As sombras no jardim, fora da janela, se moveram o equivalente a uma hora antes de Lini retornar com o jovem Tallanvor, que se ajoelhou enquanto a babá ainda fechava a porta.
— De início, ele não queria vir comigo — disse Lini. — Cinquenta anos atrás, suponho que eu poderia ter mostrado o que você está exibindo ao mundo, e ele teria vindo bem rápido, mas agora preciso usar a doçura do bom senso.
Tallanvor virou a cabeça para olhar com amargura na direção da mulher.
— Você ameaçou me bater com uma vara se eu não viesse. Sorte sua eu ter me perguntado o que poderia ser tão importante, em vez de mandar alguém arrastá-la até a enfermaria. — O fungar inflexível de Lini não perturbou o guarda, cujo olhar acre se tornou raivoso ao passar para Morgase. — Soube que sua reunião com Gaebril não foi muito boa, minha Rainha. Minha esperança era de que fosse… melhor.
O homem a fitava diretamente nos olhos, mas o comentário de Lini a fizera ficar novamente consciente do vestido. Sentia como se flechas reluzentes apontassem para seu busto exposto. Foi com muito esforço que manteve as mãos calmamente repousadas no colo.
— Você é um rapaz esperto, Tallanvor. E leal, acredito, ou não teria vindo até mim com a notícia sobre Dois Rios.
— Não sou um garotinho — reclamou ele, se empertigando, ainda de joelhos. — Sou um homem que jurou a vida a serviço da Rainha.
Ela rebateu o mau humor dele de igual para igual.
— Se é um homem, comporte-se como tal. Fique de pé e responda as perguntas de sua rainha com sinceridade. E lembre-se de eu sou sua rainha, jovem Tallanvor. Seja lá o que você pense que possa ter acontecido, eu sou a Rainha de Andor.
— Me perdoe, minha Rainha. Eu a escuto e obedeço. — As palavras foram pronunciadas de maneira adequada, embora não muito arrependidas, mas ele se pôs de pé de cabeça erguida e a encarou de modo mais desafiador do que nunca. Luz, o homem era mais teimoso do que Gareth Bryne.
— Quantos homens leais ainda restam entre os Guardas no Palácio? Quantos vão obedecer seus juramentos e me seguir?
— Eu vou — respondeu ele, em voz baixa, a raiva desaparecendo de repente, embora ele ainda a encarasse sem desviar os olhos de seu rosto. — Quanto aos outros… se deseja encontrar homens leais, deve procurar nas guarnições mais distantes, talvez até Ponte Branca. Alguns dos que estavam em Caemlyn foram mandados para Cairhien junto com os coletores, mas os que ficaram na cidade estão todos com Gaebril. O novo… O novo juramento é ao trono e à lei, não à Rainha.
Era pior do que ela gostaria, mas não mais do que esperara, na verdade. O que quer que fosse, Gaebril não era idiota.
— Então preciso ir para algum lugar, começar a restabelecer meu reinado. — Seria difícil mobilizar as Casas após os exílios, após Ellorien, mas precisava fazê-lo. — Gaebril pode tentar me impedir de deixar o Palácio. — Lembrou-se vagamente de tentar ir embora duas vezes e ser barrada por Gaebril. — Então você vai providenciar dois cavalos e me esperar na rua de trás dos estábulos, ao sul. Encontrarei você lá já vestida para a cavalgada.
— Exposto demais — opinou Tallarvor. — E perto demais. Os homens de Gaebril podem reconhecê-la, não importa quão bom seja seu disfarce. Eu conheço um homem… Será que conseguiria encontrar uma estalagem chamada A Bênção da Rainha, na parte ocidental da Cidade Nova? — A Cidade Nova só era nova em comparação à Cidade Interna, que a circundava.
— Consigo. — Não gostava de ser contrariada, mesmo quando fazia sentido. Bryne também fazia isso. Seria um prazer mostrar àquele jovem quão bem ela era capaz de se disfarçar. Tinha o hábito de fazer isso uma vez ao ano, embora percebesse que ainda não o fizera naquele ano; não se vestira como uma plebeia e caminhara pelas ruas para sentir a pulsação do povo. Ninguém jamais a reconhecera. — Mas podemos confiar nesse homem, Tallanvor?
