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– Houve um acordo – insistiu Vahalla. – Qual foi este acordo?

– Prometi abandonar meus sonhos – disse.

Durante sete anos pagou o preço da troca, mas Deus era generoso, e permitiu que reconstruísse sua vida. O diretor da gravadora, justamente com quem tinha sonhado naquela manhã de maio, arranjou-lhe um emprego e se transformou no único amigo. Voltou a compor, mas sempre que seu trabalho começava a crescer, alguma coisa terminava acontecendo e jogando tudo por água abaixo.

“A gente destrói aquilo que ama”, lembrou-se do que J. dissera.

– Sempre achei que fosse parte da troca – falou.

– Não – respondeu Vahalla. – Deus foi duro. Mas você foi mais duro que Ele.

– Prometi jamais crescer de novo. Achei que nunca mais teria segurança nas minhas palavras.

A Valkíria apertou sua cabeça de encontro aos seios nus.

– Fale dos terrores – disse. – Do terror que vi ao seu lado, quando nos encontramos na lanchonete.

O terror… – ele não sabia como começar, porque parecia que estava dizendo um absurdo. –

O terror não me deixa dormir à noite nem descansar durante o dia. Chris agora entendia seu anjo. Precisava estar ali, escutar tudo aquilo, porque ele jamais lhe contara…

– … eu agora tenho uma mulher que amo, encontrei J., fiz o sagrado Caminho de Santiago, e escrevi livros. Estou sendo de novo fiel aos meus sonhos, e este é o terror. Porque tudo está andando como eu queria, e sei que tudo será destruído em breve.

Era terrível dizer aquilo. Jamais havia comentado com ninguém – nem consigo mesmo. Sabia que Chris estava ali, escutando tudo – e tinha vergonha.

– Foi assim com as músicas – continuou, forçando as palavras para fora. – E foi assim com tudo que fiz desde então. Nada durou mais de dois anos.

Sentiu as mãos de Vahalla retirando o medalhão de seu pescoço. Ele levantou-se. Não queria que ela acendesse a luz, não tinha coragem de enfrentar Chris. Mas Vahalla acendeu a lanterna, e os três começaram a sair, em silêncio.

– Nós duas vamos sair na frente, e você virá depois – disse Vahalla, quando já estavam quase chegando ao final do túnel.

Paulo estava certo de que, assim como sua namorada de quatorze anos atrás, Chris nunca mais confiaria nele.

– Hoje acredito no que faço – tentou dizer, antes que as duas se afastassem. A frase soava como um pedido de desculpas, uma justificativa.

Ninguém respondeu nada. Deram mais alguns passos, e Vahalla desligou a lanterna. Já

entrava luz suficiente para que pudessem enxergar.

– A partir do momento em que você colocar os pés lá fora – disse a Valkíria –, prometa, em nome do arcanjo São Miguel, que nunca mais – NUNCA MAIS – irá levantar a mão contra você mesmo.

– Tenho medo de dizer isto – respondeu ele. – Porque não sei como cumprir.

– Você não tem escolha se quiser ver o seu anjo.

– Eu não sabia o que estava fazendo comigo mesmo, e posso continuar me traindo.

– Agora você já sabe – respondeu Vahalla. – E a verdade liberta. Paulo concordou com a cabeça.

– Ainda vão acontecer muitos problemas em sua vida. Coisas difíceis, ou coisas passageiras. Mas, a partir de agora, apenas a mão de Deus será responsável por tudo – você não vai mais interferir.

– Prometo, em nome de São Miguel.

As duas saíram. Ele esperou um momento, e começou a caminhar. Tinha ficado nas trevas tempo suficiente.

Os raios, refletidos na rocha, indicavam o caminho. Havia uma porta de grade, uma porta que dava para um reino proibido, uma porta que o assustava – porque ali estava o reino da luz, e ele vivera muitos anos nas trevas. Uma porta que parecia fechada – e, no entanto, quem chegasse perto descobriria que estava aberta.

