As longas horas do dia pareciam não acabar nunca. O céu pegava fogo, a terra fervia, e tinham que esperar, esperar, esperar – até que a cor do deserto se transformasse de novo nos tons suaves do tijolo e do rosa. Então era o momento de sair da cidade, tentar mais uma vez a canalização, e esperar mais uma vez o anjo.
– Alguém já disse que a terra produz o suficiente para satisfazer a necessidade, e não a cobiça – continuou a velha.
– A senhora acredita em anjos?
A velha espantou-se com a pergunta. Mas este era o único assunto que interessava a Paulo.
– Quando a gente é velho, e está perto da morte, passa a acreditar em qualquer coisa –
respondeu ela. – Mas não sei se acredito em anjos.
– Eles existem.
– Você viu algum? – havia uma mistura de incredulidade e esperança nos seus olhos.
– Converso com meu anjo da guarda.
– Ele tem asas?
Era a pergunta que todo mundo fazia. Esquecera de perguntar isto para Vahalla.
– Não sei, ainda não o vi.
Por alguns minutos, a velha pensou em levantar-se da mesa. A solidão do deserto enlouquecia as pessoas. Podia ser também que aquele homem estivesse brincando com ela, tentando passar o tempo.
Sentiu vontade de perguntar de onde aquele casal vinha, e o que fazia num lugar como Ajo. Não conseguia identificar o estranho sotaque.
“Talvez venham do México”, pensou. Mas não pareciam mexicanos. Perguntaria quando a oportunidade surgisse.
– Não sei se vocês estão brincando comigo – disse ela – mas, como disse antes, estou próxima de minha morte. Posso durar mais cinco, dez, vinte anos – entretanto, com esta idade a gente termina entendendo que vai morrer.
– Também sei que vou morrer – disse Chris.
– Não, não como um velho sabe. Para você, a morte é uma idéia remota, que pode acontecer um dia. Para nós, é algo que pode vir amanhã. Por isso, muitos velhos passam o tempo que lhes sobra olhando apenas numa direção: o passado. Não é que gostem muito das lembranças; mas sabem que ali não vão encontrar o que temem.
“Poucos velhos olham para o futuro, e eu sou um deles. Quando fazemos isso, descobrimos o que o futuro realmente nos reserva: a morte.”
Paulo não disse nada. Não podia falar da importância da consciência da morte para os que praticam a magia. A velha ia levantar-se da mesa se soubesse que ele era um mago.
– Por isso, gostaria de acreditar que vocês estão falando sério. Que anjos existem –
continuou ela.
– A morte é um anjo – disse Paulo. – Eu já o vi duas vezes nesta encarnação, mas muito rapidamente, não deu para ver seu rosto. Entretanto, conheço pessoas que já o viram, e outras que foram carregadas por ele, e me contaram depois. Essas pessoas dizem que seu rosto é bonito, e seu toque é suave. Os olhos da velha fitaram Paulo. Ela queria acreditar.
– Tem asas?
– É formado de luz – respondeu ele. – Assumirá a forma que for mais fácil para você
receber, quando chegar o momento.
A velha ficou algum tempo quieta. Depois levantou-se.
– Perdi meu medo. Rezei agora em silêncio, e pedi que o anjo da morte tivesse asas quando viesse me visitar. Meu coração me diz que serei atendida.
Deu um beijo em cada um. Não tinha importância saber de onde vinham.
– Foi meu anjo que enviou vocês. Muito obrigada.
Paulo lembrou-se de Took. Eles também haviam sido instrumentos de um anjo.
Quando o sol começou a descer, foram para uma montanha perto de Ajo. Sentaram-se, voltados para o leste, esperando a primeira estrela nascer. Iniciariam a canalização quando isso acontecesse. Chamavam de “contemplação do anjo”. Era a primeira cerimônia criada depois que o Ritual Que Destrói os Rituais varrera as anteriores.
– Nunca perguntei – disse Chris, enquanto esperavam – por que você quer ver seu anjo.
– Mas já me explicou várias vezes que não tinha a menor importância. Sua voz soava irônica. Ela fingiu não ligar.
