro de Ponte Branca hoje de manhã.

Morgase tamborilou os dedos no livro, pensando com mais clareza do que parecia fazer há muito tempo. Algo a respeito de Dois Rios a incomodava, alguma centelha que ela não conseguia reavivar. A região quase não fazia parte de Andor, e era assim há gerações. Ela e as últimas três rainhas anteriores haviam sofrido muita pressão para manter um controle módico sobre os mineiros e fundidores das Montanhas da Névoa, e mesmo esse controle simbólico teria se perdido caso houvesse um jeito de escoar os metais sem atravessar Andor. Escolher entre manter o ouro, o ferro e os outros metais das minas ou a lã e o tabaco de Dois Rios não tinha sido difícil. Mas uma rebelião não contida, mesmo em uma parte do reino que ela só governava no papel, poderia se espalhar feito um incêndio e atingir lugares que, de fato, lhe pertenciam. E Manetheren, a cidade das lendas e histórias destruída nas Guerras dos Trollocs, ainda sobrevivia na mente de alguns homens. Além disso, Dois Rios era dela. Ainda que o local tivesse sido relegado à própria sorte por muito tempo, ainda fazia parte de seu reino.

— Lorde Gaebril já foi informado? — Com certeza não. Ele mesmo teria trazido a notícia a ela, além de sugestões de como lidar com o problema. As sugestões dele eram sempre certeiras. Sugestões? Pensou se lembrar de Gaebril lhe dizendo o que fazer. Claro que aquilo era impossível.

— Já foi, minha Rainha. — A voz de Tallanvor continuou suave, ao contrário do rosto, onde a raiva contida ainda era latente. — Ele gargalhou. Disse que Dois Rios parecia sinônimo de problema e que algum dia teria que tomar uma providência a respeito. Disse que essa perturbação menor teria que esperar devido a questões mais importantes.

O livro caiu quando Morgase se ergueu de repente, e ela pensou ver Tallanvor sorrindo com amarga satisfação ao passar rápido por ele. Uma serviçal a informou onde Gaebril poderia ser encontrado, e a rainha marchou direto para o pátio colunado com a fonte de mármore e o dique repleto de peixes e vitórias-régias. Ali estava um pouco mais fresco e sombreado.

Gaebril estava sentado na larga mureta branca da fonte com lordes e ladies reunidos ao seu redor. Morgase reconheceu menos da metade. O rosto escuro e quadrado de Jarid, da Casa Sarand, e sua esposa rabugenta de cabelos cor de mel, Elenia. Arymilla, da Casa Marne, com seu sorriso insinuante e os olhos castanhos arregalados de tanto fingir interesse. O esquelético Nasin, da Casa Caeren, que agarrava qualquer mulher que conseguisse encurralar, apesar dos ralos cabelos brancos. Naean, da Casa Arawn, com o habitual sorriso de desdém estragando sua beleza pálida, Lir, da Casa Baryn, um homem teso como um chicote, mas que carregava uma espada; e Karind, da Casa Anshar, com o mesmo olhar indiferente que, segundo alguns, usara para enterrar três maridos. Sobre os demais, nada sabia a respeito, o que era bastante estranho. Mas jamais permitira a entrada de nenhum dos conhecidos no Palácio, salvo em ocasiões oficiais. Todos tinham feito oposição a ela durante a Sucessão. Elenia e Naean haviam cobiçado o Trono do Leão para si. O que Gaebril estava pensando, trazendo toda aquela gente até ali?

— … o tamanho de nossas propriedades em Cairhien, milorde — dizia Arymilla, inclinando-se para Gaebril enquanto Morgase se aproximava. Ninguém fez mais do que lhe dar uma olhadela. Como se ela fosse uma serviçal com o vinho!

— Quero falar com você a respeito de Dois Rios, Gaebril. Em particular.

— Esse assunto já foi resolvido, minha querida — respondeu ele casualmente, mergulhando os dedos na água. — O que me preocupa agora são outras questões. Achei que você fosse ficar lendo durante essas horas mais quentes do dia. Você deveria voltar para o quarto até de noite, quando é mais fresco.

Minha querida. Ele a chamara de “minha querida” na frente daqueles intrometidos! Ainda que Morgase ficasse arrepiada ao ouvir aquilo dos lábios dele quando estavam só os dois… Elenia cobria a boca.

— Acho que não, Lorde Gaebril — afirmou Morgase com frieza. — Você vai vir comigo imediatamente. E estes outros já estarão fora do Palácio antes de eu retornar, ou vou expulsar todos de Caemlyn.

