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– É impossível – disse alguém na multidão. – Temos obrigações a cumprir. Vahalla virou-se na direção da voz. Estava conseguindo – as pessoas prestavam atenção!

Diferente de cinco anos atrás, quando caminhavam pelo deserto, chegavam nas cidades, e ninguém se aproximava.

– Existem os filhos. Existem o marido e a mulher. Existe o dinheiro a ganhar – disse outra pessoa.

– Cumpram, pois, suas obrigações. Mas elas jamais impediram alguém de seguir seus sonhos. Lembrem-se de que são uma manifestação do Absoluto, e façam nesta vida apenas coisas que valham a pena. Só os que agirem assim entenderão as grandes transformações que estão por vir.

“A conspiração”, pensou Chris enquanto escutava. Lembrou-se do tempo em que ia cantar na praça, junto com outros de sua igreja, para salvar os homens do pecado. Naquela época não falavam em um novo tempo – falavam da volta de Cristo, dos castigos e do inferno. Não havia uma conspiração, como agora.

Caminhou entre a multidão, e viu Paulo. Estava num banco, longe da aglomeração. Resolveu juntar-se a ele.

– Quanto tempo vamos ficar viajando com elas? – perguntou.

– Até que Vahalla me ensine como ver anjos.

– Mas já se passou quase um mês.

– Ela não pode negar. Fez o juramento da Tradição. E terá que cumpri-lo.

A multidão aumentava cada vez mais. Chris ficou pensando como devia ser difícil falar para aquelas pessoas.

– Não vão levá-las a sério – comentou. – Não com estas roupas, e estes cavalos.

– Guerreiam por idéias muito antigas – disse Paulo. – Hoje em dia os soldados se camuflam, se disfarçam, se escondem. Mas os guerreiros antigos iam com suas roupas mais coloridas e mais vistosas para os campos de batalha.

“Queriam que o inimigo os visse. Tinham orgulho da luta.”

– Por que agem assim? Por que pregam nas praças públicas, nos bares, no meio do deserto?

Por que nos ajudam a conversar com os anjos?

Ele acendeu um cigarro.

– Você está certa na sua brincadeira – disse Paulo. – Existe uma conspiração. Ela riu. Se tivesse razão, Paulo já teria dito antes. Não, não existia uma conspiração. Ela criara a denominação porque os amigos do marido pareciam agentes secretos, sempre preocupados em não conversar certas coisas diante dos outros, sempre mudando de assunto – embora jurassem, de pés juntos, que nada existia de oculto na Tradição.

Mas Paulo parecia estar falando sério.

– Os portões do Paraíso foram abertos de novo – disse. – Deus afastou o anjo que estava na porta, com a espada de fogo. Por algum tempo – ninguém sabe exatamente quanto – qualquer um pode entrar, desde que perceba que os portões estão abertos.

Enquanto falava com Chris, Paulo lembrou-se da velha mina de ouro abandonada. Até

aquele dia – uma semana atrás – havia escolhido ficar do lado de fora do Paraíso.

– Quem garante isso? – perguntou ela.

– A Fé. E a Tradição – foi a resposta.

Foram até um vendedor ambulante e compraram sorvetes. Vahalla continuava falando, e seu discurso parecia não ter fim. Daqui a pouco representariam aquela estranha peça teatral, usando os espectadores – e só então o comício estaria terminado.

– Todos sabem dos portões abertos? – perguntou ela.

– Algumas pessoas perceberam – e estão chamando as outras. Mas existe um problema. Paulo apontou para um monumento no meio da praça.

– Suponhamos que ali seja o Paraíso. E cada pessoa está num lugar desta praça.

– Cada uma tem um caminho diferente para chegar lá.

– Por isso é que as pessoas conversam com seus anjos. Porque somente eles conhecem o melhor caminho. Não adianta recorrer aos outros.

“Sigam seus sonhos, e corram seus riscos!”, escutava Vahalla dizer.

– Como será este mundo?