— Basel Gill é tão leal à senhora quanto eu. — Ele hesitou, o rosto ficando angustiado antes de voltar à raiva. — Por que a senhora esperou tanto tempo? Sua Majestade deve ter ouvido falar, deve ter visto, e ainda assim ficou esperando enquanto Gaebril apertava as mãos em torno do pescoço de Andor. Por que toda essa espera?
Certo. A raiva daquele homem era justificada, merecia uma resposta honesta. Mas Morgase não tinha essa resposta, certamente não uma que pudesse dar.
— Não é seu papel questionar a Rainha, jovem — respondeu, com uma firmeza gentil. — Um homem leal, como sei que você é, serve sem questionar.
Ele deixou escapar um longo suspiro.
— Estarei esperando no estábulo d’A Bênção da Rainha, minha Rainha. — E, com uma reverência adequada para uma audiência oficial, retirou-se.
— Por que você continua chamando-o de jovem? — questionou Lini, assim que a porta se fechou. — Isso o deixa com raiva. “Só um tolo coloca um carrapicho debaixo da sela antes de cavalgar.”
— Ele é jovem, Lini. Tem idade para ser meu filho.
Lini bufou, e desta vez sem nenhuma delicadeza.
— Ele é alguns anos mais velho que Galad, e Galad é velho demais para ser seu filho. Você estava brincando de boneca quando Tallanvor nasceu, e ainda achava que os bebês vinham do mesmo lugar que elas.
Com um suspiro, Morgase se perguntou se a mulher tratara sua mãe daquela maneira. Era provável. E caso Lini vivesse o bastante para ver Elayne no trono — do que, de certa forma, ela não duvidava, já que Lini duraria para sempre —, provavelmente trataria a garota do mesmo jeito. Isso presumindo que ainda haveria um trono para Elayne herdar.
— A questão é: ele é mesmo leal como parece, Lini? Um único Guarda fiel, quando todos os outros homens leais no Palácio foram mandados embora. De repente, me parece bom demais para ser verdade.
— Ele fez o novo juramento. — Morgase abriu a boca, mas Lini se antecipou. — Eu vi o rapaz depois disso, sozinho atrás dos estábulos. Por isso que sabia de quem você estava falando. Acabei descobrindo o nome. Ele não me viu. Estava de joelhos, com lágrimas escorrendo pelo rosto. Ficava pedindo desculpas a você e repetindo o velho juramento. Não apenas à “Rainha de Andor”, mas à “Rainha Morgase de Andor”. Ele fez o antigo juramento com a própria espada, cortando o braço para mostrar que preferiria derramar sua última gota de sangue do que quebrá-lo. Conheço uma ou duas coisinhas sobre os homens, garota. Aquele ali vai ficar ao seu lado contra um exército inteiro, mesmo que conte apenas com as próprias mãos.
Foi bom ouvir aquilo. Se não pudesse confiar em Tallanvor, a próxima pessoa de quem duvidaria seria Lini. Não, de Lini nunca. Ele jurara do jeito antigo? Àquela altura, aquilo só servia para as histórias. E já estava se perdendo em pensamentos de novo. Com certeza o jeito como Gaebril confundia sua mente não funcionaria mais, com tudo que sabia. Então por que uma parte sua ainda queria voltar para a sala de estar e esperar? Precisava se concentrar.
— Vou precisar de um vestido simples, Lini. Um que não vista tão bem. Um pouco de fuligem da lareira e…
Lini insistiu em ir junto. Morgase teria que amarrá-la a uma cadeira para conseguir deixá-la para trás, e não tinha certeza de que aquela velha podia ser amarrada. Sempre parecera frágil e sempre fora bem mais forte do que aparentava.
Quando saíram por um pequeno portão lateral, Morgase não parecia muito consigo mesma. Um pouco de fuligem escurecera seu cabelo louro-acobreado, roubando o brilho e deixando-o escorrido. O suor pingando pelo rosto também ajudava. Ninguém acreditava que rainhas transpiravam. Um vestido largo de lã cinza áspera — muito áspera — e com saias divididas completava o disfarce. Até as anáguas e as meias eram daquela lã áspera. Parecia uma fazendeira que levara a carroça ao mercado e depois decidira ver um pouco da cidade. Lini estava como sempre, pragmática e de costas eretas, trajando um vestido de cavalgada de lã verde, bem-cortado, mas dez anos fora de moda.