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Morgase se deu conta de que não pensara naquilo. Luz, não é possível que Gaebril ainda esteja embaralhando minhas ideias. Porém, ainda sentia aquele ímpeto de voltar para a sala. Não era ele. Tivera que se concentrar para sair do Palácio e chegar até ali. Em outros tempos, teria procurado primeiro Ellorien, mas Pelivar ou Arathelle serviriam. Assim que descobrisse uma maneira de explicar seus exílios.

Antes que pudesse abrir a boca, Tallanvor respondeu:

— Devemos ir até Gareth Bryne. Há forte rejeição à senhora nas grandes Casas, minha Rainha, mas, com Bryne ao seu lado, todos voltarão a jurar fidelidade, nem que seja porque sabem que ele vai vencer todas as batalhas.

Morgase travou os dentes para frear qualquer recusa imediata. Bryne era um traidor. Mas também era um dos melhores generais vivos. Sua presença seria um argumento convincente quando Morgase tivesse que fazer Pelivar e os demais se esquecerem de que ela os exilara. Muito bem. Não havia a menor dúvida de que ele agarraria a oportunidade de voltar a ser Capitão-General dos Guardas da Rainha. E, se não, conseguiria se virar suficientemente bem sem ele.

Quando o sol tocou o horizonte, já estavam a cinco milhas de Caemlyn e seguiam à toda para Fontes de Kore.

À noite era quando Padan Fain se sentia mais confortável. Conforme avançava devagar pelos corredores adornados por tapeçarias da Torre Branca, a escuridão lá fora parecia criar um manto para escondê-lo dos inimigos, apesar das lamparinas douradas e reluzentes que queimavam ao longo do trajeto. Uma sensação falsa, sabia. Seus inimigos eram muitos e estavam por toda parte. Naquele exato momento, assim como em todas as horas do dia, podia sentir Rand al’Thor. Não onde ele estava, mas que ainda estava vivo, em algum lugar. Ainda vivo. Aquela capacidade de sentir al’Thor fora um presente recebido em Shayol Ghul, no Poço da Perdição.

Sua mente vagou para longe das lembranças do que havia sido feito com ele no Poço. Lá, fora desfeito e refeito. Mas depois, em Aridhol, renascera. Renascera para destruir inimigos antigos e novos.

Sentia algo mais em sua caminhada noturna pelos saguões vazios da Torre: algo que lhe pertencia, que havia sido roubado. Naquele momento, desejou aquilo mais até do que desejava a morte de al’Thor, a destruição da Torre, ou mesmo a vingança contra seu antigo inimigo. Uma fome por ser inteiro.

A pesada porta tinha dobradiças resistentes e alças de ferro, além de um cadeado negro do tamanho de sua cabeça. Poucas portas eram trancadas — quem ousaria roubar em meio às Aes Sedai? —, mas algumas coisas a Torre considerava perigosas demais para deixar acessíveis. A mais perigosas de todas era mantida por detrás daquela porta, guardada por um cadeado robusto.

Rindo baixinho, tirou do bolso duas hastes curvas de metal e inseriu-as na fechadura, experimentando, pressionando e torcendo. Com um estalo vagaroso, o trinco recuou. Por um momento, ficou apoiado contra a porta, gargalhando com voz rouca. Guardada por um cadeado robusto. Cercada pela força das Aes Sedai e guardada por simples metal. Àquela hora, até as serviçais e noviças já deviam ter concluído suas tarefas, mas alguém ainda poderia estar de pé e talvez passasse por ali. Ainda tendo pequenos acessos de riso, guardou as hastes de metal no bolso, de onde pegou uma vela de cera, acendendo o pavio em uma das lamparinas próximas.

Segurou a vela bem alto ao fechar a porta atrás de si e observou o ambiente. Prateleiras forravam as paredes, cheias de caixas simples até baús incrustados de vários tamanhos e formas, pequenas estátuas feitas de osso, marfim ou algum material mais escuro, além de objetos de metal, vidro e cristal que brilhavam à luz da vela. Nada que parecesse perigoso. Tudo estava coberto de poeira. Era raro até as Aes Sedai entrarem ali, e não permitiam acesso a ninguém mais. O objeto que estava procurando o atraiu.