– Será apenas dos que entrarem no Paraíso – respondeu Paulo. – O mundo da “conspiração”, como você diz. O mundo das pessoas capazes de ver as transformações do presente, das pessoas com coragem de viver seus sonhos, escutar seus anjos. Um mundo de todos que acreditarem nele. Houve um burburinho entre os espectadores. Chris sabia que a peça de teatro havia começado. Teve vontade de ir até lá e ver; mas o que Paulo estava dizendo era muito mais importante.

– Durante séculos, choramos nas margens dos rios da Babilônia – continuou Paulo. –

Penduramos nossas harpas, éramos proibidos de cantar, fomos perseguidos, massacrados, mas nunca esquecemos que havia uma terra prometida. A Tradição sobreviveu a tudo.

“Aprendemos a lutar, estamos fortalecidos pela luta. As pessoas agora voltam a falar do mundo espiritual, o que há poucos anos parecia coisa de gente ignorante, acomodada, e existe um fio invisível unindo os que estão do lado da luz – como os lenços amarrados das Valkírias. E este fio forma um cordão forte, brilhante, seguro pelos anjos, um corrimão que os mais sensíveis percebem e em que podemos nos apoiar. Porque somos muitos, espalhados pelo mundo inteiro. Movidos pela mesma fé.”

– A cada dia este mundo tem um nome – disse ela. – Nova Era, Sexta Raça Dourada, Sétimo Raio etc.

– Mas é o mesmo mundo. Eu garanto a você.

Chris olhou para Vahalla, no meio da praça, falando de anjos.

– E por que ela tenta convencer os outros?

– Não, ela não tenta. Viemos do Paraíso, nos dispersamos pela Terra, e estamos voltando. Vahalla pede às pessoas para pagarem o preço desta volta.

Chris lembrou-se da tarde na mina.

– Às vezes é um preço muito alto.

– Pode ser. Mas existem pessoas que estão dispostas a pagar. Elas sabem que as palavras de Vahalla são verdadeiras, porque lhes recordam algo esquecido. Todos ainda carregam na alma as memórias e visões do Paraíso. E podem passar anos sem lembrar – até que acontece alguma coisa: um filho, uma perda séria, a sensação de perigo iminente, um pôr-do-sol, um livro, uma música, ou um grupo de mulheres com roupas de couro falando em Deus. Qualquer coisa. De repente, estas pessoas se recordam.

“Isto é o que Vahalla está fazendo. Lembrando que existe um lugar. Alguns escutam, e outros não – estes passarão pela porta sem notar.”

– Mas ela fala deste novo mundo.

– São apenas as palavras. Na verdade, elas retiraram suas harpas do salgueiro, e estão tocando de novo – e milhões de pessoas, pelo mundo inteiro, cantam novamente as alegrias da Terra Prometida. Ninguém está mais sozinho.

Escutaram o ruído dos cavalos. A peça havia acabado. Paulo começou a andar em direção ao carro.

– Por que você nunca comentou isto comigo? – perguntou ela.

– Porque você já sabia.

Sim, ela sabia. Mas só agora havia lembrado.

As Valkírias seguiam em direção ao Vale da Morte. Iam de cidade em cidade com seus cavalos, chicotes, lenços, roupas estranhas. E falavam em Deus. Paulo e Chris seguiam com elas. Quando acampavam perto de cidades, eles dormiam em hotéis. Quando paravam no meio do deserto, dormiam no carro. Elas acendiam uma fogueira, e o deserto deixava de ser perigoso à noite – os animais não se aproximavam. Podiam dormir ouvindo o uivo dos coiotes, e vendo as estrelas.

A partir da tarde na mina, Paulo começou a praticar a canalização. Tinha medo de que Chris pensasse que ele não sabia direito o que ensinava.

– Eu conheço J. – ela disse, quando tocaram no assunto. – Não precisa me provar isso.

– Minha namorada daquela época também conhecia a pessoa que me ensinava – respondeu ele.

Sentavam-se juntos todas as tardes, destruíam a barreira da segunda mente, oravam para o seu anjo e invocavam sua presença.

– Acredito neste novo mundo – disse para Chris quando terminavam mais um exercício de canalização.

– Estou certo de que você acredita. Ou não faria as coisas que faz em sua vida.

– Mesmo assim, não sei se me comporto à altura.