O personagem surgia – estava vendo com tanta claridade! Transformava-se em uma mulher apaixonada, que seguia junto com o seu homem, carregando sua espada quando necessário e o protegendo de todos os perigos. Era uma mulher forte, embora parecesse fraca. Era alguém que trilhava o caminho do amor como a única estrada possível para chegar até a Sabedoria, um caminho onde os mistérios se revelavam através da Entrega e do Perdão.
Vahalla se vestia de Chris.
E Chris se olhava, refletida na outra.
Começou a andar lentamente em direção à beira do despenhadeiro. Vahalla imitou-a; as duas se aproximaram do abismo. Uma queda dali podia ser mortal, ou causar sérios danos; mas elas eram mulheres – as mulheres não conhecem limites. Chris parou na beirada, dando tempo de a outra se aproximar e fazer o mesmo.
O chão estava dez metros abaixo, e a lua, milhares de quilômetros acima. Entre a lua e o chão, duas mulheres se enfrentavam.
– Ele é meu homem. Não o toque só por capricho. Você não o ama – disse Chris. Vahalla ficou em silêncio.
– Vou dar mais um passo – continuou. – Sobreviverei. Sou uma mulher de coragem.
– Irei com você – respondeu Vahalla.
– Não faça isto. Você agora conhece o amor. É um mundo imenso, terá que usar toda a sua vida para entendê-lo.
– Não farei, se você não fizer. Você agora conhece sua força. Seu horizonte passou a ter montanhas, vales, desertos. Sua alma é grande, e crescerá cada vez mais. Você descobriu sua coragem, e isto basta.
– Basta, se o que te ensinei servir como o preço que ia cobrar. Houve um longo silêncio. De repente, a Valkíria caminhou até Chris. E beijou-a.
– Aceito o preço – disse. – Obrigada por ter me ensinado.
Chris retirou o relógio de seu pulso. Era tudo que tinha para oferecer naquele momento.
– Obrigada por ter me ensinado – disse. – Conheço agora minha força. Jamais conheceria se não tivesse vivido uma estranha, bonita e poderosa mulher.
Com todo carinho, colocou o relógio no pulso de Vahalla.
O sol brilhava no Vale da Morte. As Valkírias amarraram os lenços, tapando o rosto –
deixando apenas olhos de fora. Os cavalos estavam ariscos e excitados. Vahalla se aproximou, puxando seu animal pelas rédeas.
– Não podem ir conosco. Precisa ver o seu anjo.
– Falta algo – disse Paulo. – A aposta.
– As apostas e os pactos são feitos com os anjos. Ou com os demônios.
– Não sei como vê-lo – respondeu ele.
– Você já rompeu o acordo. Já aceitou o perdão. Seu anjo aparecerá para a aposta. Os cavalos não paravam de se mover. Ela colocou o lenço no rosto, montou seu animal e virou-se para Chris.
– Estarei sempre em você – disse Chris. – E você sempre estará em mim. Vahalla tirou a luva, e atirou na direção dela. Depois, levantou o chicote. Os cavalos partiram, deixando para trás uma gigantesca nuvem de poeira.
Um homem e uma mulher andavam pelo deserto. Paravam em cidades com milhares de habitantes, e em vilarejos com apenas um motel, um restaurante e um posto de gasolina. Ninguém perguntava nada – e, à tarde, eles passeavam pelas rochas e montanhas, sentavam-se voltados para o lugar onde a primeira estrela ia nascer, e conversavam com seus anjos.
Ouviam vozes, sentiam impulso de dar conselhos um para o outro, lembravam coisas que pareciam definitivamente esquecidas em algum lugar do passado.
Ela terminava de canalizar a proteção e a sabedoria de seu anjo, e olhava o pôr-do-sol no deserto.
Ele continuava sentado, esperando. Aguardava que seu anjo descesse e se mostrasse em toda a sua glória. Tinha feito tudo certo, agora precisava esperar.
Esperava uma, duas, três horas. Só levantava quando a noite descia por completo; então, pegava sua mulher e retornavam à cidade.