Em uma prateleira à altura da cintura havia uma caixa escura de metal. Ele a abriu, revelando paredes de chumbo de duas polegadas de espessura, com espaço interno suficiente para uma adaga curva em uma bainha dourada, com um rubi bem grande incrustado no cabo. Nem o ouro nem o rubi, de um brilho escuro feito sangue, o interessavam. Apressado, derramou um pouco de cera para prender a vela ao lado da caixa e retirou a adaga.

Suspirou assim que a tocou, espreguiçando-se languidamente. Estava inteiro de novo, formando um único ser junto àquilo com que se unira tanto tempo atrás. Era uma coisa só, unido àquilo que efetivamente lhe dera vida.

Dobradiças de ferro rangeram baixinho, e ele correu para a porta com a lâmina curva nas mãos. A jovem pálida que abriu a passagem só teve tempo de ficar boquiaberta e tentar pular para trás antes que ele lhe cortasse a bochecha. No mesmo movimento, Fain deixou cair a bainha e agarrou a garota pelo braço, puxando-a para dentro do cômodo. Colocando a cabeça para fora, examinou o corredor de ponta a ponta. Continuava deserto.

Não teve pressa de recolher a cabeça e tornar a fechar a porta. Sabia o que iria encontrar.

A jovem estava caída no chão de pedra, tentando gritar, mas sem sucesso. As mãos se agarravam a um rosto já negro e empolado para além do reconhecível, o inchaço escuro descendo até os ombros feito um óleo espesso. As saias cor de neve, com faixas coloridas na barra, agitavam-se enquanto os pés se debatiam inutilmente. Fain lambeu o sangue que espirrara na mão e deu uma risada ao recolher a bainha.

— Você é um tolo.

Deu meia volta, adaga em punho, mas o ar em seu entorno pareceu se solidificar, encapsulando-o do pescoço ao solado das botas. Ficou ali parado, na ponta dos pés, a adaga estendida em posição de ataque, encarando Alviarin, que fechava a porta atrás de si e se apoiava nela para analisá-lo. Não houvera rangido. O suave raspar dos chinelos da garota agonizante no piso de pedra não teria conseguido mascarar qualquer ruído. Fain teve que piscar para afastar o suor, que de repente notou que caía em seus olhos.

— Você realmente pensou — prosseguiu a Aes Sedai — que não haveria vigilância neste aposento, ninguém montando guarda? Colocamos um alarme neste cadeado. Esta noite, a função daquela jovem tola era monitorá-lo. Se ela tivesse feito o que deveria, você encontraria uma dezena de Guardiões e a mesma quantidade de Aes Sedai no lado de fora desta porta agora. Ela está pagando o preço da própria estupidez.

Os sons de agonia atrás dele cessaram, e Fain estreitou os olhos. Alviarin não era da Ajah Amarela, mas, ainda assim, poderia ter tentado Curar a jovem. E também não soara o alarme que a Aceita deveria ter soado, ou não estaria ali sozinha.

— Você é da Ajah Negra — sussurrou ele.

— É uma acusação perigosa — retrucou ela com tranquilidade. Não estava claro para qual dos dois aquilo era perigoso. — Siuan Sanche tentou afirmar que a Ajah Negra existia, quando estava sendo questionada. Ela implorou para nos falar sobre o assunto. Elaida não quis ouvir, e nem vai querer. As histórias a respeito da Ajah Negra são uma difamação vil contra a Torre.

— Você é da Ajah Negra — disse ele, mais alto.

— Você quer roubar isso? — Alviarin soou como se o homem nem tivesse falado. — O rubi não vale a pena, Fain. Ou seja lá qual for o seu nome. A lâmina é maculada, de forma que apenas um tolo tocaria nela sem uma pinça ou ficaria por perto um segundo a mais que o necessário. Dá para ver o que ela fez com Verine. Então por que você veio aqui e foi direto atrás de algo que nem deveria saber onde estava? Você não pode ter tido tempo de fazer uma busca.

— Eu poderia eliminar Elaida para você. Basta um toque nisto aqui, e nem a Cura vai salvá-la. — Ele tentou gesticular com a adaga, mas não conseguiu movê-la nem um fio de cabelo. Se pudesse se mexer, Alviarin, àquela altura, já estaria morta. — Você poderia ser a número um da Torre, não a dois.