Gaebril se pôs de pé de repente, um homem grande assomando sobre ela. Morgase parecia incapaz de olhar para outra coisa que não seus olhos escuros. Sua pele se arrepiou como se um vento gelado estivesse soprando pelo pátio.

— Você vai entrar e esperar por mim, Morgase. — A voz dele era um urro distante preenchendo seus ouvidos. — Já resolvi tudo o que precisava ser resolvido. Serei seu hoje à noite. Agora você vai entrar. Entre.

Ela já estava erguendo a mão para abrir a porta da sala de estar quando se deu conta de onde se encontrava. E do que tinha acontecido. Gaebril dissera para ela entrar, e ela entrara. Encarando horrorizada a porta, pensou nos sorrisos afetados no rosto dos homens e nas sonoras gargalhadas de algumas mulheres. O que aconteceu comigo? Como fiquei tão enfeitiçada por um homem? Ainda sentia o ímpeto de entrar e esperar por ele.

Confusa, obrigou-se a dar meia-volta e sair dali. Foi um esforço. Por dentro, hesitava só de pensar na decepção de Gaebril ao não encontrá-la onde esperava, e se contraiu mais ainda ao notar aquela hesitação.

A princípio, não sabia para onde estava indo ou por quê, só que não ficaria esperando de forma obediente nem por Gaebril e nem por qualquer homem ou mulher no mundo. A cena na fonte não parava de se repetir em sua mente: ele mandando-a entrar, e todos aqueles rostos detestáveis olhando-a, divertidos. Seus pensamentos ainda pareciam embaralhados. Não entendia como ou por que deixara aquilo acontecer. Precisava pensar em algo que conseguisse compreender, qualquer outra coisa com que pudesse lidar. Jarid Sarand e os outros.

Ao assumir o trono, Morgase os perdoara por tudo o que haviam feito durante a Sucessão, assim como perdoara a todos os que se opuseram a ela. Parecera melhor enterrar todas as animosidades antes que elas apodrecessem e se transformassem no tipo de conspiração e intriga que infectava muitas terras. O Jogo das Casas, era como o chamavam — Daes Dae’mar —, ou o Grande Jogo, que causava desde brigas complexas e intermináveis entre Casas até a derrubada de governantes. O Jogo estava no cerne da guerra civil em Cairhien, e não havia dúvida de que influenciara o tumulto que tomava conta de Arad Doman e Tarabon. Tivera que perdoar a todos para impedir que o Daes Dae’mar nascesse em Andor, mas, se pudesse ter deixado alguns documentos de perdão sem assinatura, teriam sido os pergaminhos contendo os nomes daqueles sete.

Gaebril sabia disso. Publicamente, Morgase não demonstrara desfavor, mas, no âmbito privado, sempre falava de sua desconfiança. Eles haviam sido forçados a jurar lealdade, e ela identificara a mentira em suas línguas. Qualquer um ali aproveitaria a chance de derrubá-la, e todos os sete juntos…

Morgase só conseguia chegar a uma conclusão: Gaebril estava tramando contra ela. Mas não devia ter intenção de colocar Elenia ou Naean no trono. Não quando já me tem agindo feito a cadelinha dele, pensou, com amargura. A intenção de Gaebril devia ser suplantá-la pessoalmente. Para se tornar o primeiro rei da história de Andor. E ela ainda sentia o desejo de voltar para a sua leitura e esperar por ele. Ainda ansiava pelo toque daquele homem.

Foi só quando viu os rostos envelhecidos ao redor, as bochechas enrugadas e as costas curvadas, que Morgase percebeu onde estava. O Alojamento dos Pensionistas. Alguns serviçais retornavam para suas famílias quando a idade avançava, mas outros haviam passado tanto tempo no Palácio que já não conseguiam mais pensar em uma vida diferente. Ali, cada um tinha o próprio apartamentinho, o próprio jardim sombreado e um pátio espaçoso. Assim como todas as rainhas que a antecederam, Morgase incrementava as pensões ao permitir que eles comprassem comida abaixo do custo das cozinhas do Palácio, e a enfermaria tratava quaisquer doenças. Mesuras enferrujadas e reverências capengas a acompanharam, bem como murmúrios de “Que a Luz brilhe sobre a senhora, minha Rainha”, “Que a Luz a abençoe, minha Rainha” e “Que a Luz a proteja, minha Rainha”. Ela agradecia a todos de modo um tanto distraído. Àquela altura, já sabia para onde estava indo.