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Desejando poder se coçar, Morgase também quis que a outra mulher não a tivesse levado tão a sério quanto ao vestido não cair muito bem. Enquanto enfiava seu vestido decotado sob a cama, a velha babá resmungara algum ditado sobre exibir utensílios que não se estaria disposto a vender, e quando Morgase afirmara que ela tinha acabado de inventá-lo, a resposta de Lini fora “Na minha idade, mesmo que eu invente vai se tratar de um velho ditado”. Morgase suspeitava bastante de que aquele vestido com drapeados horrorosos e que ainda por cima pinicava era um castigo pela roupa anterior.

A Cidade Interna fora erigida sobre colinas, com ruas que acompanhavam a curvatura natural da terra, planejadas para proporcionar vistas repentinas de parques cheios de árvores e monumentos ou torres cobertas de azulejos que, ao sol, reluziam em centenas de cores. De algumas elevações era possível ver toda Caemlyn, até as extensas planícies e florestas além da cidade. Morgase não prestou atenção em nada daquilo enquanto abria caminho apressada em meio à multidão que apinhava as ruas. Em outros tempos, teria tentado escutar as pessoas e avaliar os ânimos. Desta vez, só ouvia o zum-zum-zum e o burburinho de uma grande cidade. Nem pensava em tentar incitá-las. Milhares de homens armados basicamente com pedras e fúria poderiam sobrepujar os Guardas no Palácio Real, mas, caso ela já não soubesse, os tumultos na primavera que haviam chamado sua atenção para Gaebril, além das quase revoltas do ano anterior, teriam lhe ensinado do que aglomerações eram capazes. Sua intenção era voltar a reinar Caemlyn, não vê-la em chamas.

Além das muralhas brancas da Cidade Interna, a Cidade Nova tinha suas próprias belezas. Torres altas e esguias, cúpulas reluzindo brancas e douradas, grandes telhados vermelhos e a enorme muralha externa com suas torres, toda de um cinza pálido rajado de branco e prateado. Amplos bulevares separados por árvores e gramados estavam atulhados de gente, carruagens e carroções. Exceto por reparar que a grama estava morrendo por falta de chuva, Morgase se concentrou em seu objetivo.

Baseada em suas incursões anuais, escolheu cuidadosamente as pessoas para as quais fazia perguntas. Homens, em sua maioria. Sabia a aparência que tinha, mesmo com fuligem no cabelo, e algumas mulheres lhe dariam direções erradas só por inveja. Os homens, por outro lado, quebravam a cabeça para acertar, só para impressioná-la. Mas não os que pareciam muito presunçosos, ou muito grosseirões. Os presunçosos costumavam se ofender por serem abordados, como se também não estivessem a pé, e os grosseirões pareciam pensar que uma mulher pedindo informação na verdade queria outra coisa.

Um sujeito com o queixo grande demais para o rosto, vendendo agulhas e alfinetes em uma bandeja, sorriu para ela.

— Alguém já disse que você parece a Rainha? É uma rainha bem bonita, não importa o que fez a gente passar.

Morgase respondeu ao homem com uma gargalhada estrondosa que lhe valeu um olhar duro por parte de Lini.

— Guarde seus galanteios para a sua esposa. Na segunda curva à esquerda, você diz? Eu lhe agradeço. E obrigada pelo elogio.

Conforme abria caminho pela multidão, sua expressão ficou séria. Já ouvira aquilo demais. Não que se parecia com a Rainha, mas que havia metido os pés pelas mãos. Gaebril aumentara bastante os impostos para, ao que parecia, bancar seus recrutas, mas era ela quem levava a culpa — e corretamente. A responsabilidade era da Rainha. Outras leis também haviam saído do Palácio, leis que faziam pouco sentido, mas que de fato tornaram mais difícil a vida das pessoas. Escutava sussurros a seu respeito, conjecturas de que talvez Andor tivesse sido governada por rainhas por tempo demais. Murmúrios apenas, mas o que um homem ousava dizer baixinho, outros dez pensavam. Incitar multidões contra Gaebril talvez não fosse tão fácil quanto ela pensara.