– OK. Então isto tem importância para você. Me explique o porquê.
– Já contei tudo no dia do encontro com Vahalla – respondeu.
– Você não precisa de um milagre – insistiu ela. – Você quer satisfazer um capricho.
– Não existem caprichos no mundo espiritual. Você aceita, ou não.
– E então? Você não aceitou este seu mundo? Ou tudo que falou é mentira?
“Ela deve estar se lembrando da história na mina”, pensou Paulo. Era difícil responder –
mas ia tentar.
– Eu já vi milagres – começou. – Muitos milagres. Já vimos inclusive alguns milagres juntos. Vimos J. abrir buracos em nuvens, encher de luz a escuridão, mudar coisas de lugar.
“Você já me viu adivinhar certos pensamentos, fazer ventar, executar rituais de poder. Vi a magia funcionar repetidas vezes em minha vida – para o mal, e para o bem. Não tenho dúvidas a este respeito.”
Fez uma longa pausa.
– Mas também nós nos acostumamos aos milagres. E sempre precisamos mais. A fé é uma conquista difícil, que exige combates diários para ser mantida. A estrela ia surgir, precisava acabar logo a explicação. Mas Chris o interrompeu.
– Assim tem sido nosso casamento – disse. – E eu estou exausta.
– Não entendo. Estou falando do mundo espiritual.
– Só consigo entender o que você está falando, porque conheço o seu amor – disse. –
Estamos juntos há muito tempo e, depois que se passaram os dois primeiros anos de alegria e paixão, cada dia passou a ser para mim um desafio. Tem sido muito difícil manter a chama do amor acesa. Ficou um pouco arrependida de ter começado o assunto – mas agora iria até o final.
– Certa vez você me disse que o mundo se dividia entre os agricultores – que amam a terra e a colheita – e os caçadores, que amam florestas escuras e conquistas. Me falou que eu era uma agricultora, como J. Que trilhava o caminho da sabedoria através da contemplação.
“Mas que estava casada com um caçador.”
Sua cabeça funcionava rápido, não conseguia parar de falar. Tinha medo que a estrela surgisse.
– Como foi, e como é difícil ser casada com você! Você é como Vahalla, como as Valkírias, que nunca estão sossegadas, sabem viver apenas a emoção forte da caçada, dos riscos, das noites escuras em busca da presa. No início, achei que não conseguiria conviver com isso; eu, que buscava uma vida igual a tantas outras mulheres, casada com um mago! Um mago cujo mundo é regido por leis que não conheço – uma pessoa que só acredita que está vivendo sua vida quando se encontra diante de um desafio. Encarou-o nos olhos.
– J. não é um mago muito mais poderoso que você?
– Muito mais sábio – respondeu Paulo. – Muito mais vivido e experiente. Segue o caminho do agricultor, e neste caminho encontra seu poder. Eu só conseguirei encontrar o meu poder no caminho do caçador.
– Então por que o escolheu como discípulo?
Paulo riu.
– Pela mesma razão que você me escolheu como marido. Porque somos diferentes.
– Vahalla, você, e todos os seus amigos, só pensam na Conspiração. Nada mais tem importância – estão fixados nesse negócio de mudanças, de mundos novos que vão surgir. Acredito neste novo mundo mas – poxa! – tem que ser assim?
– Assim como?
Ela pensou um minuto. Não sabia exatamente por que dissera aquilo.
– Com conspirações.
– Você é que criou o termo.
– Mas sei que é verdade. E você confirmou.
– Falei que as portas do Paraíso estavam abertas, por um tempo, para quem quisesse entrar. Mas também disse que cada um tinha o seu caminho – e só o anjo pode dizer qual o rumo certo.
“Por que estou agindo assim? O que está acontecendo comigo?”, pensou ela. Lembrou-se das gravuras que via na infância, onde os anjos conduziam crianças pela beira de um abismo. Estava surpresa com as próprias palavras. Já brigara muitas vezes com ele, mas jamais havia falado de magia como falava agora.