Jantavam, voltavam para o hotel. Ela fingia que dormia, ele ficava olhando o vazio. Ela se levantava no meio da noite, e ia até onde ele estava, pedia que se deitasse ao seu lado. Fingia que havia dormido, que estava com medo de ficar sozinha na cama por causa de algum sonho mau. Ele estendia-se ao seu lado e continuava quieto.
– Você já está conversando com seu anjo – costumava dizer nestas horas. – Tenho escutado você falar enquanto está canalizando. São coisas que você nunca disse na vida, são conselhos de sabedoria –
seu anjo está presente.
Ele acariciava sua cabeça, e continuava quieto. Ela se perguntava se aquela tristeza era realmente por causa do anjo, ou por uma mulher que havia partido, e que nunca tornariam a ver. Esta pergunta ficava trancada em sua garganta, e voltava para o silêncio de seu coração.
Paulo pensava na mulher que havia partido, sim. Mas não era o que o deixava triste. O
tempo estava passando, em breve estaria de volta a seu país. Ia reencontrar-se com o homem que lhe ensinara que os anjos existem.
“Este homem”, imaginava Paulo, “me dirá que o que fiz foi o bastante, que rompi um acordo que precisava ser rompido, que aceitei um perdão que deveria ter aceito há muito tempo. Sim, este homem continuará a me ensinar o caminho da sabedoria e do amor, e eu estarei cada vez mais próximo de meu anjo, conversando com ele todos os dias, agradecendo sua proteção e pedindo seu auxílio. Este homem me dirá que isso é o suficiente.”
Sim, porque J. o ensinara, desde o começo, que existiam fronteiras. Que era necessário ir o mais longe possível – mas havia certos momentos em que era preciso aceitar o mistério, e entender que cada um tinha seu dom. Alguns sabiam curar, outros tinham a palavra da sabedoria, outros conversavam com espíritos, e daí por diante. Era através da soma destes dons que Deus podia mostrar a Sua glória, usando o homem como instrumento. As portas do Paraíso estariam abertas para aqueles que resolvessem entrar. O
mundo estava nas mãos daqueles que tivessem coragem de sonhar – e viver seus sonhos. Cada qual com seu talento. Cada qual com seu Dom.
Mas nada daquilo servia de consolo para Paulo. Ele sabia que Took vira o anjo. Que Vahalla vira o anjo. Que muitas outras pessoas haviam deixado livros, histórias, relatos, contando como tinham visto anjos.
E ele não conseguia ver o seu.
Faltavam seis dias para deixarem o deserto, e começaram o caminho de volta. Pararam na praça de uma pequena cidade, onde a maior parte da população era constituída de velhos. Aquele lugar conhecera seus momentos de glória – quando a mina de ferro que funcionava ali trazia empregos, prosperidade, e esperança aos seus habitantes. Mas, por alguma razão – que eles desconheciam – a companhia havia vendido as casas aos antigos funcionários, e fechara a mina.
– Agora se foram nossos filhos – dizia uma mulher, que havia sentado na mesa deles. – Não resta ninguém, a não ser os mais velhos. Um dia esta cidade vai desaparecer, e todo o nosso trabalho, tudo o que construímos, não significará mais nada.
Há muito tempo não aparecia alguém na cidade. A velha estava contente por ter com quem conversar.
– O homem vem, constrói, tem a esperança de que aquela obra que está fazendo seja importante – continuou ela. – Mas, de uma hora para outra, descobre que estava exigindo mais do que a terra podia dar. Então deixa tudo e segue adiante, sem dar-se conta de que carregou outros para seu sonho – outros que, por serem mais fracos, acabam ficando para trás. Como as cidades fantasmas do deserto.
“Talvez isto esteja acontecendo comigo”, pensava Paulo. “Eu mesmo me trouxe, eu mesmo me abandonei.”
Lembrou-se que, certa vez, um domador lhe contou como conseguiam manter os elefantes presos. Os animais, ainda pequenos, ficavam amarrados por correntes a um toco de pau. Tentavam sair, e não conseguiam, tentavam a infância inteira, mas o pedaço de pau era mais forte que eles. Então acostumaram-se ao cativeiro. E, quando grandes e fortes, bastava o domador colocar a corrente em uma das patas, e amarrar em qualquer lugar – até mesmo num graveto – que não ousavam tentar sair. Estavam presos ao passado.