No fim das contas, encontrou seu objetivo: uma ampla estalagem de pedra, a placa sobre a porta contendo a imagem de um homem ajoelhado diante de uma mulher de cabelos dourados usando a Coroa de Rosas, com uma das mãos na cabeça dele. A Bênção da Rainha. Se aquilo era para ser ela, a semelhança não era das maiores. As bochechas eram gordas demais.

Foi só quando parou à frente da estalagem que Morgase se deu conta de que Lini estava arfando. Estabelecera um ritmo acelerado, e a antiga babá estava longe de ser jovem.

— Me desculpe, Lini. Eu não deveria ter andado tão…

— Se eu não conseguir aguentar seu ritmo, garota, como vou dar conta de cuidar dos bebês de Elayne? Vai ficar aqui parada? “Pés que se arrastam nunca terminam jornadas.” Ele disse que estaria no estábulo.

A mulher de cabelos brancos avançou, resmungando sozinha, e Morgase a seguiu, contornando a estalagem. Antes de pôr os pés no estábulo de pedra, protegeu os olhos para espiar o sol. Não mais do que duas horas para o crepúsculo. Quando Gaebril procuraria por ela, se é que já não estava à procura.

Tallanvor não estava sozinho no estábulo de baias enfileiradas. Quando ele apoiou um dos joelhos no chão coberto de palha, trajando um casaco de lã verde com a espada presa por cima, dois homens e uma mulher também se ajoelharam, ainda que meio hesitantes, inseguros por vê-la naquele estado. O homem robusto de rosto rosado e cabelo já rareando devia ser Basel Gill, o estalajadeiro. Uma velha jaqueta de couro, bem justa e pontilhada de discos de aço, apertava sua cintura, e ele também carregava uma espada.

— Minha Rainha — disse Gill —, faz anos que não carrego uma espada, desde a Guerra dos Aiel, mas seria uma honra se a senhora me permitisse acompanhá-la. — O homem deveria ter parecido ridículo, mas não pareceu.

Morgase examinou os outros dois. Um sujeito grandalhão com um casaco cinza grosseiro, olhos com cílios pesados e nariz quebrado, além de cicatrizes no rosto. E uma mulher bonita e baixa, perto da meia-idade. Ela aparentava estar com o valentão, mas seu vestido de lã azul com gola alta parecia sofisticado demais para que um homem como ele o tivesse comprado.

Mesmo com o olhar preguiçoso, o sujeito sentiu as dúvidas da rainha.

— Sou Lamgwin, minha Rainha, e um bom homem leal. Não é certo o que fizeram, e é preciso consertar as coisas. Também quero acompanhar a senhora. Eu e Breane.

— Levantem-se — ordenou Morgase. — Talvez seja preciso esperarmos alguns dias se passarem antes que seja seguro vocês me tratarem como sua rainha. Ficarei contente com sua companhia, Mestre Gill. E com a sua, Mestre Lamgwin, mas sua esposa ficará mais segura em Caemlyn. Teremos dias difíceis pela frente.

Retirando palha das saias, Breane lhe lançou um olhar incisivo — e Lini, um mais incisivo ainda.

— Já vivi dias difíceis — afirmou a mulher, com sotaque cairhieno. Nascida na nobreza, a menos que Morgase estivesse enganada. Uma refugiada. — E nunca tinha conhecido um homem bom até encontrar Lamgwin. Ou até ele me encontrar. A lealdade e o amor que ele nutre por sua rainha, eu nutro por ele dez vezes mais. Ele acompanha a senhora, mas eu o acompanho. Não vou ficar para trás.

Morgase respirou fundo e, em seguida, assentiu. De qualquer forma, a mulher parecia irredutível. Um belo começo de exército para retomar o trono: um jovem soldado que vivia fazendo cara feia para ela, um estalajadeiro quase careca que aparentava estar há mais de vinte anos sem montar em um cavalo, um valentão das ruas que parecia meio dormindo, e uma refugiada da nobreza cairhiena que deixara claro que sua lealdade se restringia unicamente ao valentão. E Lini, claro. Lini, que a tratava como se ela ainda fosse criança. Ah, sim, um ótimo começo.

— Para onde vamos, minha Rainha? — indagou Gill, começando a guiar cavalos já encilhados para fora das baias. Lamgwin se moveu com velocidade surpreendente para lançar outra sela de cepilho alto em um cavalo, para Lini.