A porta da luz estava adiante. Queria atravessá-la. Podia ver o sol dourado brilhando lá fora; resolveu não colocar os óculos escuros. Precisava de luz. Sabia que o arcanjo Miguel estava a seu lado, varrendo as trevas com sua lança.

Durante anos acreditara na implacável mão de Deus, no seu castigo. Mas era sua própria mão, e não a de Deus, que causara tanta destruição. Nunca mais, em todo o resto de sua vida, faria isso de novo.

– Rompo o acordo – disse para as trevas da mina, e para a luz do deserto. – Deus tem o direito de me destruir. Eu não tenho este direito.

Pensou nos livros que escrevera, e sentiu-se feliz. O ano ia acabar sem nenhum problema –

porque o acordo estava rompido. Com toda certeza surgiriam problemas com seu trabalho, com o amor, com o caminho da magia – coisas sérias, ou coisas passageiras, como dissera Vahalla. Mas, a partir de agora, ele lutaria lado a lado com seu anjo da guarda.

– Você deve ter feito um grande esforço – falou para seu anjo. – E, no final, eu estragava tudo, e você ficava sem entender.

Seu anjo estava escutando. Ele também sabia do acordo e ficou contente por não precisar gastar suas energias evitando que Paulo se destruísse.

Encontrou a abertura na porta, e saiu. O sol dourado cegou-o por muito tempo, mas ele manteve os olhos abertos – precisava de luz. Viu os vultos de Vahalla e Chris se aproximando.

– Ponha a mão no ombro dele – a Valkíria disse para Chris. – Seja a testemunha. Chris obedeceu.

Vahalla tirou um pouco de água de seu cantil, e fez uma cruz em sua cabeça – como se o batizasse novamente. Então ajoelhou-se, e pediu que todos fizessem o mesmo.

– Em nome do arcanjo Miguel, o acordo foi conhecido pelo céu. Em nome do arcanjo Miguel, o acordo foi rompido.

Colocou a medalha em sua testa, e pediu que repetissem suas palavras. Santo anjo do Senhor,

meu zeloso guardador…

A oração da infância ecoava nas paredes das montanhas, e se espalhava por aquela parte do deserto.

Se a ti me confiou

a piedade divina

sempre me rege, e guarda

governa e ilumina.

Amém.

– Amém – disse Chris.

– Amém – repetiu ele.

As pessoas se aproximaram. Havia curiosidade em seus olhos.

– São lésbicas – disse alguém.

– São loucas – disse outro.

As Valkírias amarraram um lenço no outro até formar uma espécie de corda. Depois sentaram-se no chão, em círculo – os braços apoiados nos joelhos, segurando os lenços unidos. Vahalla estava no meio, em pé. Continuou a chegar gente. Quando uma pequena multidão já

se havia formado, as Valkírias entoaram um salmo.

“Nas margens dos rios da Babilônia

nós nos sentamos e choramos.

Nos salgueiros que lá havia

penduramos nossas harpas.”

As pessoas olhavam, sem compreender nada. Não era a primeira vez que aquelas mulheres apareciam na cidade. Já tinham estado ali antes, falando de coisas estranhas – embora certas palavras se parecessem com as que os pastores diziam na televisão.

– Tenham coragem – a voz de Vahalla soava alta e firme. – Abram o coração e escutem o que ele lhes diz. Sigam seus sonhos, porque só um homem que não tem vergonha de si é capaz de manifestar a glória de Deus.

– O deserto enlouquece – comentou uma mulher.

Algumas pessoas se afastaram logo. Estavam fartas de pregações religiosas.

– Não existe pecado além da falta de amor – continuou Vahalla. – Tenham coragem, sejam capazes de amar, mesmo que o amor pareça uma coisa traiçoeira e terrível. Alegrem-se no amor. Alegrem-se na vitória. Sigam o que seus corações mandarem.